A Ópera Mágica do Cantor Maldito - Fausto (Sony, 2003)
Primeiro ouvem-se sons de grilos, a sugerir uma atmosfera nocturna. Depois, escutam-se passos de
várias pessoas, uns apressados outros lentos, "walkie-talkies" em comunicação, uma campainha que toca
uma, duas, três vezes, à quarta já em fúria pelo silêncio do outro lado. E a seguir um pontapé forte
em madeira seca. A porta treme ao estrondo que se repete, sincopado, para logo se fundir com o rufar
de tambores em cadência marcial. E uma voz, imperativa como a do mandador num baile mandado: "Dá-lhe
mais, que esta primeira é coisa pouca! Rebenta-me essa porta que lá dentro há coisa ruim! Rodeia
agora e bate forte, vai o coração à boca!" Um coro, masculino, em ondas como no "leva-leva" dos
pescadores algarvios, responde: "Cala a boca/ dobra a língua/ corta os pulsos/ quebra os dedos/ fecha
os olhos/ morre um pouco/ cala!"
É preciso reter estas últimas palavras: calar é morrer um pouco. Porque é em torno delas que Fausto
Bordalo Dias constrói o seu mais recente e elaboradíssimo disco, que começa tal como acabámos de
descrever. Ele chama-lhe uma ópera, uma ópera mágica, e quem ficar apenas pela sua superfície poderá
retratá-lo (mal) como um disco de crítica aos poderes instalados, espécie de ressurreição de um canto
(o de intervenção) que teve no pós-25 de Abril a sua génese e apogeu.
Mas é uma pista falsa. "A Ópera Mágica do Cantor Maldito", elaborada e aperfeiçoada por Fausto ao
longo dos últimos anos, é a aplicação aos dramas e contradições da sua geração (onde a música
desempenhou papel crucial) do mesmo método por ele seguido na trilogia que começou com "Por Este Rio
Acima" (1982), prosseguiu com "Crónicas da Terra Ardente" (1994) e há-de terminar num terceiro
duplo-álbum nos anos que virão. É a passagem da história trágico-marítima à história
trágico-política, sem que daí resulte um discurso vulgarmente contestatário.
Por isso, retomemos o fio da história: há um cantor que calam mas não morre. E morre mas não calam.
Contraditório? Como tudo, naturalmente. Como a imagem da capa, reflectida num espelho embaciado que
deixa entrever no modelo escolhido (não é Fausto, mas é uma das suas guitarras, por sinal vermelha,
que pende dos ombros do modelo anónimo) um cantor que são vários e que acolherá na sua rota de
tragicomédia personagens que o completam e cercam, como o magistral agiota, a
nova-brigada-dos-coronéis-de-lápis-azul, os bárbaros da "passerelle", os mangas-de-alpaca, a loira do
bilhete de despedida, o "desconhecido alguém" que espreita "na paz da imensidão do universo" e a que
o cantor não precisa de chamar Deus.
Neste sentido, a "ópera" de Fausto é também uma epopeia portuguesmente terreste de que já conhecemos
(ou julgamos conhecer) muitas das personagens, aqui escarnecidas pelos seus defeitos, fraquezas e
falácias, pelo seu ego contraditório que o vapor no espelho ajuda a disseminar e simultaneamente a
ocultar. Na certeza de que, quando as gotas abandonarem o espelho à sua limpeza anterior, poucos ou
nenhuns escaparão incólumes ao olhar que antes nele pousou. Um olhar que não poupa ninguém, nem o
próprio autor, que aqui retrata igualmente os seus vícios e dúvidas, expondo-os como narrador
distanciado e implacavelmente crítico desta história onde por paixão se envolveu. Porque são amores e
ódios que aqui se cruzam, numa teia (o autor prefere a palavra "trama") que aos poucos se desvenda em
palavras cuidadas (as letras são, quase sempre, superlativas, bem como a música que as envolve, na
linha dos discos anteriores, assente no usual cruzamento de rítmicas tradicionais com harmonias
finamente elaboradas) e em pormenores que caberá ao auditor desvendar, numa paciência de labirinto.
Uma pista, necessária: a segunda canção do disco, "Era uma vez um cantor maldito", foi escrita como
"libreto" intencional desta "ópera". Nela reside a chave essencial para as leituras/audições que se
seguem.
epopeia. A trama da história tem, como se verá, além de contornos alegóricos, alguns traços místicos.
É certo que os penitentes e os pecadores são outros, de outro tempo que é o nosso, mas também eles
encontram eco nas personagens antes recriadas por Fausto a partir da "Peregrinação" de Fernão Mendes
Pinto: os tesouros e a agiotagem, as naus (agora cibernéticas) e os amores sem âncora, os sonhos e o
definhamento deles. Mas se este paralelismo é patente em grande parte do disco, é o lado místico que
desperta nas duas últimas canções, "A penumbra da claridade" e "E o cantor olha as estrelas", a
primeira fazendo o cantor questionar-se sobre a existência de uma entidade divina no momento da sua
prenunciada morte ("quem sabe/ eu sem saber/ acredite em ti/ e tu/ quem sabe/ sem que eu saiba/
acredites em mim"); e a segunda levando um coro feminino a lavrar-lhe um epitáfio que soa como um
Te-Deum pagão. Os tambores finais, trocando a cadência marcial dos primeiros minutos do disco pela
euforia das festas populares, acentuam a alegria da também anunciada ressurreição do cantor defunto:
"Na troada dos tambores/ e no rasgado das violas bravias/ levanta-se agora por artes de magia/
ressuscitou p'la grande vénia dos actores/ no coração rebelde de outros cantores". Não é um mártir
nem um herói, e é aqui que a história trai a mística. É apenas um homem. Há muito tempo que um disco
não nos contava assim uma história, desafiando-nos a escutá-la fora da pressa habitual dos dias.
(..)
Os desenhos do decano da BD portuguesa, José Ruy, que ilustram o libreto do disco a pedido de Fausto,
devem-se a uma ligação antiga e sentimental: foi através do seu traço que o cantor descobriu, ainda
jovem e no extinto "Cavaleiro Andante", as primeiras pranchas da "Peregrinação" de Fernão Mendes
Pinto.
O pequeno excerto de gravação inserido no final do disco como faixa escondida, um minuto após
terminar o último tema, mostra o cantor a gaguejar (e a praguejar) nos ensaios de "Eis aqui o
agiota", por não acertar na métrica da canção. Uma forma, como qualquer outra, de desembaciar o espelho.
"uma geração ao espelho", texto de Nuno pacheco / Público, 28/11/2003
terça-feira, 7 de dezembro de 2010
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