terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Bocas do Inferno

Bocas do Inferno - Gaiteiros de Lisboa (Farol,)

- Toda a apresentação do disco e mesmo alguns títulos dos temas apontam para uma preocupação vossa em mostrar os instrumentos, alguns deles bastante estranhos, que utilizaram. É o lado didáctico dos Gaiteiros?

Carlos Guerreiro - A capa foi idealizada por mim. Lembro-me que, quando comecei a ouvir discos de música mais esquisita, como aquelas edições de Le Chant Du Monde, uma das coisas que me dava um gozo imenso era pegar na capa. Inclusivamente, foi a partir de algumas dessa capas que comecei a construir os meus primeiros instrumentos, como flautas de Pã, afinadas como lá vinha. É importante as pessoas perceberem o que é que está aproduzir determinado som. Se não, bastava põr a marca do sintetizador...

- Não são poucos os instrumentos que utilizaram...

José Manuel David - Vinte e cinco! A sala de ensaio é um bocado como um museu. Até com inStrumentos que nunca utilizámos.

- A escolha para cada tema deve ser difícil...

José Manuel David - Seria mais fácil se tivéssemos uma formação do tipo rock, com vocalista, guitarras, uns teclados, um baixo e uma bateria, cada um a tocar só aquilo.

Carlos Guerreiro - O que eu acho milagre é, por exemplo, os Rolling Stones conseguirem viver há 30 anos sempre a tocar os mesmos instrumentos! Mas isto também tem a ver com outra coisa. A música é um bicho que se pode agarrar por muitos sítios, pelos cornos, pelo rabo, pelas patas, pela pele, pelo lombo... A nossa atitude não tem nada a ver com a da maior parte dos outros músicos.

- Em "Bocas do Inferno" as gaitas-de-foles têm um papel mais discreto do que no álbum de estreia. Será que começa a fazer pouco sentido a designação do grupo?

Rui Vaz - Costumo dizer que nos chamamos Gaiteiros de Lisboa porque em Lisboa não há gaiteiros. Acontece uma coisa engraçada na Galiza. O nome "gaiteiro" desencadeia logo algo na Galiza que não tem nada a ver connosco. Isso tanto pode funcionar a nosso desfavor como a nosso favor. Mas há quem na Galiza já ouça a nossa música como ela deve ser ouvida, uma música de pessoas que naõ se preocupam muito com a afinação, mas sim em não tocar sempre a mesma "muineira".

- Já têm algumas indicações sobre as vendas de "Bocas do Inferno"?

Carlos Guerreiro - Já se venderam dois mil, ao fim de três semanas. As "Invasões Bárbaras" venderam cinco mil em dois anos...

- Depois da barbárie, o Inferno. Fizeram algum pacto com o Diabo?

José Manuel David - Talvez, metaforicamente. Para este disco, não. Mas para o próximo talvez venha a se chamado mesmo.

Carlos Guerreiro - Devíamos pedir um subsídio para o disco ser vendido juntamente com aquelas acendalhas para lareira, "Lúcifer"! [risos]

Entrevista de Fernando Magalhães / Público, 02/01/1998

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