terça-feira, 7 de dezembro de 2010

A Ópera Mágica do Cantor Maldito

A Ópera Mágica do Cantor Maldito - Fausto (Sony, 2003)

Primeiro ouvem-se sons de grilos, a sugerir uma atmosfera nocturna. Depois, escutam-se passos de

várias pessoas, uns apressados outros lentos, "walkie-talkies" em comunicação, uma campainha que toca

uma, duas, três vezes, à quarta já em fúria pelo silêncio do outro lado. E a seguir um pontapé forte

em madeira seca. A porta treme ao estrondo que se repete, sincopado, para logo se fundir com o rufar

de tambores em cadência marcial. E uma voz, imperativa como a do mandador num baile mandado: "Dá-lhe

mais, que esta primeira é coisa pouca! Rebenta-me essa porta que lá dentro há coisa ruim! Rodeia

agora e bate forte, vai o coração à boca!" Um coro, masculino, em ondas como no "leva-leva" dos

pescadores algarvios, responde: "Cala a boca/ dobra a língua/ corta os pulsos/ quebra os dedos/ fecha

os olhos/ morre um pouco/ cala!"

É preciso reter estas últimas palavras: calar é morrer um pouco. Porque é em torno delas que Fausto

Bordalo Dias constrói o seu mais recente e elaboradíssimo disco, que começa tal como acabámos de

descrever. Ele chama-lhe uma ópera, uma ópera mágica, e quem ficar apenas pela sua superfície poderá

retratá-lo (mal) como um disco de crítica aos poderes instalados, espécie de ressurreição de um canto

(o de intervenção) que teve no pós-25 de Abril a sua génese e apogeu.

Mas é uma pista falsa. "A Ópera Mágica do Cantor Maldito", elaborada e aperfeiçoada por Fausto ao

longo dos últimos anos, é a aplicação aos dramas e contradições da sua geração (onde a música

desempenhou papel crucial) do mesmo método por ele seguido na trilogia que começou com "Por Este Rio

Acima" (1982), prosseguiu com "Crónicas da Terra Ardente" (1994) e há-de terminar num terceiro

duplo-álbum nos anos que virão. É a passagem da história trágico-marítima à história

trágico-política, sem que daí resulte um discurso vulgarmente contestatário.

Por isso, retomemos o fio da história: há um cantor que calam mas não morre. E morre mas não calam.

Contraditório? Como tudo, naturalmente. Como a imagem da capa, reflectida num espelho embaciado que

deixa entrever no modelo escolhido (não é Fausto, mas é uma das suas guitarras, por sinal vermelha,

que pende dos ombros do modelo anónimo) um cantor que são vários e que acolherá na sua rota de

tragicomédia personagens que o completam e cercam, como o magistral agiota, a

nova-brigada-dos-coronéis-de-lápis-azul, os bárbaros da "passerelle", os mangas-de-alpaca, a loira do

bilhete de despedida, o "desconhecido alguém" que espreita "na paz da imensidão do universo" e a que

o cantor não precisa de chamar Deus.

Neste sentido, a "ópera" de Fausto é também uma epopeia portuguesmente terreste de que já conhecemos

(ou julgamos conhecer) muitas das personagens, aqui escarnecidas pelos seus defeitos, fraquezas e

falácias, pelo seu ego contraditório que o vapor no espelho ajuda a disseminar e simultaneamente a

ocultar. Na certeza de que, quando as gotas abandonarem o espelho à sua limpeza anterior, poucos ou

nenhuns escaparão incólumes ao olhar que antes nele pousou. Um olhar que não poupa ninguém, nem o

próprio autor, que aqui retrata igualmente os seus vícios e dúvidas, expondo-os como narrador

distanciado e implacavelmente crítico desta história onde por paixão se envolveu. Porque são amores e

ódios que aqui se cruzam, numa teia (o autor prefere a palavra "trama") que aos poucos se desvenda em

palavras cuidadas (as letras são, quase sempre, superlativas, bem como a música que as envolve, na

linha dos discos anteriores, assente no usual cruzamento de rítmicas tradicionais com harmonias

finamente elaboradas) e em pormenores que caberá ao auditor desvendar, numa paciência de labirinto.

Uma pista, necessária: a segunda canção do disco, "Era uma vez um cantor maldito", foi escrita como

"libreto" intencional desta "ópera". Nela reside a chave essencial para as leituras/audições que se

seguem.

epopeia. A trama da história tem, como se verá, além de contornos alegóricos, alguns traços místicos.

É certo que os penitentes e os pecadores são outros, de outro tempo que é o nosso, mas também eles

encontram eco nas personagens antes recriadas por Fausto a partir da "Peregrinação" de Fernão Mendes

Pinto: os tesouros e a agiotagem, as naus (agora cibernéticas) e os amores sem âncora, os sonhos e o

definhamento deles. Mas se este paralelismo é patente em grande parte do disco, é o lado místico que

desperta nas duas últimas canções, "A penumbra da claridade" e "E o cantor olha as estrelas", a

primeira fazendo o cantor questionar-se sobre a existência de uma entidade divina no momento da sua

prenunciada morte ("quem sabe/ eu sem saber/ acredite em ti/ e tu/ quem sabe/ sem que eu saiba/

acredites em mim"); e a segunda levando um coro feminino a lavrar-lhe um epitáfio que soa como um

Te-Deum pagão. Os tambores finais, trocando a cadência marcial dos primeiros minutos do disco pela

euforia das festas populares, acentuam a alegria da também anunciada ressurreição do cantor defunto:

"Na troada dos tambores/ e no rasgado das violas bravias/ levanta-se agora por artes de magia/

ressuscitou p'la grande vénia dos actores/ no coração rebelde de outros cantores". Não é um mártir

nem um herói, e é aqui que a história trai a mística. É apenas um homem. Há muito tempo que um disco

não nos contava assim uma história, desafiando-nos a escutá-la fora da pressa habitual dos dias.

(..)

Os desenhos do decano da BD portuguesa, José Ruy, que ilustram o libreto do disco a pedido de Fausto,

devem-se a uma ligação antiga e sentimental: foi através do seu traço que o cantor descobriu, ainda

jovem e no extinto "Cavaleiro Andante", as primeiras pranchas da "Peregrinação" de Fernão Mendes

Pinto.

O pequeno excerto de gravação inserido no final do disco como faixa escondida, um minuto após

terminar o último tema, mostra o cantor a gaguejar (e a praguejar) nos ensaios de "Eis aqui o

agiota", por não acertar na métrica da canção. Uma forma, como qualquer outra, de desembaciar o espelho.


"uma geração ao espelho", texto de Nuno pacheco / Público, 28/11/2003

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