Circa 1999 (9 Implosões) - Bernardo Devlin (ExtremOcidente, 2003)
- Abordando mais directamente o seu mais recente álbum de originais, "Circa 1999 – 9 Implosões", importa referir, sem pejo, que é um dos trabalhos mais originais dos últimos tempos da música portuguesa. Crê que é o seu álbum mais ousado formalmente e que poderá marcar o panorama da música nacional?
O meu álbum anterior “Albedo” [de 1997] continha já as sementes do que desenvolvi em “Circa 1999”. Concordo que neste último tive um maior tempo de reflexão. Se vai ou não marcar o panorama da música nacional não faço a mínima ideia. Penso sempre em termos de projectos futuros a serem inteiramente financiados pela ExtremOcidente. Como tal, espero ainda este ano sair com dois álbuns: um, em formato de 5.1, chamado “Ágio” e um outro, duplo, chamado “Vol. 3: As 2 antenas do caracol”. Não sei como eles se irão desenvencilhar mas estou certo que tudo correrá pelo melhor.
- “Circa 1999” tem nove canções, ou implosões, como as designa. Todas aparentam suster-se com base no formato de “canção”, mas numa abordagem estética manifestamente pouco ortodoxa: as músicas surgem constituídas quase como fragmentos melódicos dispersos, onde a tua voz acaba por unir o conjunto. Neste contexto, qual foi a metodologia de composição?
Silêncio e solidão.
- “Circa 1999 é em termos gráficos e de design, muito cuidado e arrojado, contendo inclusive traduções dos textos em inglês e japonês.
Inicialmente previ um objecto mais simples mas foi-me praticamente exigido o desenvolvimento da ideia. Eu estou disponível para esse tipo de exigências desde que possa ter o controle artístico do todo. As traduções devem-se ao facto de a editora prever uma distribuição o mais abrangente possível do disco.
- Para quem nunca teve contacto com a sua música em geral e com este “Circa 1999”, em particular, como caracterizaria o seu trabalho?
Ideal para quem usufrua de tempo. Tal como a leitura, a escuta requer disponibilidade e não estou de todo interessado em fazer cedências a todos aqueles que entendem a música como elemento decorativo para uma sala de estar confortável onde se recebem as agradáveis e corteses visitas de fim-de-semana. O conforto físico é, no entanto, ideal para o confronto, e usufruto, mediante uma música exigente ao nível de escuta. Os altifalantes devem estar bem afastados e a posição ideal é uma triangulação entre eles e o auditor para que a estrutura da coisa se torne sensível. O meu trabalho é perfeitamente acessível para quem a ele se disponibilizar. Certamente não será para todos. Também não é essa a ideia.
Entrevista de Victor Afonso / Mondo Bizarre, Março 2004
terça-feira, 7 de dezembro de 2010
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