Eclesiastes 1:11 - Wraygunn
demonstram no seu segundo álbum, "Eclesiastes 1:11", que viram todos os filmes de "blaxploitation", que consumiram avidamente o grosso da discografia da editora Fat Possum e, acima de tudo, que leram uma versão - ainda que em "reader's digest" - da Bíblia. Só para quem sabe que a intensidade primordial do rock não é mero espalhafato de guitarras eléctricas em distorção, mas sim um interminável diálogo entre Deus e o Diabo, "Eclesiastes 1:11" funciona como um bálsamo para as mais fundas agruras da alma. Um problema que acaba por ser solucionado.
A chave que resolve estas doze novas canções gravadas pelos Wray Gunn está, provavelmente, na versão de "There but for the grace of God go I": uma canção de culto editada originalmente em 1979, pelos Machine, meio disco-sound meio soul, e que conta a história da fuga desesperada do Bronx de um casal de latinos mais a sua pequena filha. Procurando um lugar onde não existam "nem pretos, nem judeus, nem gays", Carlos e Carmen Vidal encontram afinal a terrível sentença divina que atesta que "amor a mais é pior que amor nenhum". Na voz de Raquel Ralha (também conhecida por cantar com o colectivo Belle Chase Hotel), o desconcerto da moral vigente soa com imensa segurança e cada palavra é um torpedo dirigido ao fundamentalismo inventado para contrariar a vida.
Os Wray Gunn já estão bem treinados nestas conversas com Deus. Tanto que as melhores canções de "Eclesiastes 1:11" (um salmo em que se afirma a falta de religiosidade dos tempos que correm: "já não há lembrança das gerações passadas; nem das gerações futuras haverá lembrança entre os que virão depois delas.") são aquelas em que mais decididamente eles descartam o rock psicótico e tribal que pode ir dos Cramps até aos Suicide, para enveredarem pelo chamamento do Senhor. "Keep on praying", "Don't you know" e "Hip" levantam a moral a um álbum cheio de cuidados nos arranjos e na forma como aborda a herança mais negra (aqui nos dois sentidos) da música norte-americana. Ainda assim, lugar para uma ou outra psicadela de olho à moda da música de dança ou à do rock que hoje fustiga as revistas da especialidade. Nada que ofusque a luz que se desprende de canções como "Don't you know", em que a cantora dirige-se ao Altíssimo como quem quer falar das coisas do Diabo. Amor e sexo, por fim, em comunhão total.
Miguel Francisco Cadete / Y-Público, 30/04/2004
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