segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Sérgio Godinho de Volta ao Coliseu

Sérgio Godinho de Volta ao Coliseu - Sérgio Godinho (EMI, 200)

Sérgio Godinho de Volta ao Coliseu
28 de Fevereiro – 22H00
Há ciclos e ciclos na vida, muitos deles concêntricos, mas alargando os seus desenhos na mesma medida em que a vida se nos vai alargando – assim é qualquer pedrada no charco.
E outros que se vão multiplicando em pequenos outros circulos – aros que se espalham como o fumo da boca das canções.

Ambos são a verdade dos Coliseus, tão verdade como o Coliseu ser redondo e acolhedor.
Depois da grande aventura d’ “O Irmão do Meio”, eis-nos portanto de volta à casa reconhecida, aquela que partilhamos em muitas noites passadas. Quando o digo no plural, falo das canções que nele se vão renovando, falo do mesmo público e do outro que agora já existe, falo dos músicos e dos convidados que também são músicos, os que foram girando comigo nesta roda maluca que dura o tempo exacto das boas ondas de choque do show.

O grupo que toca há já alguns anos comigo, o grupo com quem toco (“que no es el mismo pero es igual”…) foi baptizado informalmente de “Os Assessores”, mas é claro que não sou Presidente de coisa nenhuma. Apenas presido à criatividade geral, enfim, escrevo-lhes os discursos que eles se fartam de alterar e apurar. Também nos rimos muito ao nos levarmos a sério. E levamo-nos a sério.

Foi assim que, no meio de muita estrada, vimos ao longe uma placa que dizia: Coliseu – Rua das Portas de Stº Antão. Antão? Entramos? Arrombamos as portas? Furamos o círculo, a ver como ele, magicamente, se recompõe, se amplia? Acertamos no centro do alvo?

A noite promete…

Sérgio Godinho

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Filho da Selva

Filho da Selva - D-Mars (Loop, 2003)

- "Filho da Selva" é o nome do álbum e também de um tema em conjunto com o Ridículo, queres desvendar um bocado esta expressão ou este titulo?

D-Mars - Selva é principalmente a cidade, é o que todos dizem, que a cidade é uma selva. Neste caso penso que o hip-hop é um filho dessa selva, e então eu também sou um filho dessa selva porque sou um filho do hip-hop aqui em Portugal, junto com os meus irmãos todos, o pessoal todo do movimento. Tem a ver também com os ritmos da cidade, acho que este álbum se identifica com o ritmo urbano, é um álbum mais marcado pela batida do que propriamente pela mensagem das rimas como fazíamos nos Micro.

Por Rui Meireles para H2T - www.h2tuga.net e revista HipHop Nation, Setembro/2003

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Popless

Popless (EMI, 2000)

- Face ao actual nivelar por baixo da música pop, pretendeu-se dar algum significado especial a este título?

Jorge Romão - Pop mais não há.

Rui Reininho - Super Pop. Não, é uma abstracção. Talvez uma maneira simpática de simplificar a coisa porque no final do disco não há nada a dizer e põe-se assim um rótulo: "Popless".

Entrevista de Eurico Nobre / DNmais - 25/03/2000


- Começando pelo princípio: a capa e o título do disco. «Popless», que é, evidentemente, um jogo de palavras com «topless», quer significar «sem pop», «despido» ou o quê?

RR - Deram-me na rua um «flyer» para um «topless show» e nós temos aquelas coisas onde pregamos notas do tipo «telefonar à mãe que faz anos amanhã». Mas acaba por ter a ver com isso. A primeira música é improvisada - que é uma coisa que eu já não fazia desde o «Independança». O produtor deixou-nos um bocadinho à solta. Apesar de brasileiro, era muito europeu, misterioso, bom garfo... Já sabíamos que, com o Jacques Morelenbaum, que trabalhou com o Sakamoto e o Caetano, não podia sair mal. O Toli estava com um pouco de medo, a bateria podia dar para o lado Paul Simon... Mas o homem deixou fazer, pôs só umas pinceladas, não estragou nada, pelo contrário. Cá, nunca ia sair «Divine Comedy» porque não há aquelas orquestrações que eu gostaria. Fica para o meu disco a solo quando todos os outros morrerem no acidente... Aquela ligeira que eu gosto, Marc Almond, António Calvário...

Entrevista de João Lisboa / Expresso, 01/04/2000

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Canções Subterrâneas


+Canções Subterrâneas - A Naifa (Sony, 2004)

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Nove e Meia no Maria Matos

Nove e Meia no Maria Matos - Sérgio Godinho (Universal, )

"Nove e Meia no Maria Matos", o novo disco ao vivo de Sérgio Godinho & Os Assessores com lançamento marcado para dia 28 deste mês, reúne 18 temas de diferentes períodos da sua carreira, recuperando desde os inesquecíveis "A Democracia", "Liberdade", "O Primeiro Dia" ou "Com um Brilhozinho nos Olhos" até aos mais recentes "Às Vezes o Amor", "O Velho Samurai" ou "O Rei do Zum Zum". A música de Sérgio Godinho mantém o mesmo espírito lúdico e interventivo, muito particular. Aos 62 anos, o "escritor de canções" continua a sentir o prazer de jogar com as palavras e de reinterpretar temas que falam sobre paixões e inquietações, muitas das quais geradas dentro de um ambiente politico-social muito diferente do actual. "Penso que um dos motivos porque muita gente nova gosta das minhas canções é porque reencontram pontos afectivos dentro das histórias, dos conceitos, das interrogações, que se reportam à sua própria vida. Fazem soar uma pequena campainha de inquietação, de prazer... de revolta também", afirma.

Em contraponto com o ambiente artificial do estúdio, Sérgio Godinho continua a ter uma predilecção por discos ao vivo. O palco, diz, é "um exercício de risco calculado" onde "as canções estão em permanente transformação". Após a sua saída da EMI, dentro do contexto de reestruturação e de redução do seu catálogo nacional, "Nove e Meia no Maria Matos" assinala o regresso do músico à sua antiga editora, actual Universal. "É Tão Bom", o primeiro single deste novo disco, foi criado originalmente para a série infantil "Os Amigos de Gaspar", transmitida pela RTP nos anos oitenta.

Jorge Simão / Expresso


Sérgio Godinho lança este mês o álbum ao vivo "Nove e meia no Maria Matos", um "exercício de memória" da vida nos palcos, que assinala ainda a transferência do músico da EMI para a Universal.

"Nove e meia no Maria Matos", gravado numa série de espectáculos que decorreu em 2007 naquela sala lisboeta, é o quinto álbum ao vivo de Sérgio Godinho, sendo, por isso, mais um objecto de partilha com o seu público.

"É uma forma de não esquecer os concertos, é o testemunhar de um determinado momento da vida nos palcos que não esteve acessível a toda a gente", disse Sérgio Godinho em entrevista à agência Lusa. São 18 canções, seis delas retiradas de "Ligação Directa", o mais recente de originais, unidas por arranjos de Nuno Rafael, músico que acompanha Sérgio Godinho há cerca de sete anos. Aos temas mais recentes, Sérgio Godinho adicionou canções que nunca tinham tido muita vida de palco, como "Homem-Fantasma" ou "Dias úteis", e outras quase impossíveis de deixar de fora, como "O primeiro dia" e "Com um brilhozinho nos olhos", que têm mais de vinte anos. Para primeiro single deste álbum surge o inesperado "É tão bom", tema da série televisiva infantil dos anos 1980 "Os amigos de Gaspar", que Sérgio Godinho resolveu recentemente incluir no alinhamento ao vivo por "exigência" do público que tem hoje entre 30 e 35 anos. "Aconteceu várias vezes ao vivo pedirem-me para cantar o `É tão bom´ e cada vez que a cantamos há assim uma espécie de `bruá´, sobretudo de uma certa geração e talvez dos pais", conta Sérgio Godinho. São canções que criam empatias com os vários públicos que o têm acompanhado ao longo da carreira musical, desde os que guardam vinis antigos aos que o vêem no Youtube. "Eu olho-me ao espelho e sei que o tempo passa, mas eu transporto em mim diferentes idades da minha vida", diz.

"Nove e meia no Maria Matos" é também um disco de transição da EMI para a Universal, a casa discográfica à qual Sérgio Godinho regressa. A saída da EMI, em 2007, "foi precipitada por uma retracção do catálogo, de retracções brutais do mercado e de o centro de decisões ter sido deslocado", esclarece o cantautor. Apesar de o mesmo estar a acontecer na Universal, com a saída de Tozé Brito e as decisões a serem tomados a nível ibérico, Sérgio Godinho recorda que esta editora é uma casa que conhece muito bem, onde já esteve antes e editou dez discos. Transferências à parte, o músico tenta desligar-se do lado mais burocrático do sistema editorial, sublinhando que as suas "concentrações são mais criativas, de integridade criativa e de liberdade". Por isso é que, além da edição do álbum, Sérgio Godinho se prepara para regressar ao teatro e ser outra personagem - que não o Sérgio Godinho-cantor - numa peça de teatro de José Maria Vieira Mendes que Jorge Silva Melo vai estrear em Abril. "Já não fazia teatro há muito tempo, talvez desde o início dos anos 90, mas desta vez o Jorge Silva Melo queria muito que eu entrasse", assinala o músico, referindo que a peça se chama "Onde vamos morar" e que é uma "história de relações familiares". Sérgio Godinho entende que estes desvios do universo da composição musical são naturais e recorda as peças "A mandrágora", encenada por Ricardo Pais, e "Quem pode, pode", dirigida por João Canijo, como duas das participações que considerou estimulantes. "Tenho uma certa necessidade de me descentrar de mim próprio, de não estar sempre a olhar para o umbigo, de alimentar a carreira, tenho de ter outros focos de interesse", pondera. O músico revela o segredo: "Não podemos estar sempre a olhar para nós, senão o ego fica com algumas sujidades". A música portuguesa agradece.

Fonte: RTP com Agência Lusa

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Movimento

Movimento (EMI, 2001)

Teresa Salgueiro - Todas as músicas têm movimento. E a nossa música não tendo maestro, não tendo baterista, não tendo nada que nos conduza, o fio condutor é exactamente o movimento que nós conseguimos dar às canções. Isto sabendo sempre que dependemos da acustica das salas que nunca é a mesma. Por isso tudo é um trabalho vivo. Ao nível das letras da canções, há também uma continuidade. Pessoalmente gosto imenso destes poemas. (...)

Entrevista de Teresa Salomé / Voxpop, Abril 2001

Metatonia

Metatonia - Madredeus (Farol, 2008)

- Como define o estilo dos Madredeus neste álbum?

É uma banda muito maior agora e a nossa ideia é definir como uma orquestra latina em português. É uma música que está ligada um pouco mais à dança do que anteriormente, e influenciada pela música europeia e africana. Os ritmos africanos há muito tempo que influenciam a música europeia. É nessa linha que nos enquadramos, música europeia influenciada pela música africana.

- Pensaram alguma vez mudar o nome do grupo, por ter havido tantas alterações?

Sim e de certa forma mudámos. Nunca dissemos que o grupo ia acabar, apesar de haver muita gente a dizer. Também quando saiu o acordeão e o violoncelo, já diziam que sem eles o grupo não seria Madredeus. E o grupo não acabou, antes pelo contrário. Fizemos uma grande continuação do trabalho dos Madredeus sem o violoncelo e o acordeão. Desta vez, mantivemos o nome do grupo e acrescentamos Banda Cósmica, que é uma banda nova, que formamos e da qual fazemos parte. É uma banda dedicada a amplificar o som das nossas canções, o trabalho dos nossos temas modernos e antigos. É uma banda para promover e divulgar o repertório de Madredeus, que não é assim tão conhecido como se pensa.

- O nome do álbum define o vosso som?

Metafonia quer dizer além do som. Nos quisemos fazer esta ligação. A banda cósmica é como se fosse um amplificador do espírito, da tradição, do trabalho dos Madredeus e portanto claro que é uma banda com um novo som. Mas o que interessa não é só o novo som, é também o que está além do novo som. Essa foi a ideia original.

Entrevista dada por Pedro Ayres Magalhães a Filipa Estrela / Destak 24/10/2008

Enquanto a Cidade Dorme

Enquanto a Cidade Dorme - Luis Filipe (MBP, 1988)

É de noite que os amores se revelam, e é de noite que eu funciono bem, talvez habituado a um ritmo de vida de doze anos em que trabalhava até de madrugada, explica. Não é música para todos os estilos, porque não acho que seja boa solução tentar agradar a gregos e troianos.

Entrevista de Maria Gabriel Sousa / TV Guia

[phados]

[phados] - Lula Pena (Carbon7/Sabotage, 2000)

- O título do álbum sugere uma transcrição fonética da palavra fados, e na sua música, de facto, parece haver uma espécie de desconstrução sonora dos poemas, explorando as sílabas por trás das palavras. É assim?

É, embora tenha muito respeito pela palavra. Mas o músico tem a capacidade de libertar as palavras do seu sentido semântico, jogando em termos de frequência. Quero explorar a matéria da música.

Entrevista de João Miguel Tavares / DN mais, 15/04/2000

67

67 - Lúcia Moniz

67 refere-se ao número de dias que a cantora passou no estúdio com os músicos.

Magnólia

Magnólia - Lúcia Moniz

Magnólia é a cidade norte-americana onde foi gravado o disco.

Terra Prometida

Terra Prometida - Lena d'Água (CBS, 1986)

A canção "Dou-te Um Doce" é aquela que mais furor tem feito ou, a acreditar nos "vícios" da rádio portuguesa, aquela que os locutores mais têm passado. Disso mesmo se queixa Lena d"Água: Claro que gosto muito desse tema tema; é assim como o "doce" do doce. Mas é preciso não esquecer que o LP também tem músicas mais sérias que remetem para a tal "terra prometida", uma terra em que acreditamos. Pode ser aqui mesmo, nesta sala, entre duas pessoas, ou num auditório, mas desde que sejamos capazes de criar cristais de tempo e de espaço é possível acreditar nessa promessa.

Entrevista de Maria José Lourenço / TV Guia

Aguaceiro

Aguaceiro - Lena d'Água (CBS, 1987)

Da língua de Shakespeare vem o Águas (tradução vernácula do Waters usado pelo bisavô inglês, transformado em d"Água na versão pop a condizer com a imagem da cantora), apelido que se perde na raiz de uma árvore genealógica qe tantos frutos tem dado nos anos mais recentes. Partir das águas para o aguaceiro foi como somar dois e dois; neste caso concreto, como juntar o belíssimo tema composto por Rui Veloso e Carlos Tê a um desejo expresso de encontrar as referências certas.

Introdução da entrevista de Maria João Lourenço / TV Guia

Ou Isto Ou Aquilo

Ou Isto Ou Aquilo - Lena d'Água (Lua Azul/Edisom, 1992)

Somatório das canções de uma peça, "Ou Isto Ou Aquilo", representada pela cantora em fins de 1978. Título de um livro da escritora brasileira Cecília Meireles e de um disco que Lena d"Água considera um "banho de sol e beleza". Editado pela Lua Azul e distribuído pela Edisom.Um trabalho maioritariamente destinado às crianças e ao público juvenil.

Santo António em Abril

Santo António em Abril - Kick Out Of The Jams

Parir o álbum foi um milagre. É como o milagre da revolução, o 25 de Abril, mais os milagres de santo antónio de lisboa.

Geografias

Geografias - Júlio Pereira

- Quinze anos depois "Geografias", é o disco do reencontro com o teu bandolim?

Nem mais! Não diria melhor. É mesmo o regresso do instrumentista.

- Que "histórias" nos queres contar com "Geografias"?

As histórias que criei transformam-se naquelas que tu próprio sentires quando estiveres a ouvi-las. Esta é a magia da música instrumental. O discurso não é... directo, idiomático. Tanto quem toca como quem ouve faz o seu próprio "filme".

- Neste disco, o bandolim cruza-se com a guitarra portuguesa e o bouzouki celta. Fala-nos um pouco dessa fusão.

É a primeira vês que estes dois instrumentos - Bandolim e Guitarra Portuguesa - vão juntos com alguma profundidade. Não foi fácil a solução porque qualquer destes é... "refilão"... não gosta de estar... parado! O Irish Bouzouki é um afim. Uma espécie de Bandola. O amigo calmeirão do Bandolim. Toquei com ele três temas neste disco porque me encantou quando o conheci.

- Convidaste para este disco algumas vozes femininas: Sara Tavares, Marisa Pinto e Isabel Dias. A que se ficou a dever estas escolhas?

publicada por Portugal Rebelde, 20/06/2007

Janelas Verdes

Janelas Verdes - Julio pereira (1990)

Do rés-do-chão da sua casa nas Janelas Verdes, sem contacto algum com o mundo da pintura, Júlio Pereira parte para mais uma aventura musical.

Júlio Pereira tratou, com a ajuda de Henrique Cayatte, de dar a "Janelas Verdes" o formato de obra de arte que tem. A propósito de cada quadro e de cada tema tem coisas para contar, mas é do seu contacto com os pintores que mais gosta de falar, até porque só pode compor baseando-se em atmosferas. E depois? A fala, fala, fala, tudo isto são palavras, mas o que interessa é o que está lá, no disco.

Entrevista de Maria João Lourenço / Tv Guia

Cavaquinho

Cavaquinho / Braguesa / Sete Instrumentos

Como sou músico, e já há de uns anos para cá, entretenho-me com instrumentos de corda, às tantas houve ocasiaõ de tocar num cavaquinho - tocava eu com o Zeca Afonso. Desenvolvi um trabalho de quase três anos e, por dim, como consequência disto tudo, gravei um disco... No LP seguinte, tive a tentação de trabalhar um outro instrumento que lhe estivesse próximo, e dediquei-me à viola braguesa. A partir daí deixei de interessar-me por um único instrumento em termso discográficos.

Entrevista de José Alexandre Honrado / TV GUIA

“Se eu tive tanto êxito com esse disco, o mais normal seria gravar outro com o mesmo instrumento, só que nunca vou pela maneira mais fácil.” É a sua explicação para ter passado do cavaquinho para a braguesa. “Se me dediquei a um instrumento e curti ao máximo as suas características, e o que se podia fazer com ele, acabei por pensar ‘porque é que não faço isso com outro? ‘Até porque quando fiz o ‘Cavaquinho’ já tinha algum contacto com a viola braguesa.” Júlio Pereira descobriu este instrumento “quando ia lá acima ter com o construtor, Domingos Machado”. Ainda na altura em que estava a fazer o ‘Cavaquinho’, comprei uma braguesa. Aí decidi atirar-me a um projecto novo, à descoberta de um instrumento novo”, conta o instrumentista que reconhece ter sido este seu segundo trabalho, e ao contrário do seu antecessor, sobretudo do agrado “de alguns eruditos que o consideraram mais interessante que o próprio ‘Cavaquinho’”, um álbum que, pelas limitações e condicionalismos deste pequeno instrumento de cordas, o próprio autor define como o mais “regionalista” de toda a sua discografia. “De resto, já a atmosfera da primeira parte de ‘Cantar galego’ era feita com a braguesa, já com outra sonoridade.” Entre os que manifestaram a sua preferência por “Braguesa”, contavam-se José Afonso e o etnólogo dr. Ernesto veiga de Oliveira, ambos já falecidos.
Depois do cavaquinho e da braguesa, seguir-se-ia, anos mais tarde, o bandolim. Uma inconstância, ou falta de fidelidade, para a qual Júlio Pereira encontra uma justificação: “Nunca serei uma espécie de Carlos Paredes, porque uma coisa natural que tenho é jeito para tocar vários instrumentos de corda. Tenho a certeza de que nunca me irei dedicar apenas a um. Não há nada a fazer quanto a isso.”
Comparando com “Cavaquinho”, as sessões de “Braguesa” foram “mais difíceis”: “Já era uma gravação que utilizava muitas pistas, ou seja, 24 pistas, uma mesa praticamente nova, isto no Angel Studio 1, que foi o estúdio idealizado e gerido pelo José Fortes.” Estúdio que, pelas suas características inovadoras, representou o ponto de partida para as “melhores gravações nacionais, o que está amplamente demonstrado em discos”. “Braguesa” foi a “segunda experiência” aí realizada. “Só foi um bocado complicado porque já tinha talvez pistas a mais.” Lá dentro, “alguns temas eram tocados parcelarmente ao vivo, quer dizer, podiam tocar três músicos ao mesmo tempo, e noutro tocar só um”. Rodagem para o disco, já tinha sido feita. “Ensaiei com os músicos todos, aliás, nessa altura tinha um grupo do qual faziam parte o Janita, o Serginho [Sérgio Mestre], o Zíngaro e o Rui Júnior.” Com uma excepção: “Em dois ou três dos meus discos costumava fazer um tema final fora do contexto geral, onde houvesse uma onda mais ou menos de improvisação e sobretudo algo que fosse mais contemporâneo do que antigo. Neste caso foi ‘Quatro elementos’, onde entrava a Amélia [N.R.: Amélia Muge, então uma ilustre desconhecida, que Júlio Pereira conheceu em Moçambique, quando a cantora andava em digressão com José Afonso] e o Edgar Caramelo, embora inicialmente estivesse prevista a presença do Rão Kyao. Só que o Rão Kyao teve uma atitude esquisita, mandando o ‘manager’ dizer que eu queria ganhar quatro vezes mais do que os restantes músicos. Claro que não permiti isso, como é óbvio.”

Entrevista de Fernando magalhães / Público, 12/07/1995
http://poeira-cosmica-fm.blogspot.com/2008/06/jlio-pereira-braguesa.html

O Meu Bandolim

O Meu Bandolim

Quando eu digo "O Meu Bandolim", é no sentido em que há um músico que procurou uma maneira pessoal, ainda que baseada na tradição, de tocar aquele instrumento.

entrevista de Júlio Pereira a Maria João Lourenço / Tv Guia

Só - Jorge Palma

- Isto é uma teoria minha, mas já agora o Jorge pode confirmar se era… O "Só" surgiu, justamente, mais ou menos na altura em que acabaste o curso de piano… Será que foi uma série de tu dizeres, pronto, "agora acabei o curso de piano, agora deixa-me cá fazer uma coisa a sério com o piano"…

Foi, obviamente. Havia malta de editoras, o David Ferreira, o Tozé Brito, também, havia gente a dizer: eh pá, tens que fazer um disco só a tocar piano e a cantar. Mas há tempos que eles diziam isso…! E agora o David Ferreira vai mais longe, e anda-me a chatear- a chatear entre aspas- para eu gravar um disco sem voz, sequer, só piano. (risos) Tipo música de hotel… Mas é evidente que quando eu me preparei para o exame final, eu estava com os dedinhos em forma, eu estava lá… Portanto, porreiro. A ideia acho que foi do David Ferreira, mas, entretanto, eu gravei esse disco para a Universal… Foi sugerido pelo David Ferreira e eu gravei para a Universal porquê? Porque tinha gravado o Bairro do Amor para a Universal e deixei-me estar. No fundo, foi isso.

- Mas não achas que, como músico e com o impacto que tens, que não podes sugerir às pessoas que elas comecem a procurar também, ouvir outras coisas?

Sair dos acordes do costume, isso eu tenho procurado, de uma maneira mais ou menos subtil…

- Nos teus improvisos sente-se muito…

E mesmo nos arranjos tenho procurado enriquecer um bocado as harmonias, e não sei quê… Os Clã estão a desbravar, estão a fazer uma música já um bocado fora do Dó, Lá m, Fá, Sol… Estão a fazer… Estou a gostar das harmonias, da textura…

- Mas os Clã têm uma componente electrónica que tu não tens, não é…

Pois, exacto…

- …e, se calhar, também se presta mais a fazer isso sem pôr em choque muito…

Eu sou um nabo com esse aparelhos, com essa coisas… Mas eu estou a gravar com o Miguel dos Clã, com o Miguel Ferreira. Portanto… (risos) Ainda vamos ver o que é que vai acontecer, em termos de som.

Entrevista de Tiago Videira e Isa Peixinho/Inside, 29 Junho 2004


+Jorge Palma este em misturas do seu novo LP "Espelhos" (Blitz Jan85)

Jorge Palma

Jorge Palma - Jorge Palma (EMI, 2002)

Este álbum esteve para se chamar "Tempo dos Assassinos" e, depois, "Está-se Tudo a Passar". Acabou por ficar com o título "Jorge Palma" e não com "É Proibido Fumar", como muita gente pensa, em virtude da capa. A fotografia da capa do álbum foi tirada no Bar Speakeasy, onde se realizou a festa de lançamento do disco, sem qualquer premeditação.

notas sobre o álbum no site http://jorgepalma.web.pt

Norte

Norte - Jorge Palma (EMI, 2004)

Quando soube que o Mário Barreiros não só estava disposto a produzir o meu CD, como teria muito gosto em fazê-lo, percebi que era altura de meter mãos à obra. Agosto foi o mês escolhido, "bora p"ró Norte! O Elvis Costello tinha-se antecipado na ideia do título, mas acho que ninguém se vai ralar muito com isso.

Texto de Jorge Palma, Setembro 2004

Lavrar Em Teu Peito

Lavrar Em Teu Peito - Janita Salomé (EMI, 1985)

Se entre a poesia popular e a de um José Afonso há afinidades notórias, mais dificil se torna estabelecer um elo visível de ligação entre elas e a obra de Fernando Pessoa, de quem também cantas no teu novo disco um poema, "Conta-me Contos, Ama....". Não será que essa diversidade de referências é indicio de dispersão ou de falta de coerência de "Lavrar em Teu Peito"?

De facto, não existe no disco um conteüdo, uma concepção ideológica subjacente a conferir-lhe essa tal coerência.

O que procurei Imprimir-lho não foi uma mensagem entendida nesse sentido, mas mais um estado de espirito. "Lavrar em Teu Peito" é ou quer ser a sagração do amor como forma superior de existir — o que o define e o estar enamorado, pelo espirito, pela vida, pelo próprio amor.

Nesse contexto, o poema de Pessoa enquadra-se perfeitamente, porque é também ele um poema de amor, de harmonia e fusão espiritual entre dois homens, o próprio poeta e Mario de Sá Carneiro.

Entrevista de jornal Blitz, 03/09/1985

Que Fado É Este Que Trago?

Que Fado É Este Que Trago? (HM Música/Farol)

- A primeira pergunta, inevitável, é: afinal, que fado é este que trazes?

Se eu próprio faço essa pergunta, é porque também não sei muito bem. É o meu fado, o fado em que eu acredito. E é todo o fado, desde o tradicional até aos chamados fados-canção e aos originais, que ainda não sabemos muito bem se são fados e que, obviamente, ainda não são clássicos porque são novos, embora um dia possam vir a ser considerados como tal se forem aceites pelo grande público e até pela comunidade fadista. Sei que sou fadista, não caí aqui de pára-quedas, mas no fundo não sei lá muito bem qual é o meu fado.

Entrevista de António Pires/Time Out

Tricot No País das Maravilhas

Tricot No País das Maravilhas - Gonçalo Pereira

- Na ficha técnica de "Guitarristas" o seu nome aparece como Gonçalo "Tricot" Pereira. De onde lhe vem essa alcunha?

GONÇALO PEREIRA - Foi o Paulo Gonzo que me a pôs. Tem a ver com uma técnica, o "picado", que usava muito nos ensaios. ele começava logo a gozar, fazia o gesto de tricotar: "Lá está ele no seu ‘tricot’. Olha, faz-me aí umas meias para o Natal!..."

fM 24.04.1998

"Tricot" era o nome que lhe costumavam chamar quando tocava com Paulo Gonzo. O título "Tricot No País das Maravilhas" foi escolhido porque é de certa forma ambíguo, porque não se sabe se "Tricot" é nome ou verbo. Mas pode-se considerar que o Pais das Maravilhas é o imaginário de todos nós, ou neste caso, o imaginário dele.

In Vivo

In Vivo - GNR

O álbum foi o menos In Vitro possível. Não houve laboratório, não houve tubo de ensaio. E eu gosto muito de latim.

Bocas do Inferno

Bocas do Inferno - Gaiteiros de Lisboa (Farol,)

- Toda a apresentação do disco e mesmo alguns títulos dos temas apontam para uma preocupação vossa em mostrar os instrumentos, alguns deles bastante estranhos, que utilizaram. É o lado didáctico dos Gaiteiros?

Carlos Guerreiro - A capa foi idealizada por mim. Lembro-me que, quando comecei a ouvir discos de música mais esquisita, como aquelas edições de Le Chant Du Monde, uma das coisas que me dava um gozo imenso era pegar na capa. Inclusivamente, foi a partir de algumas dessa capas que comecei a construir os meus primeiros instrumentos, como flautas de Pã, afinadas como lá vinha. É importante as pessoas perceberem o que é que está aproduzir determinado som. Se não, bastava põr a marca do sintetizador...

- Não são poucos os instrumentos que utilizaram...

José Manuel David - Vinte e cinco! A sala de ensaio é um bocado como um museu. Até com inStrumentos que nunca utilizámos.

- A escolha para cada tema deve ser difícil...

José Manuel David - Seria mais fácil se tivéssemos uma formação do tipo rock, com vocalista, guitarras, uns teclados, um baixo e uma bateria, cada um a tocar só aquilo.

Carlos Guerreiro - O que eu acho milagre é, por exemplo, os Rolling Stones conseguirem viver há 30 anos sempre a tocar os mesmos instrumentos! Mas isto também tem a ver com outra coisa. A música é um bicho que se pode agarrar por muitos sítios, pelos cornos, pelo rabo, pelas patas, pela pele, pelo lombo... A nossa atitude não tem nada a ver com a da maior parte dos outros músicos.

- Em "Bocas do Inferno" as gaitas-de-foles têm um papel mais discreto do que no álbum de estreia. Será que começa a fazer pouco sentido a designação do grupo?

Rui Vaz - Costumo dizer que nos chamamos Gaiteiros de Lisboa porque em Lisboa não há gaiteiros. Acontece uma coisa engraçada na Galiza. O nome "gaiteiro" desencadeia logo algo na Galiza que não tem nada a ver connosco. Isso tanto pode funcionar a nosso desfavor como a nosso favor. Mas há quem na Galiza já ouça a nossa música como ela deve ser ouvida, uma música de pessoas que naõ se preocupam muito com a afinação, mas sim em não tocar sempre a mesma "muineira".

- Já têm algumas indicações sobre as vendas de "Bocas do Inferno"?

Carlos Guerreiro - Já se venderam dois mil, ao fim de três semanas. As "Invasões Bárbaras" venderam cinco mil em dois anos...

- Depois da barbárie, o Inferno. Fizeram algum pacto com o Diabo?

José Manuel David - Talvez, metaforicamente. Para este disco, não. Mas para o próximo talvez venha a se chamado mesmo.

Carlos Guerreiro - Devíamos pedir um subsídio para o disco ser vendido juntamente com aquelas acendalhas para lareira, "Lúcifer"! [risos]

Entrevista de Fernando Magalhães / Público, 02/01/1998

Homem Máquina

A nível lírico este disco é diferente também dos anteriores, que exploravam conceitos.
É natural que seja mas não será assim tão linear. O "Homem Máquina" foi uma consequência do "Bestiário". É um ciclo – um círculo, até – que se fecha ali, independentemente de já estarmos a pensar no "Ódio". O novo disco foi-se fazendo, mas na base das canções que foram surgindo. Nos dois anteriores pensámos primeiro num título.

O "Bestiário" será à volta da relação Homem / Besta e suas criações, como figuras mitológicas e tudo o resto – no fundo são os bodes expiatórios que o Homem sempre arranjou para lhes imputar as nossas características mais negativas.

O "Homem Máquina" era um bocado sobre aquela mesma dualidade com mais uma das criações, mas desta vez uma criação mais recente e mais moderna, que são as máquinas. As máquinas, na maior parte dos filmes e nas criações de ficção científica, são malévolas e às vezes até lhes dão vontade própria, atribuindo-lhes sentimentos que são exclusivos do Homem.

Voltando ao "Ódio"... partiu daquele princípio: "Vamos juntar-nos, estamos cheios de vontade de fazer um disco e vamos fazendo músicas". Depois o tema acabou por ser um bocado recorrente. Não entrámos naquela questão panfletária porque os Bizarra nunca foram de querer pensar pelas outras pessoas, mas foi sobre aquilo que estamos a sentir, contar histórias – outras coisas não têm nada a ver com aquilo que estamos a sentir e são mesmo só contar histórias – e outras eram aqueles sentimentos sobre aquilo que está a acontecer na minha vida, neste caso, porque fui que escrevi as letras.

Neste disco tudo surgiu de uma forma mais fluida e menos pensada.

O título só surgiu com setenta ou oitenta por cento do disco feito. Quando fizemos o tema "Ódio" achámos que aquele tinha de ser o título, até porque reflectia um bocado a fase por que os Bizarra iam passar.

O ódio não era no sentido literal da palavra, era mais uma questão de estarmos a usar um sentimento considerado intenso e com algumas conotações até exageradas, que é um bocado como nós sentimos o que o "Ódio" é, como disco. Foi uma satisfação muito grande. As músicas iam surgindo e nós íamos adorando aquilo que estava a acontecer. Para além daquela questão do fantasma do Armando Teixeira, sentimos que estávamos a fazer um grande disco.

Entrevista de Ricardo Amorim/UWM, 11/10/2005

- "Homem Máquina” é um disco que volta a explorar o trabalho conceptual iniciado em 1998. Em que difere do “Bestiário”?

Este álbum, pode dizer-se, é uma continuação do “Bestiário”. Eles estão interligados pela besta-mor que nós reconhecíamos no “Bestiário” e que não é necessariamente o homem. Nós fazíamos analogias com bestas e referíamo-nos aos animais como tal quando eles não têm qualquer chance de se comportarem doutra forma. Mas nós, que temos alternativas, revelamos sempre essas facetas que vêm da mitologia, onde se falava de animais ou seres o mais temerários possível para descrever situações humanas ou facetas da humanidade. No “Homem Máquina”, é uma coisa mais actual – a tentativa do homem imputar culpas na máquina e ilibar-se, quando foi ele a criar a máquina. A máquina é totalmente inocente, não tem vontades.

- As letras são negras mas falam de anjos, da separação de amantes e de culpa. É possível falar de sentimentos através de máquinas?

Sim, a nossa música lida com sentimentos. É a tal questão do Homem Máquina e não da Máquina Homem. Não é mecanizar completamente. É colocar traços humanos nas máquinas e maquinais no homem. Não deixamos de ter sentimentos, até as próprias máquinas mais recentes mostram uma tendência humana para lidar com algumas situações. A separação de amantes poderá ser a separação do homem e da sua máquina. O amor não é só a questão sexual, é muito mais vasto que isso.

- Como pensam colocar no palco o novo disco?

Já fizemos alguns ensaios e temos alguns fatos. Na promoção do “Bestiário”, eu entrava debaixo de um casulo, entrávamos envoltos num plástico. E a besta ia saindo do casulo e cada vez tinha uma forma menos bestial e mais humana e, no final, era o homem. Para este, nós temos uns fatos de corpo inteiro que representam um homem-máquina. O tema ‘H.M.’, que encerra o disco, vai ser a introdução dos concertos todos e fazemos a ligação com a faixa de abertura. Podemos dizer que o disco defende a máquina e a actuação defende o homem. A nossa actuação é completamente orgânica.

Helder Gomes / Mondo Bizarre # 14

Misstakesonlove

Misstakesonlove - TwoKinderMen (A Kinder Of Heart, 2003)

"Misstakesonlove" tem o seu ponto de partida na criação de uma banda sonora para um filme sobre erros, enganos e mal entendidos amorosos. Um filme em sete cenas, contado na terceira pessoa do plural, com personagens imaginários num cenário fictício e atemporal. A trama satírica e burlesca centrar-se-ia no desvendar progressivo, e em sobressaltos, da dupla-personalidade do personagem principal masculino, pondo em causa o equilíbrio das relações familiares e de proximidade. A escolha dos actores e dos cenários acabaria por ser simples, recorrendo ao universo playmobil: esses humanos inanimados, em miniatura e de plástico, vendidos em caixas de cartão nas lojas de brinquedos para crianças. A técnica de filmagem DIY: uma câmara de filmar de reduzidas dimensões, cenários e adereços playmobil, uma cozinha comum a fazer de estúdio, candeeiros para a iluminação e o uso das mãos para a animação dos bonecos-actores. Na sua colagem ao filme, a banda sonora segue-lhe a inspiração cénica e técnica: um computador, uma mesa de mistura e dois pares de auscultadores. Sete faixas para sete episódios.---Os twokindermen (António Contador e Nuno Antunes), acompanhados no vídeo pelos Electric Circus (Rui Lourenço e António Contador) e com a aparição do convidado especial rat:a, apresentam um espectáculo ao vivo inspirado no seu recente álbum "Misstakesonlove" (AKH, 2003). O espectáculo desenrola uma videoestória de aventuras de personagens "playmobil", apresentada como banda sonora pelos sons "kindertrónicos" dos twokindermen. Música sem lípidos, ritmos em versão "mikado" e melodias rodopiantes que pairam sobre um fundo electro.

La Pop end Rock

La Pop end Rock - UHF (EMI, )

O que significa o título "La Pop End Rock"?- Define um pouco o estado das coisas e da música pop/rock que se faz em Portugal... com alguma influência estrangeira.

À Flor da Pele

À Flor da Pele - UHF (Valentim de Carvalho, 1981)

«A banda chamava-se À Flor da Pele – mas alguém achou que o nome era muito grande e até muito psicadélico». António Manuel Ribeiro», Blitz, 2007

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Leitaria Garrett

Leitaria Garrett - Vitorino (EMI)

A – Aliás, os movimentos culturais e literários do século XX estão quase todos ligados aos cafés: o Gelo, a Brasileira…

V – Estão ligados aos cafés, porque não tinham outro sítio para ir, não podiam fazê-lo em teatros ou em centros culturais. Por exemplo, a Escola de Belas-Artes não tinha associação de estudantes. Havia uma pró-associação, que se reunia noutras faculdades ou então na Leitaria Garrett.

A – Que tu homenageaste num disco…

V – Sim, porque entretanto fecharam-na. Essas leitarias duraram muito tempo em Portugal, felizmente, porque eram lugares muito baratos e onde se fiava. Fiar é sintoma de grande pobreza, mas, ao mesmo tempo também, de grande solidariedade. O Sr. Castanheira, na Leitaria Garrett, tinha um livro de assentos onde muitos alunos da Escola só pagavam ao fim do mês, quando recebiam algum dinheiro da família. Nós éramos muito novos, mas tínhamos um sentido de observação e alguma facilidade para nos integrarmos em grupos de velhos boémios e intelectuais que paravam ali pela Brasileira e pelas livrarias, que também eram pontos de reunião. Havia ali pintores, músicos, o São Carlos ainda funcionava muito bem, e o Chiado era um centro de vida muito activo. Isso fortaleceu muito o meu conhecimento com algumas pessoas, poetas, pintores… Tive essa sorte, e tinha alguma disponibilidade e alguma energia. Durante muitos anos, quase não dormi. Agora ando a dormir tudo o que não dormi, estou a pagar as favas…

eNTREVISTA DE Viriato teles/Spautores

Tango

Tango - Vitorino (2009)

A – E em relação aos teus projectos, o que estás a preparar?
V – Agora, com o meu irmão Janita, vou fazer um disco sobre a moda alentejana, mas sofisticadíssimo, com textos do António Lobo Antunes, que se apaixonou pela moda alentejana. Vamos recriar a moda alentejana, o que é uma coisa perigosa… E, à semelhança do que fiz em Cuba, vou para Buenos Aires gravar 12 tangos com uma orquestra tradicional. O tango está a fazer um século e Portugal esteve muito ligado ao tango, aliás como todo o mundo, a partir dos anos 30. Há ligações muito interessantes dos portugueses ao tango, sobretudo dos algarvios, porque nos anos 20, 30 chegou a haver clubes de
tango no Algarve.

Dizer Não de Vez

Dizer Não de Vez (Polygram, 1992)

"Dizer Não de Vez" - Não significa nada de especial. Representa uma atitude do grupo.

Mundo Ao Contrário

Mundo Ao Contrário - Xutos & Pontapés (Universal)

JL - Têm um novo disco, que se intitula "O mundo ao contrário". O que retrata este disco?

Tim – Não foi feito como retrato de nada. Começámos por trabalhar as músicas e juntar as letras – o disco não se chamava "O mundo ao contrário". O Zé Pedro passou-me algumas coisas, misturámos tudo e, de repente, ficámos com a sensação que um tema que se chamava "Onde vais" não tinha refrão. Fez-se um onde entrou a frase "mundo ao contrário", que então começou a tomar conta da música. Depois começámos a ver o disco, do que as letras de "Zona limite", "Fim-de-semana", "Sentido norte" e outras tratavam e apercebemo-nos que havia uma inversão. Estava tudo ao contrário. Parecia que corria tudo bem, depois a coisa começava a andar e afinal o mundo não estava nada bem. Isto é, parece que está tudo "ok", mas os valores estão invertidos. Quer dizer, certas peças do tabuleiro estão de cabeça para baixo. Os patrões, por muitos alertas que se façam, vão continuar a querer pagar o menos possível aos empregados e à espera que eles trabalhem cada vez mais e melhor, os professores vão continuar a ser desconsiderados e depois os encarregados de educação querem que os filhos sejam muito bem-educados, tenham um futuro de sucesso e por aí fora. As pessoas estão a apostar em fins não olhando aos meios, desprezando-os até. Há uma série de coisas que pensamos que não estão a funcionar, as soluções estão à vista, mas prefere-se continuar a olhar para o lado e a viver neste "mundo ao contrário".

Entrevista de Elisabete Cruz e Jacinto Silva Duro, Jornal de Leiria

Jamboree Park At the Milky Way

Jamboree Park At the Milky Way - The Weatherman (Sublime Impulse, 2009)

Tens vindo a dizer que este é um disco bom para concertos. Como é que vão ser os concertos da Jamboree Park Tour?

A ideia do disco é ser uma grande celebração, há nele um grande espírito de comunidade. A ideia do «jamboree» é, precisamente, a de uma espécie de festa universal e para este disco tive um cuidado que da outra vez não tive, para que resultasse muito bem ao vivo. Por isso, para os concertos, dos músicos extra-banda fui buscar a secção de metais, que é uma coisa muito presente em várias partes do disco e ao vivo funciona muito bem. Será essa uma das grandes apostas ao vivo, para que os concertos tenham o espírito que pretendo transmitir.

Entrevista de Cláudia Lomba / Rascunho.net, 20/04/2009

Cruisin’ Alaska

Cruisin’ Alaska - The Weatherman (200-)

Como é que se passaste de um álbum onde fizeste tudo sozinho (Cruisin’ Alaska) para um em que estás rodeado de músicos, vozes, instrumentos?

No fundo, foi um caminho natural. O álbum anterior era uma viagem interior a sítios imaginários. Era muito centrado em mim, fui eu que fiz tudo: produzi, toquei os instrumentos todos. Este álbum tinha uma condição: ser um passo em frente. Não gosto de me repetir, não fazia sentido voltar a fazer o mesmo, por isso, a primeira coisa que achei que devia fazer era experimentar a sensação de dirigir outros músicos, senti necessidade de me rodear de gente. É como se fosse o outro lado da balança, já que aqui tenho muita gente à minha volta, depois de ter estado sozinho.

Entrevista de Cláudia Lomba/Rascunho.net, 20/04/2009

Cruisin' Alaska é um disco cozinhado em casa, um disco em que todos os instrumentos foram tocados por ti. Como foi o processo de composição dos temas?

Foi muito fluído e natural. Tudo começou com uma demo de cinco músicas, em que o único compromisso que assumi comigo mesmo foi o de fazer justiça à minha personalidade, e para isso teria de recorrer à espontaneidade. (...)

E como é que se processou a produção do disco? Quando é que o disco ficou pronto, quando é que deixaste de ter a vontade de acrescentar mais qualquer coisa e modificar a pintura?

Eu comecei a trabalhar no disco em Fevereiro deste ano e no início de Abril já estava praticamente pronto, com algumas pausas pelo meio. Numa dessas pausas fui para a Serra Nevada com um gravador e de lá trouxe material que usei na última faixa do disco, que funciona como uma colagem. Eu quis estar numa estância de ski para me conseguir imaginar a atravessar um Alaska imaginário. Quis tentar imprimir alguma coisa de vivência pessoal no meio de tanta ficção.

O artwork ficou da responsabilidade de Inês Amaro. Achas que a capa faz justiça ao conteúdo do disco?

Sim, completamente. Mais do que fazer justiça ao conteúdo do disco, faz justiça à minha personalidade. Aliás, emocionei-me quando a vi, especialmente por causa dos pinguins. A capa foi feita a partir de um brainstorm que eu fiz, de modo a ter a ver com a minha pessoa, com o meu imaginário. A ideia de ter pinguins a oferecer-me batido de coco em pleno Alaska, a prestarem-me reverência quando eu estou com cara de morsa, tudo isso remete para uma noite de passagem de ano em casa de uns amigos em que eu ingeri grandes quantidades de batido de coco, que como deves saber é uma bebida alcoólica. Depois disso, imaginei este tipo de situações que se vêem na capa. Por isso, é algo muito pessoal que diz muito acerca da minha pessoa e a Inês conseguiu trazer esses meus sonhos à realidade. Pode–se dizer que por vezes o meu cérebro funciona como uma espécie de mistura entre o Laranja Mecânica e os Monthy Python e só me apetece dizer e fazer disparates… mas também tenho um lado doce e melancólico.

Entrevista de André Gomes / bodyspace.net, 13/10/2005
http://bodyspace.net/entrevistas.php?ent_id=49

Eclesiastes 1:11

Eclesiastes 1:11 - Wraygunn

demonstram no seu segundo álbum, "Eclesiastes 1:11", que viram todos os filmes de "blaxploitation", que consumiram avidamente o grosso da discografia da editora Fat Possum e, acima de tudo, que leram uma versão - ainda que em "reader's digest" - da Bíblia. Só para quem sabe que a intensidade primordial do rock não é mero espalhafato de guitarras eléctricas em distorção, mas sim um interminável diálogo entre Deus e o Diabo, "Eclesiastes 1:11" funciona como um bálsamo para as mais fundas agruras da alma. Um problema que acaba por ser solucionado.

A chave que resolve estas doze novas canções gravadas pelos Wray Gunn está, provavelmente, na versão de "There but for the grace of God go I": uma canção de culto editada originalmente em 1979, pelos Machine, meio disco-sound meio soul, e que conta a história da fuga desesperada do Bronx de um casal de latinos mais a sua pequena filha. Procurando um lugar onde não existam "nem pretos, nem judeus, nem gays", Carlos e Carmen Vidal encontram afinal a terrível sentença divina que atesta que "amor a mais é pior que amor nenhum". Na voz de Raquel Ralha (também conhecida por cantar com o colectivo Belle Chase Hotel), o desconcerto da moral vigente soa com imensa segurança e cada palavra é um torpedo dirigido ao fundamentalismo inventado para contrariar a vida.

Os Wray Gunn já estão bem treinados nestas conversas com Deus. Tanto que as melhores canções de "Eclesiastes 1:11" (um salmo em que se afirma a falta de religiosidade dos tempos que correm: "já não há lembrança das gerações passadas; nem das gerações futuras haverá lembrança entre os que virão depois delas.") são aquelas em que mais decididamente eles descartam o rock psicótico e tribal que pode ir dos Cramps até aos Suicide, para enveredarem pelo chamamento do Senhor. "Keep on praying", "Don't you know" e "Hip" levantam a moral a um álbum cheio de cuidados nos arranjos e na forma como aborda a herança mais negra (aqui nos dois sentidos) da música norte-americana. Ainda assim, lugar para uma ou outra psicadela de olho à moda da música de dança ou à do rock que hoje fustiga as revistas da especialidade. Nada que ofusque a luz que se desprende de canções como "Don't you know", em que a cantora dirige-se ao Altíssimo como quem quer falar das coisas do Diabo. Amor e sexo, por fim, em comunhão total.

Miguel Francisco Cadete / Y-Público, 30/04/2004

Encanto da Lua

Encanto da Lua - Frei fado d'El Rei (Sony, 1998)

- A quem se deve a temática lunar deste vosso novo trabalho?

QUICO - Ao José Martins (baixo e badoloncelo), que é o elemento mais sonhador do grupo. a ele se deve a pesquisa de textos e o nome do álbum.

CARLA LOPES - O título-tema fala do encanto do Sol pela Lua. O contraste entre a noite e o dia. Não sei se é uma Lua demasiado bonitinha, como escreveu na crítica ao disco...

- Não acham então que é uma Lua bastante calma e sem grandes relevos? Ao nível da produção, por exemplo.

QUICO - Mesmo ao vivo, o grupo faz este tipo de som, a base são duas guitarras de nylon, um baixo acústico e percussão. Como teclista, nunca poderia fazer nada agreste, tinha de ser algo que encaixasse. Não há propriamente no disco um trabalho de produção, de limpeza ou de limagem de arestas. Num tema como "Encanto da Lua" não há, de facto, picos, é uma coisa muito polida e planante.

Mas tenho que reconhecer que por mais que grave, os sons gravados não são a mesma coisa que os sons feitos ao vivo. E este grupo, ao vivo, tem outra vida.

O tema em que Uxia canta, "O Anel do meu amigo", pertence ao cancioneiro galaico-português, a letra é em galego.

Entrevista de Fernando Magalhães / Público, 29/05/1998

O Amor da-me Tesão/Não Fui eu Que Estraguei

O Amor da-me Tesão/Não Fui eu Que Estraguei (Turbina, 2008)

Manel Cruz lançou um novo álbum composto por dois cd´s e um livro, no início do mês. Os 1100

exemplares do trabalho de “Foge Foge Bandido” já esgotaram. Uma segunda edição está prevista para

Julho.

Quem conseguiu comprou o livro e os cd’s intitulados “O Amor Dá-me Tesão” e “Não Fui eu que

Estraguei”. Está tudo ligado, os discos devem ouvir-se enquanto se folheia o livro. Afinal, é como se

se assistisse a um filme. Cada cd traz 40 temas, alguns com menos de um minuto. As 140 páginas do

livro trazem ilustrações dedicadas a cada um dos temas musicais. São fotografias, desenhos, notas,

textos e as letras das músicas guardadas durante uma década, à espera de edição.

Os 1100 exemplares da primeira edição estiveram à venda na CDGO.com (loja online), na Livraria

Bulhosa e no site de Manel Cruz. Segundo a CDGO disse ao jornal Blitz, a segunda edição, prevista

para Julho, será “algo diferente” da primeira, mas com os mesmos três elementos.

O projecto a solo de Manel Cruz chama-se “Foge Foge Bandido”. O conjunto das três peças que fazem a

obra parece não ter nome. (...)

Manel Cruz disse à Time Out que não tinha intenção de gravar um disco. Os temas agora apresentados

têm vindo a ser juntados ao longo de anos, sendo que o mais antigo data de 1996. Chegou a uma altura

em que Manel Cruz achou que o trabalho estava pronto. As canções já descansaram e estavam marinadas

que chegue. O mesmo acharam os fãs que em apenas duas semanas compraram todos os 1100 exemplares da

primeira edição limitada, a 30 euros a unidade.

“Foge, Foge Bandido” apresenta Manel Cruz em duas versões: música e arte plástica. As imagens das

músicas estão presentes nas 140 páginas do livro bem como em http://www.fogefogebandido.com/. Neste

site é ainda possível escutar sete músicas e ver seis vídeos de vários autores. Estão ainda

disponíveis para consulta 35 letras do lado A: “O Amor Dá-me Tesão” e 33 do lado B: “Não Fui Eu Que

Estraguei”. Os temas das músicas e das imagens são os do costume: o amor e o sexo, a vida e a morte,

a família e os amigos. Tema transversal é o erro. A música, essa é experimental. O estilo e a voz

inconfundíveis lembram projectos passados. Mas, a multiplicidade de instrumentos e de arranjos, sons

e intervenções destacam o carácter experimental de “Foge, Foge Bandido”.

O projecto “Foge Foge Bandido” chega em 2008 aos escaparates para aglomerar e dar nome às peças e

canções soltas que Manel Cruz foi juntando no últimos anos. Experimentalismos, colaborações,

surpresas e sobretudo, a resposta à ânsia do fãs (...).

Por: Liliana Guimarães / Labor, 12/06/2008

All’ bout smoke’n mirror

All’ bout smoke’n mirrors - Fingertips

- Porquê "All’ bout smoke’n mirrors" ("Tudo sobre fumar nos espelhos")?

Não há nenhuma razão especial. O Zé ouviu esta expressão num filme e nós gostamos. Não foi nada programado, tal como aconteceu com o nome da banda.

Entrevista de Joana Brandão / Primeiro de Janeiro

A Ópera Mágica do Cantor Maldito

A Ópera Mágica do Cantor Maldito - Fausto (Sony, 2003)

Primeiro ouvem-se sons de grilos, a sugerir uma atmosfera nocturna. Depois, escutam-se passos de

várias pessoas, uns apressados outros lentos, "walkie-talkies" em comunicação, uma campainha que toca

uma, duas, três vezes, à quarta já em fúria pelo silêncio do outro lado. E a seguir um pontapé forte

em madeira seca. A porta treme ao estrondo que se repete, sincopado, para logo se fundir com o rufar

de tambores em cadência marcial. E uma voz, imperativa como a do mandador num baile mandado: "Dá-lhe

mais, que esta primeira é coisa pouca! Rebenta-me essa porta que lá dentro há coisa ruim! Rodeia

agora e bate forte, vai o coração à boca!" Um coro, masculino, em ondas como no "leva-leva" dos

pescadores algarvios, responde: "Cala a boca/ dobra a língua/ corta os pulsos/ quebra os dedos/ fecha

os olhos/ morre um pouco/ cala!"

É preciso reter estas últimas palavras: calar é morrer um pouco. Porque é em torno delas que Fausto

Bordalo Dias constrói o seu mais recente e elaboradíssimo disco, que começa tal como acabámos de

descrever. Ele chama-lhe uma ópera, uma ópera mágica, e quem ficar apenas pela sua superfície poderá

retratá-lo (mal) como um disco de crítica aos poderes instalados, espécie de ressurreição de um canto

(o de intervenção) que teve no pós-25 de Abril a sua génese e apogeu.

Mas é uma pista falsa. "A Ópera Mágica do Cantor Maldito", elaborada e aperfeiçoada por Fausto ao

longo dos últimos anos, é a aplicação aos dramas e contradições da sua geração (onde a música

desempenhou papel crucial) do mesmo método por ele seguido na trilogia que começou com "Por Este Rio

Acima" (1982), prosseguiu com "Crónicas da Terra Ardente" (1994) e há-de terminar num terceiro

duplo-álbum nos anos que virão. É a passagem da história trágico-marítima à história

trágico-política, sem que daí resulte um discurso vulgarmente contestatário.

Por isso, retomemos o fio da história: há um cantor que calam mas não morre. E morre mas não calam.

Contraditório? Como tudo, naturalmente. Como a imagem da capa, reflectida num espelho embaciado que

deixa entrever no modelo escolhido (não é Fausto, mas é uma das suas guitarras, por sinal vermelha,

que pende dos ombros do modelo anónimo) um cantor que são vários e que acolherá na sua rota de

tragicomédia personagens que o completam e cercam, como o magistral agiota, a

nova-brigada-dos-coronéis-de-lápis-azul, os bárbaros da "passerelle", os mangas-de-alpaca, a loira do

bilhete de despedida, o "desconhecido alguém" que espreita "na paz da imensidão do universo" e a que

o cantor não precisa de chamar Deus.

Neste sentido, a "ópera" de Fausto é também uma epopeia portuguesmente terreste de que já conhecemos

(ou julgamos conhecer) muitas das personagens, aqui escarnecidas pelos seus defeitos, fraquezas e

falácias, pelo seu ego contraditório que o vapor no espelho ajuda a disseminar e simultaneamente a

ocultar. Na certeza de que, quando as gotas abandonarem o espelho à sua limpeza anterior, poucos ou

nenhuns escaparão incólumes ao olhar que antes nele pousou. Um olhar que não poupa ninguém, nem o

próprio autor, que aqui retrata igualmente os seus vícios e dúvidas, expondo-os como narrador

distanciado e implacavelmente crítico desta história onde por paixão se envolveu. Porque são amores e

ódios que aqui se cruzam, numa teia (o autor prefere a palavra "trama") que aos poucos se desvenda em

palavras cuidadas (as letras são, quase sempre, superlativas, bem como a música que as envolve, na

linha dos discos anteriores, assente no usual cruzamento de rítmicas tradicionais com harmonias

finamente elaboradas) e em pormenores que caberá ao auditor desvendar, numa paciência de labirinto.

Uma pista, necessária: a segunda canção do disco, "Era uma vez um cantor maldito", foi escrita como

"libreto" intencional desta "ópera". Nela reside a chave essencial para as leituras/audições que se

seguem.

epopeia. A trama da história tem, como se verá, além de contornos alegóricos, alguns traços místicos.

É certo que os penitentes e os pecadores são outros, de outro tempo que é o nosso, mas também eles

encontram eco nas personagens antes recriadas por Fausto a partir da "Peregrinação" de Fernão Mendes

Pinto: os tesouros e a agiotagem, as naus (agora cibernéticas) e os amores sem âncora, os sonhos e o

definhamento deles. Mas se este paralelismo é patente em grande parte do disco, é o lado místico que

desperta nas duas últimas canções, "A penumbra da claridade" e "E o cantor olha as estrelas", a

primeira fazendo o cantor questionar-se sobre a existência de uma entidade divina no momento da sua

prenunciada morte ("quem sabe/ eu sem saber/ acredite em ti/ e tu/ quem sabe/ sem que eu saiba/

acredites em mim"); e a segunda levando um coro feminino a lavrar-lhe um epitáfio que soa como um

Te-Deum pagão. Os tambores finais, trocando a cadência marcial dos primeiros minutos do disco pela

euforia das festas populares, acentuam a alegria da também anunciada ressurreição do cantor defunto:

"Na troada dos tambores/ e no rasgado das violas bravias/ levanta-se agora por artes de magia/

ressuscitou p'la grande vénia dos actores/ no coração rebelde de outros cantores". Não é um mártir

nem um herói, e é aqui que a história trai a mística. É apenas um homem. Há muito tempo que um disco

não nos contava assim uma história, desafiando-nos a escutá-la fora da pressa habitual dos dias.

(..)

Os desenhos do decano da BD portuguesa, José Ruy, que ilustram o libreto do disco a pedido de Fausto,

devem-se a uma ligação antiga e sentimental: foi através do seu traço que o cantor descobriu, ainda

jovem e no extinto "Cavaleiro Andante", as primeiras pranchas da "Peregrinação" de Fernão Mendes

Pinto.

O pequeno excerto de gravação inserido no final do disco como faixa escondida, um minuto após

terminar o último tema, mostra o cantor a gaguejar (e a praguejar) nos ensaios de "Eis aqui o

agiota", por não acertar na métrica da canção. Uma forma, como qualquer outra, de desembaciar o espelho.


"uma geração ao espelho", texto de Nuno pacheco / Público, 28/11/2003

Fat Freddy

Fat Freddy - Fat Freddy

- Este trabalho não tem nome. As músicas também não. Porquê?

Guedes Ferreira - É uma das coisas engraçadas deste álbum. E é algo de sincero. Não forçámos nomes porque nunca partilhámos em ensaios, ou na criação, qualquer palavra. E não quisemos criar nomes após o álbum estar feito.

Nuno Oliveira - E isso ia soar muito falso. As pessoas, se calhar, compreenceriam melhor se tivesse nome, mas estaríamos a mostrar algo que não queríamos. Nunca falámos de nomes! Construímos as músicas, de forma muito telepática, sem ter raciocínios estilísticos.

Entrevista de Susana Borges / Revista Fórum

Terra de Mel

tERRA DE mEL - Eugénia Melo e Castro (Polygram)

- A Eugénia Melo e Castro está a comemorar 25 anos de carreira. A música
continua a ser para si a sua "Terra de Mel"?

Essa coisa da Terra de Mel...Eu gosto é de música e a Terra de Mel não existe...era só uma ideia

dentro de uma letra de canção...A música é meu modo de vida, a minha primeira escolha, nunca pensei

em fazer outra coisa, gosto de produzir, de cantar ao vivo, de me testar, de gravar, de compôr, de

escrever, gosto da vida que escolhi, de me isolar, de me expôr, de errar, de acertar.

publicada por Portugal Rebelde, 22/06/2007

Poportugal

pOPORTUGAL

- Como é que nasceu a idéia deste "PoPortugal"?

Eugénia Melo e Castro - Eu sempre quis gravar músicas Pop de Portugal, que vi nascer, vi acontecer.

Eu imagino as músicas com arranjos diferentes, crio imagens sonoras para elas, intuitivamente. Quando

gosto de uma música penso sempre em a gravar um dia. Foi assim, que nasceu esta idéia pela vontade de

gravar de uma maneira diferente músicas que sempre gostei!

- "PoPortugal" é composto por 10 temas das décadas de 70 a 2000. Qual foi o critério para a selecção

destes temas?

E.M.C. - Escolhi por sonoridade, por memória, foi uma escolha natural, sem grandes hesitações, eu

sabia o que queria cantar. E também só queria gravar 10 temas exactamente, com a estética do vinil,

de LP, 10 músicas e nem mais uma, com um conceito definido.

publicada por Portugal Rebelde, 22/06/2007

Ainda É Noite

Ainda É Noite - Dwelling (Equilibrium Music, 2007)

De entre 11, o tema homónimo foi escolhido para primeiro single. Que características tem este tema que lhe conferem a dignidade de representar os restantes?

Foi o primeiro tema que escrevemos, a par do "Fujo De Mi". É o único que tem um formato mais de canção. Tem um quase refrão que não é bem um refrão, numa estrutura mais convencional. A letra e a própria atmosfera da música têm muito a ver com aquilo que nós pretendemos para o disco todo – uma noite que nunca mais acaba e uma mulher a lamentar-se porque esta noite não acaba. Na banda, temos mais uma mulher, e isso marca-nos muito, essa questão das três mulheres e dos três homens, porque condiciona tudo. A característica feminina da banda acaba por ser uma mais valia e a voz da Catarina acaba por dominar os temas.

Por David Miguel/UWN, verão de 2007

V Império

V Império - Dealema (Banzé, 2008)

-O que é, como é, o que representa o V Império?

Maze: O nosso V Império é o renascer espiritual que estava por vir, é um incentivo à criatividade, o aumentar da auto estima colectiva, é a nossa independência em relação à indústria, não é um Império físico mas uma energia invisível que cresce, é uma metáfora do pentágono que visa provocar a revolução interior em cada um de nós.

Entrevista de André Gomes/Bodyspace, 19/05/2008

- Qual o simbolismo que vocês pretendem transmitir com o título "V Império"?

Mundo - O "V Império" está relacionado com o facto de sermos 5 elementos, por terem também passado 5 anos desde o nosso último lançamento e em grande parte com a simbologia de Fernando Pessoa, na sua obra "A Mensagem". Além disso, achámos que tinha tudo a ver com o tipo de música que estamos a fazer, com o estilo de "liricismo" que procuramos, e daí o "V Império", o tão aguardado quinto império ancestral dos nossos antepassados. De certa forma decidimos pegar em todos esses elementos simbólicos, associando isso ao conceito do "Pentágono Dealemático", ou seja, aos Dealema.

Por Ivo Alves para H2T - Abril 2008

Podes Fugir Mas Não Te Podes Esconder

Podes Fugir Mas Não Te Podes Esconder - Da Weasel (EMI, 2001)

Em 2001, em contagem decrescente para o álbum "Podes Fugir Mas Não Te Podes Esconder", os Da Weasel planearam uma série de "teasers" para o seu "site", onde os elementos da banda eram recriados sob a forma de alter-egos animados. Soa familiar? "Na altura foi polémico. Quando aprovámos a estratégia, e todas as 'storyboards' estavam feitas, estoira o primeiro videoclip dos Gorillaz. Estoira mesmo. Chegámos a considerar não ir para a frente com as coisas. Levámos um ano praticamente a desenvolver este trabalho todo e de repente tiram-nos o tapete... Mas conseguimos sobreviver a essas prováveis comparações", lembra João Nobre.

Entrevista de Kathleen Gomes / Público, 30/04/2004

- A edição do vosso último disco foi precedida da colagem de cartazes com o título do álbum, mas que não remetiam directamente para os Da Weasel. Qual foi o propósito?

Q - O propósito era precisamente a abertura do nosso site. E esses teasers...

P - Era um teaser, basicamente. A função é mesmo espicaçar a curiosidade das pessoas e, então, quando ias àquela morada, clicavas numa cena que tinha a ver com os Da Weasel e com o "Podes Fugir mas não te Podes Esconder". Era tentar chegar ao máximo de pessoas de uma forma diferente. E preparar o terreno - como o Quaresma estava a dizer - para a abertura do site.

- Relativamente aos Gorillaz, é sabido que vocês se tinham antecipado à criação de alter-egos e, depois, eles chegaram-se à frente porque tinham dinheiro para isso. Como é que se sentem? Sentem-se ultrajados?

P - Não. E são conceitos diferentes: Da Weasel utilizou aquilo como um complemento, os Gorillaz vivem mesmo disso, são uma banda virtual e é uma cena diferente.

- Querem explicar os vossos alter-egos?

Q - Eles são um pouco nós próprios mas exagerados ao cubo. No meu caso, eu sou uma personagem ligada à Natureza, calma, mas com poderes aplicados ao meio ambiente, à Terra e aquelas coisas meio freaks.

P - O meu é a exploração de uma personagem de ficção, com algumas coisas positivas e outras negativas, uma cena exagerada, uma personagem que toma muitas substâncias para as coisas serem mais agradáveis.

Virgul - O meu é o Golias, um gajo cheio de força, no meio de muitas mulheres, muito pacífico, muito calmo. Uma estrela de filme porno.

Entrevista de Hélder Gomes / Mondo Bizarre
http://podesfugirmasnaotepodesesconder.net

Re-Definições

Re-Definições - Da Weasel (EMI, 2004)

O título do álbum, "Re-Definições", diz muito. "Houve um repensar na forma de fazer as coisas, no próprio método de trabalho e concepção musical. Se calhar, aí, está mais apurado o som. Tentámos até ao limite procurar o som perfeito em termos de agradabilidade sonora. Somos músicos completamente diferentes uns dos outros, com 'backgrounds' distintos. Às vezes, torna-se complicado reunir, num álbum, canções com o mesmo equilíbrio. Desta vez acho que conseguimos um equilíbrio maior."

Definições, redefinições, o que é que mudou, o que é que se mantém? "Somos a mesma banda, mantém-se a procura incessante de novos caminhos, novas abordagens. Mas ainda sentimos que nos falta muito por fazer. Parece que é o primeiro álbum outra vez", explica João Nobre. "O que mudou foi que procurámos trabalhar de forma mais madura, com mais paciência, tentando controlar a nossa irracionalidade no estúdio. Foi mais 'responsável'. Perdemos mais tempo a procurar as soluções ideais. Também estivemos mais tempo em estúdio. E, pela primeira vez, deixámos alguns temas de fora que achámos não estarem à altura dos outros."

As incursões "hardcore" mantêm-se, assegurando cargas ruidosas - "neste álbum temos um dos temas mais pesados de sempre da carreira dos Da Weasel, 'Loja (Canção do Carocho)'" -, bem como os interlúdios musicais, espécie de zonas de descompressão, São "pequenos apontamentos criados espontaneamente" que, diz João Nobre, atestam "a rudeza das gravações". Batida latejante, guitarra samplada, refrão viciante: reconhecem? "Re-Tratamento" é o primeiro "single" do álbum, que já se ouve. Chamem-lhe "hip-pop", se quiserem. "Fazemos um som que se chama Da Weasel. Até os nossos fãs discutem entre si e ninguém se decide em relação a um estilo."

Entrevista de Kathleen Gomes / Público, 30/04/2004

Iniciação a uma vida bana

Iniciação a uma vida banal - o Manual - Da Weasel (EMI, 1999)

- No "3 Capítulo" estabeleceram o estilo Da Weasel, deste novo álbum esperar-se-ia um "quarto capítulo", o que não acontece. Por quê esta mudança de som?

Carlos "Pac" Nobre - Não foi tanto uma mudança de som. Este disco apanha um pouco tudo o que os Da Weasel fizeram até hoje, inclusive coisas que não foram editadas. O que marca a diferença é uma atitude mais positiva e descontraída em relação à música e à maneira de estar. Por outro lado, tivemos um trabalho de pré-produção (seis meses), que não tivemos no "3 Capítulo", para definirmos as ideias e o álbum acaba por ser mais versátil também por causa disso.

- Essa atitude mais descontraída reflecte-se nas letras, que costumavam ser mais "acusadoras"…

CPN - Sim, este álbum é menos denso, também menos tenso e cru do que o "3 Capítulo" que era um bocado "pra baixo". Este é mais "pra cima", está entre o "Dou-lhe com a Alma", um álbum super-idealista, e o "3 Capítulo", que era um bocado "down".

- O disco termina com uma faixa escondida ("O Manual"). Parece a suprema ironia: "nós tivemos este tempo a dizer que isto era muito banal, mas afinal… não é".

CPN - A ideia do álbum sempre teve duas abordagens. Uma era banal, no sentido das coisas simples que dão mais prazer na vida. E a outra a procura da banalização de coisas que não são banais mas que deveriam sê-lo porque são simples, apesar de complicadas: o amor, a paixão, a liberdade… Há esses dois lados, aquelas coisas que realmente são banais, no sentido de serem comuns e acessíveis a toda a gente e que podem dar um prazer imenso - seja beber um copo e estares com os teus amigos - e as outras que são mais difíceis de atingir mas deveriam ser banais.

Ana Marcela (Jornal Forum Estudante/Musicnet, Nov/1999

Post-Scriptum

Post-Scriptum - Cristina Branco (2000)

Em Fevereiro sairá o terceiro álbum, intitulado "Postscriptum" (título de um poema de Maria Teresa Horta), distribuído pela prestigiada editora francesa de música clássica Harmonia Mundi, com a qual Cristina Branco assinou contrato por cinco anos, em colaboração com a Universal Classics, que se propõe gravar o seu próximo trabalho. João Paulo Esteves da Silva será o convidado especial num dos temas. "Postscriptum", porque "há sempre coisas que ficam por dizer"...

Texto de Fernando Magalhães / Público, 28/01/2000

Leva-me Aos Fados

Leva-me Aos Fados - Ana Moura (Universal, 2009)

- O que é que Leva-me aos Fados tem que os outros discos seus não tinham?

Essencialmente, tem maturidade. Essa ideia passa mesmo pela foto da capa, em que estou a olhar de frente, olhos nos olhos. Já consigo encarar a câmara de frente. A maturidade é a principal diferença. Depois, tem algumas diferenças em termos musicais, como o facto de usar duas guitarras portuguesas, além da participação de compositores que eu nunca tinha cantado.

Jorge Manuel Lopes / Time Out, 20/10/2009

Em´Cantado

Em´Cantado - Rão Kyao (Universal, 2009)

- O teu longo namoro com o fado, que começou com o Fado Bailado há quase trinta anos, teve uma progressão lógica e tem o seu culminar, agora, em Em’Cantado. Este disco é a expressão máxima dessa relação com o fado?

Sim. Há, sem dúvida uma evolução, uma progressão. No Fado Bailado concentrei-me mais nos aspectos técnicos e em como eu poderia expressar-me bem, tocando saxofone, no território do fado. Passada essa primeira fase, de uma certa surpresa e que foi muito bem recebida, comecei a concentrar-me já noutros aspectos e questões que o fado me colocava: o fado mais tradicional; o fado-canção; os fadistas mais virados para o canto lamentoso, do deserto. E isso levou ao meu envolvimento com aqueles que têm mais a ver com a minha sensibilidade.

- Neste álbum há, pela primeira vez, fados compostos por ti. Foram feitos de raiz para o novo álbum ou têm sido compostos ao longo dos anos?

As duas coisas. Há fados que compus originalmente para o grande Manuel de Almeida. Eu produzi dois discos dele e compus coisas para ele. Dois desses temas compostos para o Manuel de Almeida foram retomados agora pelo Ricardo Ribeiro, “O Meu Amor”, que é um fado corrido, e o “Fado do Alentejo”, que está muito virado para a música árabe e do norte de África.

A Carminho não vai estar presente no CCB.

- Não. É muito difícil montar um espectáculo destes, por causa das diferentes agendas. Mas vão estar os outros todos: o Ricardo, a Manuela, o Camané, a Ana Sofia Varela e a Tânia Oleiro. E os dois lados do meu disco – os temas cantados e os instrumentais – vão cruzar-se ao longo do concerto.

António Pires / time Out, 02/02/2010

o lado A é um fado bailado cantado, olado B é instrumental

Coisas do Amor e do Mar

Coisas do Amor e do Mar - José Cid (Farol, 2009)

- O álbum era para se ter chamado «Clube dos Corações Solitários do Capitão Cid». Porque é que o título foi alterado?

Era demasiado colado. Já aqui está este tema (n.d.r. «Strawberry Fields Forever»). De resto, eu só poderia gravar duas versões: ou esta ou o «Fool On a Hill», por ser genial. Ao contrário do que se pensa, o «Strawberry Fields Forever» é uma homenagem a uma casa de apoio a jovens abandonados. Essa canção marcou o mundo.

Entrevista de Davide Pinheiro/Disco Digital, 07/10/2009

– Amor e mar dão o mote ao disco. Porquê estes dois temas?

Porque têm tudo a ver connosco, com o sentir e a alma portuguesa. Quis fazer um disco que nos tocasse e acho que isso está bem expresso, em particular nas baladas. ‘O Teu Corpo Sabe a Maré’, por exemplo, é também uma homenagem à minha prima, Maria Manuel Cid.

Entrevista de Luís Figueiredo Silva / Correio da Manha, 04/10/2009


Explay

Explay - Bildemeister (Switch On, 2002)

- Em que condições surge a criação da Switch On Records?

Foi como já disse sobre o Explay: a vontade de editar o nosso primeiro disco, de aprender a fazer esse processo. Explay surge da ideia de experimental play, ou seja a nossa primeira experiência mais séria de edição (para além das cassetes e edições caseiras) e todo o gozo em o fazê-lo. Em montar capas de discos e colar um autocolante a dizer "Switch On Records proudly presents: Bildmeister. Explay". Foi gratificante experimentar todas essas coisas. Agora, a Switch On Records pensa em alargar essa experiência a outras bandas, provavelmente aquelas mais locais (de Vila do Conde) desde que as propostas sejam boas e que encontremos motivos de interesse.

Entrevista de André Gomes/Bodyspace, 20/03/2004

Circa 1999 – 9 Implosões

Circa 1999 (9 Implosões) - Bernardo Devlin (ExtremOcidente, 2003)

- Abordando mais directamente o seu mais recente álbum de originais, "Circa 1999 – 9 Implosões", importa referir, sem pejo, que é um dos trabalhos mais originais dos últimos tempos da música portuguesa. Crê que é o seu álbum mais ousado formalmente e que poderá marcar o panorama da música nacional?

O meu álbum anterior “Albedo” [de 1997] continha já as sementes do que desenvolvi em “Circa 1999”. Concordo que neste último tive um maior tempo de reflexão. Se vai ou não marcar o panorama da música nacional não faço a mínima ideia. Penso sempre em termos de projectos futuros a serem inteiramente financiados pela ExtremOcidente. Como tal, espero ainda este ano sair com dois álbuns: um, em formato de 5.1, chamado “Ágio” e um outro, duplo, chamado “Vol. 3: As 2 antenas do caracol”. Não sei como eles se irão desenvencilhar mas estou certo que tudo correrá pelo melhor.

- “Circa 1999” tem nove canções, ou implosões, como as designa. Todas aparentam suster-se com base no formato de “canção”, mas numa abordagem estética manifestamente pouco ortodoxa: as músicas surgem constituídas quase como fragmentos melódicos dispersos, onde a tua voz acaba por unir o conjunto. Neste contexto, qual foi a metodologia de composição?

Silêncio e solidão.

- “Circa 1999 é em termos gráficos e de design, muito cuidado e arrojado, contendo inclusive traduções dos textos em inglês e japonês.

Inicialmente previ um objecto mais simples mas foi-me praticamente exigido o desenvolvimento da ideia. Eu estou disponível para esse tipo de exigências desde que possa ter o controle artístico do todo. As traduções devem-se ao facto de a editora prever uma distribuição o mais abrangente possível do disco.

- Para quem nunca teve contacto com a sua música em geral e com este “Circa 1999”, em particular, como caracterizaria o seu trabalho?

Ideal para quem usufrua de tempo. Tal como a leitura, a escuta requer disponibilidade e não estou de todo interessado em fazer cedências a todos aqueles que entendem a música como elemento decorativo para uma sala de estar confortável onde se recebem as agradáveis e corteses visitas de fim-de-semana. O conforto físico é, no entanto, ideal para o confronto, e usufruto, mediante uma música exigente ao nível de escuta. Os altifalantes devem estar bem afastados e a posição ideal é uma triangulação entre eles e o auditor para que a estrutura da coisa se torne sensível. O meu trabalho é perfeitamente acessível para quem a ele se disponibilizar. Certamente não será para todos. Também não é essa a ideia.

Entrevista de Victor Afonso / Mondo Bizarre, Março 2004

La Toilette des Étoiles

La Toilette des Étoiles - Belle Chase Hotel (Norte Sul, 2000)

"A ideia de fundo foi fazer um álbum mais temático. Um álbum com uma característica muito típica dos Belle Chase Hotel que são as narrativas de fuga, histórias de personagens incompatíveis com o quotidiano. Um título como "La Toilette des Étoiles" acaba por ser uma boa desculpa para criar uma certa ambiguidade: a "toilette" enquanto sanita ou enquanto abrilhantamento do toucador, um ambiguidade que pode muito bem definir o destino trágico das pessoas. Há quem nasça com a sensação de que a vida é uma coisa única que tem de embelezar e há quem veja tudo isto como um lampejo frouxo de luz de fim de tarde, um ocaso constante, e que por isso mais vale deitá-la pela sanita abaixo porque não vale de nada. Partindo desta situação entre o poético e o patético, procurámos fazer um álbum coerente, pelo menos à nossa maneira. É claro que a dispersão acabou por acontecer."

'La Toilette des Étoiles' é um álbum bem mais depurado, mais frio e bastante menos comemorativo que o anterior. Desta vez foram as letras que pintaram a música, tentaram ser elas mais doces que a própria música. No 'Fossa Nova' havia muitas músicas trágicas que tiveram um tratamento de contraponto. Uma das características desta banda é que a tensão entre a música e a história tem sempre uma intensidade muito grande. As letras nunca vão exaltar o que a música tem de mais agudo. Vão exactamente contrapor. E este é um álbum bem mais azul no sentido da frieza, no sentido de assumir personagens e histórias a céu aberto. No 'Fossa Nova' não eram tanto personagens contados, eram mais personagens a falar. Aqui há um trabalho maior de narrador, uma distância crítica maior. É como se tentássemos afastar-nos das personagens para tentar percebê-las melhor."

Entrevista de TIAGO LUZ PEDRO / Público, 27/10/2000


"La Toilette des Étoiles" é apenas uma forma de traduzir "Fossanova" para francês?

Acaba por ser. "Je vais à la toilette". Tanto pode ser "vou à fossa" como "vou-me maquilhar"... Previ mais ou menos que isto se pudesse começar a tornar (pelo menos da minha parte) uma banda escatológica. "Fossanova", de certa maneira, era um facilitismo, qualquer coisa podia caber naquele título, entre o escatológico e a referência à música de uma burguesia iluminada como era a bossanova. La Toilette des Étoiles, quando surgiu, também pensei que podia ser a sanita das estrelas. Há uma amargura e um cepticismo maior destas personagens. As estrelas são as convidadas especiais deste disco. Há quem nasça e tenha uma concepção da condição humana como algo absolutamente trágico onde não vale a pena investir em coisa nenhuma porque daqui a nada vai tudo pela sanita abaixo e outras pessoas que nascem com a ideia que isto é um período fugaz mas, por isso mesmo, é a pérola que deve ser mais trabalhada. Essa ambiguidade da "toilette" — neste caso, o embelezar das coisas — acabou por ser o que deixei ficar como a minha explicação oficial. O proximo, se calhar, vai chamar-se Cotonette On Earth, algo mais terra a terra. Estou, talvez, condenado ao meu extremo ser sempre a escatologia poética (ou patética, sei lá), a vertigem do esgoto, sabendo de antemão que todas as personagens que crio se vão escafoder no seu anonimato e insignificância e que já nascem desmoronadas. (2000)

Entrevista de João Lisboa / Expresso

Selos e Borboletas

Selos e Borboletas - António Pinho vargas (EMI)

"Sigo muito aquela perspectiva do António Pinho Vargas (músico de jazz). Ele tem um álbum chamado "Selos e Borboletas". Perguntaram-lhe porquê. Ele disse que, quem só vê selos, não sabe o que perde da beleza das borboletas. E quem só vê borboletas não sabe o que perde da beleza dos selos. Quem só vê política não sabe o que perde em não se interessar por outras coisas", defende.

Carlos Matias (politico) a o Mirante, 30/01/2009

Uma Inocente Inclinação Para o Mal

Uma Inocente Inclinação Para o Mal - A Naifa (Lisboa Records, 2008)

O que é "Uma Inocente Inclinação para o Mal"?

Luis Varatojo - É a última frase do último tema do disco. A determinada altura, havia que definir o nome do álbum e demos com essa frase. Achámos que fazia todo o sentido. Tinha a ver com as pequenas histórias que aqui são contadas, tinha esse travo, essas pequenas maldades.

Entrevista de Ana Filipa Baltazar. jornal meia Hora 14/04/2008

Veio-se a saber que o autor dos textos não era uma fã mas sim João Aguardela que, sem os outros saberem, tinha usado o nome da sua avó para assinar as letras.

3 Minutos antes de a Maré Encher

3 Minutos antes de a Maré Encher - A Naifa (ZM, 2006)

Era o nome de um livro do escritor VALTER HUGO MÃE.

Múgica

Múgica - Amélia Muge (UPAV, 1992)

– E como surgiu então, o álbum "Múgica"?

Apareceu a UPAV, com o Zé Mário Branco, o Carlos do Carmo e outros artistas e pessoas que me fizeram acreditar que por ali talvez valesse a pena. A UPAV acabou, logo a seguir à edição do "Múgica", mas deu o empurrão fundamental para que eu continuasse… Mas estou a terminar um relato que de certo modo deixa de fora o mais importante: não estaria "na música" (profissionalmente falando) se não tivesse ao meu lado o talento, o empenho e a amizade dos músicos maravilhosos que foram trabalhando comigo, as parcerias (onde incluo os poetas), os técnicos, os agentes, todos os que, a seu modo, ajudaram a criar isto (que não sou de todo só eu) que se chama, artisticamente falando, "Amélia Muge".

Entrevista de Viriato Teles, 2009

1 Autora 200 Canções

1 Autora 200 Canções - Amélia Muge (Caracter, 2009)

- Como é que surgiu este concerto "1 Autora - 2002 Canções"?

Surgiu da sugestão do António Cunha da UGURU, de fazer um trabalho, que começaria por um concerto evidenciando o meu lado de autora compositora. Este foi o ponto de partida. O ponto de chegada foram as canções seleccionadas, os arranjos do José Martins, Filipe Raposo e José Manuel David, os convidados, as ambiencias, enfim,tudo o resto que faz com que o
público veja de um espectáculo, apenas a ponta de um grande iceberg.

- Trazer para palco as 202 canções de Amélia, numa só noite, seria uma concretização difícil. Acha que foi mais difícil fazer a selecção das canções para este concerto no CCB?

Não foi por ser difícil que não trouxe as 202 canções para o palco. Foi, à partida, porque não via nisso interesse nenhum. .. Uma selecção é sempre uma selecção possível. Como não se tratava de seleccionar uma meia dúzia de canções que poderiam ser consideradas " as melhores" para a posteridade, as opções foram um pouco partilhadas por mim e pelos arranjadores, a partir de 3 critérios principais: representar os meus álbuns, evocar intérpretes para quem já compus e previligiar canções com música e texto meus. Depois acrescentaram-se dois originais e as excepções que justificaram a regra.

- Este concerto contou com as participações especiais de Ana Moura e Gaiteiros de Lisboa. Como é que surgiram estes convites?

A Ana ainda não gravou ainda outro disco. Logo, o tema que ela canta de minha autoria, O Fado da Procura, ainda é muito recente. Não me parecia bem estar a cantá-lo. Logo, nada melhor do que convidá-la a fazê-lo. Para os Gaiteiros, só participei com textos nos temas deles. Não me pareceu interessante estar a fazer arranjos musicais para estes temas. Logo, seria óbvio também o convite. Ainda por cima, adoro o trabalho quer da Ana quer dos Gaiteiros e adoro cantar com eles.

Entrevista de Marisa Antunes / Inside, 07/12/2008

Por Minha Dama

Por Minha Dama - Ala dos Namorados (EMI, 1995)

Durante o trabalho de grafismo para a capa do segundo álbum do grupo, verificou-se que numa das ampliações fotográficas do Painel Ala dos Namorados (pertencente ao Pavilhão Carlos Lopes), o escudo de um cavaleiro deitado por terra ostentava a divisa "Por Minha Dama".

Mais forte Que A Paixão

Mais forte Que A Paixão - Adelaide Ferreira (Farol, 2006)

- Porque tardou tanto este novo disco?

Não faço discos só para ganhar dinheiro. Tenho de sentir que tenho algo a dizer. "Mais Forte Que A paixão" é um título ambivalente: a paixão é estonteante, embebeda e faz sofrer. Num relacionamento a dois temos de ser mais fortes do que ela. Só o amor é racional.

Entrevista de Vanessa Fidalgo / Correio da Manhã

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Encantamento

Encantamento - Mafalda Arnauth (EMI, 2003)

"Encantamento" termina com um "Fado Arnauth". A própria não receia ser acusada de pretensiosismo e explica a razão de ser do título: "Esse título existe porque estive durante dois ou três meses a tentar dar títulos às músicas o que, com a SPA, é impossível. Têm sempre registado um título igual! Por exemplo, tinha "Na palma da minha mão", mas não dava, tentei cinco ou seis títulos, acabou por ter que ser "Da palma da minha mão". O "Fado Arnauth" foi "Feitiço", o "Sem limite" não pôde ser "Sem limites", "Bendito fado" teve que ficar "Bendito fado, bendita gente", "É sempre cedo" chamava-se "Acorda coração"... Impressionante. O "Fado Arnauth" foi um relâmpago, nascido da frustração."





E "Encantamento", foi também assim? "Esse foi um encantamento total. Um cantamento, encantamento que vem do canto. Um encantamento com a vida que passa. Porque é que, de repente, me sinto uma pessoa saudável? Há quem diga que o desapego à vida, um instinto anti-vida, é necessário. Eu penso precisamente o contrário, acho que este encantamento vem de cantar à vida, da superação do dia-a-dia. A minha vida será tanto mais rica quanto mais gostar até das coisas menos boas. Embora hoje este amor pela vida esteja algo "démodé"...Já esteve mais na moda ser-se feliz."



Entrevista de Fernando Magalhães / Público

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Kronos

Kronos - Cristina Branco (Universal, 2009)

O tema central será o tempo – o álbum chamar-se-à Cronos –, no seu sentido mais lato. Eu parto sempre do título dos álbuns para a concepção, o único onde isso não aconteceu foi, justamente, neste sobre o José Afonso.

João Lisboa/Lishbuna, 02/12/2007

Há cerca de dois anos, aquando da publicação de Abril (centrado na reinterpretação de canções de José Afonso), já no final da entrevista, quase casualmente, Cristina Branco confessava-me que o álbum seguinte já estava em fase de pré-produção, "a gente não pode parar!". E, com um rigor superior ao de todos os profetas bíblicos, anunciava que "só sairá em 2009 e são doze poemas e doze compositores, todos portugueses. A intenção é que sejam os cantautores a compor: o Vitorino, o Janita (que fez apenas música para um poema fantástico da Hélia Correia), o Sérgio Godinho, tenho dois poemas do Júlio Pomar que gostava que fossem musicados pelo António Vitorino de Almeida, a letra para um tango do Vasco Graça Moura, dois poemas do Manuel Alegre escritos propositadamente para este disco e ainda deverão surgir outros nomes como o João Paulo Esteves da Silva, o Ricardo Dias e a Amélia Muge". Obedeceria a um tema central, o tempo em sentido lato, e teria como título Kronos. Com uma precisão de relojoaria suiça, na data prevista e com os intervenientes planeados, ei-lo pronto e magnífico.

Mas porquê o tempo como eixo conceptual? "Apetecia-me falar sobre isso, sobre o que perdi e ganhei, sobre a forma como evoluímos no tempo, mesmo fisicamente. Para além disso, passaram onze anos e dez discos, fazia-me sentido – com mais dois discos de permeio em que me permiti explorar o reportório das pessoas por quem tenho mais admiração na música portuguesa, a Amália e o José Afonso – fazer uma passagem para os cantautores portugueses. No fundo, são eles quem ainda está a escrever. O desafio que lancei foi, então, que me escrevessem um fado sobre o tempo". Um fado, exactamente um fado, ou uma canção – fado ou não-fado – sobre esse tema? "Um fado, pedi sempre um fado. Claro que a maioria deles não são fados. Alguns, o Zé Mário Branco, por exemplo, tiveram o cuidado de, já com a música feita, me terem ligado a dizer que não tinham composto um fado porque não era assim que me viam. O Ricardo que foi

João Lisboa/Lishbuna, 18/03/2009

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Os Crimes do Dr. Estranho Amor e outras estórias

Os Crimes do Dr. Estranho Amor e outras estórias - Dr. Estranho Amor (2009)

- Há um conceito muito próprio neste disco e mesmo na vossa estética enquanto banda. De onde vêm essas referências e todo esse imaginário?

Todo o quotidiano acaba por nos influenciar e as coisas que nos tocam inspiram-nos ainda mais, e a arte é uma coisa com a qual nós temos uma relação forte, em todas as suas formas. O cinema, a escrita, a fotografia, a pintura, todas essas diferentes formas de arte nos tocam bastante e nos inspiram. Na nossa maneira de encarar todo o processo que é estar na música, desde a composição até à maneira como nos apresentamos em palco e até no art work, há sempre essa ligação. Se vamos fazer uma coisa em que há uma componente da imagem, tentamos criar também aí um universo que nos interessa. No caso do disco a que demos o nome de ‘Os Crimes do Dr. Estranho Amor e outras estórias’ quisémos explorar um bocado este ambiente mais soturno e misterioso, e fomos beber um bocadinho a filmes ou livros que nos transmitisse estes ambientes. Como por exemplo Jack The Ripper, o ambiente do sec. XIX que por um lado concentra este imaginário de um certo suspense. Por outro lado, é uma época em que as coisas eram menos rápidas e menos futeis, uma altura em que as pessoas se reuniam mais em terutlias, um período muito rico culturalmente e onde as pessoas se juntavam muito para debater ideias.

Por Andreia Arenga / Mundo Universitario, 18/06/2009

domingo, 7 de novembro de 2010

Cristina Branco in Holland

Cristina Branco in Holland - Cristina Branco (Edição de Autor, 1997)

- O seu primeiro disco, "Cristina Branco in Holland", foi, como o próprio título indica, gravado na Holanda em 1997. Como é que tudo aconteceu?

Havia o interesse por parte do "centro de cultura portuguesa na Holanda", de levar fado e sangue novo até essas paragens. Foi o caminho lógico depois de por lá terem passado nomes como José Afonso, Amélia Muge e outros. Visto a esta distância, acho que era tempo de preencher o abismo que se instalou entre a nossa cultura e outras de países como a Holanda. Tudo foi um acaso. Nesse ano dava eu os primeiros passos na experimentação da voz, (a convite de um amigo passei pelo programa da manhã da RTP1), foi visionado na Holanda e dias mais tarde entravam em contacto comigo perguntando se estava interessada em ir até aquele país para cantar nas comemorações do 25 de Abril desse ano, para a ínfima comunidade portuguesa local da altura. Disse que sim. Portugueses eram 4, todos foragidos da guerra colonial e completamente imbuídos na cultura local mas conscientes e orgulhosos da sua.

Por André Gomes/Bodyspace, 23/06/2006

Luso Qualquer Coisa

Lusoqualquercoisa - Clã (EMI, 1996)

"«LUSOQUALQUERCOISA» É UMA EXPRESSÃO UTILIZADA NO «SER (PORTUGUÊS)», E QUE É UM BOCADO A DEFINIÇÃO DE UM TIPO DE PESSOA DA REALIDADE PORTUGUESA ACTUAL".

A way to bleed your lover

A way to bleed your lover - Blind Zero (Universal)

Ouviu-se "A way to bleed your lover", o quarto álbum dos Blind Zero, lançado esta semana.
O novo trabalho "é de alguma ruptura em termos de som e de composição", explica Miguel Guedes, vocalista. Estava na altura de mostrar uma coisa diferente, mais perfeccionista e mais pensada. Ao novo disco chamam-lhe "a cor do sangue", por ter tonalidades viva."Quisemos um ambiente que não fosse tão negro quanto o anterior, que era essencialmente preto e branco", esclarece o principal compositor do grupo.

""A way to bleed your lover" é uma maneira de nos sangrarmos a nós próprios, porque nós somos o nosso objecto de amor". Ali, entram personagens disfuncionais que são, afinal, autobiográficas na inspiração. As letras, Miguel Guedes escreve-as com quem respira. "Não ando às voltas com as mesmas palavras. Tento encontrar um bom seguimento para os primeiros versos, até que tudo entra nos carris".

Entrevista de Anabela Rei/Jn

MG – Quanto à capa e à contracapa e à parte interior do disco, queríamos que, desta vez, houvesse um reforço do imaginário das canções pelo recurso à fotografia. Quisemos pictorizar algumas das canções, facilitando também, de alguma forma, a interpretação das pessoas. Nós vemos nos dias que correm que as pessoas não têm tempo para interpretar o que quer que seja, nem sequer para ouvir um disco sentadas. A maior parte das pessoas ouve os discos no carro, enquanto foge do trânsito e ouve os discos entre noticiários. Em relação aos nossos discos em particular, tem havido essa dificuldade de interpretação. E nós também não somos uma banda muito evidente, as letras não são muito concretas, não falam de coisas muito palpáveis, falam mais de coisas interiores. E, se por um lado, isso é bom porque nos cria um certo refúgio onde nós nos sentimos bem, por outro, também nos cria algum drama pela incapacidade que, às vezes, parece que temos de comunicar com as pessoas no sentido de não passar o nosso imaginário, que é um imaginário denso, negro e obtuso. O público de Lynch também não é o público massivo. Desta vez, quisemos que para cada canção, cada um de nós assumisse um papel de acordo com a canção e que recriasse um bocado o ambiente e que, de alguma forma, facilitasse não a vida às pessoas mas a intromissão das pessoas nas canções, que é o que nós queremos.

- O primeiro single extraído do álbum, “You Owe Us Blood”, acaba por sintetizar o espírito contido no título do disco. Há algum conceito por detrás do nome e do álbum em si?

MG – Não há um conceito unificador. Não é um álbum conceptual nem tem pretensões a isso. Acho que há um fio condutor que tem a ver com as temáticas do disco, que são bastante negras, depressivas e urbanas, que falam sobre personagens perturbadas, psicóticas, disfuncionais, que não lidam bem com o envelhecimento. Fala de pânico, de suicídio, de sangue, de morte física e actividade cerebral em simultâneo. Portanto, são temas um pouco pesados e complicados de abordar. E que são abordados de uma forma menos subtil que a sonoridade. As letras são um bocado mais agressivas, embora não sejam tão demonstrativas e talvez as pessoas não sintam essa agressividade porque não incorporam. Fala-se de sentimentos tenebrosos neste disco e, portanto, “A Way to Bleed Your Lover” é uma tentativa não conseguida – não gosto de títulos que reduzam o disco e penso que este não o faz –, é um título que joga na ambiguidade do disco e mesmo na nossa ambiguidade no processo de feitura deste disco. “A Way To Bleed Your Lover”, de um modo literal, pode ser uma forma de fazer sangrar ou esvaziar o teu objecto de amor ou de desejo. O sangramento, normalmente, é interpretado de uma forma bastante carnívora, sempre do lado mais terrorífico. Mas sangramento, aqui, tem um sentido duplo: é, simultaneamente, isso e um acto de formação. “Bleed”, no sentido de esvaziar para poder voltar a encher, que é também o processo de criação deste disco. Depois do “One Silent Accident” e tentando esquecer o nosso percurso para trás, apesar de sabermos que iríamos encontrar alguns pontos de contacto, tentámos reinventar-nos e fazer um disco que tivesse o menos possível que ver com o resto. Deixa-me apenas concluir que, numa altura em que se fala tanto da sensibilização da música portuguesa e das questões da língua, eu acho que as pessoas que lêem a Mondo Bizarre têm a mesma opinião que eu, que nós temos. Em relação à língua, isto é uma grande palhaçada. É pegar no pior ponto possível. Pretender defender a música portuguesa reduzindo-a à língua é a menor das questões. Infelizmente, havia muito por onde pegar e é um desprezo enorme por uma data de músicos novos e uma geração nova de pessoas, que estão a fazer alguma coisa pela identidade cultural deste país e que não quer construir a identidade deste país da mesma forma que se construiu durante décadas de salazarismo. E gostaria que no debate sobre a música portuguesa os argumentos invocados fossem sobretudo a sensibilização de que há coisas que se estão a passar, uma sensibilização para a escuta. Mais preocupante do que não se comprarem discos é não saber que eles existem.

Entrevista de Helder Gomes / Mondo Bizarre # 15