"Nove e Meia no Maria Matos", o novo disco ao vivo de Sérgio Godinho & Os Assessores com lançamento marcado para dia 28 deste mês, reúne 18 temas de diferentes períodos da sua carreira, recuperando desde os inesquecíveis "A Democracia", "Liberdade", "O Primeiro Dia" ou "Com um Brilhozinho nos Olhos" até aos mais recentes "Às Vezes o Amor", "O Velho Samurai" ou "O Rei do Zum Zum". A música de Sérgio Godinho mantém o mesmo espírito lúdico e interventivo, muito particular. Aos 62 anos, o "escritor de canções" continua a sentir o prazer de jogar com as palavras e de reinterpretar temas que falam sobre paixões e inquietações, muitas das quais geradas dentro de um ambiente politico-social muito diferente do actual. "Penso que um dos motivos porque muita gente nova gosta das minhas canções é porque reencontram pontos afectivos dentro das histórias, dos conceitos, das interrogações, que se reportam à sua própria vida. Fazem soar uma pequena campainha de inquietação, de prazer... de revolta também", afirma.
Em contraponto com o ambiente artificial do estúdio, Sérgio Godinho continua a ter uma predilecção por discos ao vivo. O palco, diz, é "um exercício de risco calculado" onde "as canções estão em permanente transformação". Após a sua saída da EMI, dentro do contexto de reestruturação e de redução do seu catálogo nacional, "Nove e Meia no Maria Matos" assinala o regresso do músico à sua antiga editora, actual Universal. "É Tão Bom", o primeiro single deste novo disco, foi criado originalmente para a série infantil "Os Amigos de Gaspar", transmitida pela RTP nos anos oitenta.
Jorge Simão / Expresso
Sérgio Godinho lança este mês o álbum ao vivo "Nove e meia no Maria Matos", um "exercício de memória" da vida nos palcos, que assinala ainda a transferência do músico da EMI para a Universal.
"Nove e meia no Maria Matos", gravado numa série de espectáculos que decorreu em 2007 naquela sala lisboeta, é o quinto álbum ao vivo de Sérgio Godinho, sendo, por isso, mais um objecto de partilha com o seu público.
"É uma forma de não esquecer os concertos, é o testemunhar de um determinado momento da vida nos palcos que não esteve acessível a toda a gente", disse Sérgio Godinho em entrevista à agência Lusa. São 18 canções, seis delas retiradas de "Ligação Directa", o mais recente de originais, unidas por arranjos de Nuno Rafael, músico que acompanha Sérgio Godinho há cerca de sete anos. Aos temas mais recentes, Sérgio Godinho adicionou canções que nunca tinham tido muita vida de palco, como "Homem-Fantasma" ou "Dias úteis", e outras quase impossíveis de deixar de fora, como "O primeiro dia" e "Com um brilhozinho nos olhos", que têm mais de vinte anos. Para primeiro single deste álbum surge o inesperado "É tão bom", tema da série televisiva infantil dos anos 1980 "Os amigos de Gaspar", que Sérgio Godinho resolveu recentemente incluir no alinhamento ao vivo por "exigência" do público que tem hoje entre 30 e 35 anos. "Aconteceu várias vezes ao vivo pedirem-me para cantar o `É tão bom´ e cada vez que a cantamos há assim uma espécie de `bruá´, sobretudo de uma certa geração e talvez dos pais", conta Sérgio Godinho. São canções que criam empatias com os vários públicos que o têm acompanhado ao longo da carreira musical, desde os que guardam vinis antigos aos que o vêem no Youtube. "Eu olho-me ao espelho e sei que o tempo passa, mas eu transporto em mim diferentes idades da minha vida", diz.
"Nove e meia no Maria Matos" é também um disco de transição da EMI para a Universal, a casa discográfica à qual Sérgio Godinho regressa. A saída da EMI, em 2007, "foi precipitada por uma retracção do catálogo, de retracções brutais do mercado e de o centro de decisões ter sido deslocado", esclarece o cantautor. Apesar de o mesmo estar a acontecer na Universal, com a saída de Tozé Brito e as decisões a serem tomados a nível ibérico, Sérgio Godinho recorda que esta editora é uma casa que conhece muito bem, onde já esteve antes e editou dez discos. Transferências à parte, o músico tenta desligar-se do lado mais burocrático do sistema editorial, sublinhando que as suas "concentrações são mais criativas, de integridade criativa e de liberdade". Por isso é que, além da edição do álbum, Sérgio Godinho se prepara para regressar ao teatro e ser outra personagem - que não o Sérgio Godinho-cantor - numa peça de teatro de José Maria Vieira Mendes que Jorge Silva Melo vai estrear em Abril. "Já não fazia teatro há muito tempo, talvez desde o início dos anos 90, mas desta vez o Jorge Silva Melo queria muito que eu entrasse", assinala o músico, referindo que a peça se chama "Onde vamos morar" e que é uma "história de relações familiares". Sérgio Godinho entende que estes desvios do universo da composição musical são naturais e recorda as peças "A mandrágora", encenada por Ricardo Pais, e "Quem pode, pode", dirigida por João Canijo, como duas das participações que considerou estimulantes. "Tenho uma certa necessidade de me descentrar de mim próprio, de não estar sempre a olhar para o umbigo, de alimentar a carreira, tenho de ter outros focos de interesse", pondera. O músico revela o segredo: "Não podemos estar sempre a olhar para nós, senão o ego fica com algumas sujidades". A música portuguesa agradece.
Fonte: RTP com Agência Lusa
Sem comentários:
Enviar um comentário