A way to bleed your lover - Blind Zero (Universal)
Ouviu-se "A way to bleed your lover", o quarto álbum dos Blind Zero, lançado esta semana.
O novo trabalho "é de alguma ruptura em termos de som e de composição", explica Miguel Guedes, vocalista. Estava na altura de mostrar uma coisa diferente, mais perfeccionista e mais pensada. Ao novo disco chamam-lhe "a cor do sangue", por ter tonalidades viva."Quisemos um ambiente que não fosse tão negro quanto o anterior, que era essencialmente preto e branco", esclarece o principal compositor do grupo.
""A way to bleed your lover" é uma maneira de nos sangrarmos a nós próprios, porque nós somos o nosso objecto de amor". Ali, entram personagens disfuncionais que são, afinal, autobiográficas na inspiração. As letras, Miguel Guedes escreve-as com quem respira. "Não ando às voltas com as mesmas palavras. Tento encontrar um bom seguimento para os primeiros versos, até que tudo entra nos carris".
Entrevista de Anabela Rei/Jn
MG – Quanto à capa e à contracapa e à parte interior do disco, queríamos que, desta vez, houvesse um reforço do imaginário das canções pelo recurso à fotografia. Quisemos pictorizar algumas das canções, facilitando também, de alguma forma, a interpretação das pessoas. Nós vemos nos dias que correm que as pessoas não têm tempo para interpretar o que quer que seja, nem sequer para ouvir um disco sentadas. A maior parte das pessoas ouve os discos no carro, enquanto foge do trânsito e ouve os discos entre noticiários. Em relação aos nossos discos em particular, tem havido essa dificuldade de interpretação. E nós também não somos uma banda muito evidente, as letras não são muito concretas, não falam de coisas muito palpáveis, falam mais de coisas interiores. E, se por um lado, isso é bom porque nos cria um certo refúgio onde nós nos sentimos bem, por outro, também nos cria algum drama pela incapacidade que, às vezes, parece que temos de comunicar com as pessoas no sentido de não passar o nosso imaginário, que é um imaginário denso, negro e obtuso. O público de Lynch também não é o público massivo. Desta vez, quisemos que para cada canção, cada um de nós assumisse um papel de acordo com a canção e que recriasse um bocado o ambiente e que, de alguma forma, facilitasse não a vida às pessoas mas a intromissão das pessoas nas canções, que é o que nós queremos.
- O primeiro single extraído do álbum, “You Owe Us Blood”, acaba por sintetizar o espírito contido no título do disco. Há algum conceito por detrás do nome e do álbum em si?
MG – Não há um conceito unificador. Não é um álbum conceptual nem tem pretensões a isso. Acho que há um fio condutor que tem a ver com as temáticas do disco, que são bastante negras, depressivas e urbanas, que falam sobre personagens perturbadas, psicóticas, disfuncionais, que não lidam bem com o envelhecimento. Fala de pânico, de suicídio, de sangue, de morte física e actividade cerebral em simultâneo. Portanto, são temas um pouco pesados e complicados de abordar. E que são abordados de uma forma menos subtil que a sonoridade. As letras são um bocado mais agressivas, embora não sejam tão demonstrativas e talvez as pessoas não sintam essa agressividade porque não incorporam. Fala-se de sentimentos tenebrosos neste disco e, portanto, “A Way to Bleed Your Lover” é uma tentativa não conseguida – não gosto de títulos que reduzam o disco e penso que este não o faz –, é um título que joga na ambiguidade do disco e mesmo na nossa ambiguidade no processo de feitura deste disco. “A Way To Bleed Your Lover”, de um modo literal, pode ser uma forma de fazer sangrar ou esvaziar o teu objecto de amor ou de desejo. O sangramento, normalmente, é interpretado de uma forma bastante carnívora, sempre do lado mais terrorífico. Mas sangramento, aqui, tem um sentido duplo: é, simultaneamente, isso e um acto de formação. “Bleed”, no sentido de esvaziar para poder voltar a encher, que é também o processo de criação deste disco. Depois do “One Silent Accident” e tentando esquecer o nosso percurso para trás, apesar de sabermos que iríamos encontrar alguns pontos de contacto, tentámos reinventar-nos e fazer um disco que tivesse o menos possível que ver com o resto. Deixa-me apenas concluir que, numa altura em que se fala tanto da sensibilização da música portuguesa e das questões da língua, eu acho que as pessoas que lêem a Mondo Bizarre têm a mesma opinião que eu, que nós temos. Em relação à língua, isto é uma grande palhaçada. É pegar no pior ponto possível. Pretender defender a música portuguesa reduzindo-a à língua é a menor das questões. Infelizmente, havia muito por onde pegar e é um desprezo enorme por uma data de músicos novos e uma geração nova de pessoas, que estão a fazer alguma coisa pela identidade cultural deste país e que não quer construir a identidade deste país da mesma forma que se construiu durante décadas de salazarismo. E gostaria que no debate sobre a música portuguesa os argumentos invocados fossem sobretudo a sensibilização de que há coisas que se estão a passar, uma sensibilização para a escuta. Mais preocupante do que não se comprarem discos é não saber que eles existem.
Entrevista de Helder Gomes / Mondo Bizarre # 15
domingo, 7 de novembro de 2010
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