A nível lírico este disco é diferente também dos anteriores, que exploravam conceitos.
É natural que seja mas não será assim tão linear. O "Homem Máquina" foi uma consequência do "Bestiário". É um ciclo – um círculo, até – que se fecha ali, independentemente de já estarmos a pensar no "Ódio". O novo disco foi-se fazendo, mas na base das canções que foram surgindo. Nos dois anteriores pensámos primeiro num título.
O "Bestiário" será à volta da relação Homem / Besta e suas criações, como figuras mitológicas e tudo o resto – no fundo são os bodes expiatórios que o Homem sempre arranjou para lhes imputar as nossas características mais negativas.
O "Homem Máquina" era um bocado sobre aquela mesma dualidade com mais uma das criações, mas desta vez uma criação mais recente e mais moderna, que são as máquinas. As máquinas, na maior parte dos filmes e nas criações de ficção científica, são malévolas e às vezes até lhes dão vontade própria, atribuindo-lhes sentimentos que são exclusivos do Homem.
Voltando ao "Ódio"... partiu daquele princípio: "Vamos juntar-nos, estamos cheios de vontade de fazer um disco e vamos fazendo músicas". Depois o tema acabou por ser um bocado recorrente. Não entrámos naquela questão panfletária porque os Bizarra nunca foram de querer pensar pelas outras pessoas, mas foi sobre aquilo que estamos a sentir, contar histórias – outras coisas não têm nada a ver com aquilo que estamos a sentir e são mesmo só contar histórias – e outras eram aqueles sentimentos sobre aquilo que está a acontecer na minha vida, neste caso, porque fui que escrevi as letras.
Neste disco tudo surgiu de uma forma mais fluida e menos pensada.
O título só surgiu com setenta ou oitenta por cento do disco feito. Quando fizemos o tema "Ódio" achámos que aquele tinha de ser o título, até porque reflectia um bocado a fase por que os Bizarra iam passar.
O ódio não era no sentido literal da palavra, era mais uma questão de estarmos a usar um sentimento considerado intenso e com algumas conotações até exageradas, que é um bocado como nós sentimos o que o "Ódio" é, como disco. Foi uma satisfação muito grande. As músicas iam surgindo e nós íamos adorando aquilo que estava a acontecer. Para além daquela questão do fantasma do Armando Teixeira, sentimos que estávamos a fazer um grande disco.
Entrevista de Ricardo Amorim/UWM, 11/10/2005
- "Homem Máquina” é um disco que volta a explorar o trabalho conceptual iniciado em 1998. Em que difere do “Bestiário”?
Este álbum, pode dizer-se, é uma continuação do “Bestiário”. Eles estão interligados pela besta-mor que nós reconhecíamos no “Bestiário” e que não é necessariamente o homem. Nós fazíamos analogias com bestas e referíamo-nos aos animais como tal quando eles não têm qualquer chance de se comportarem doutra forma. Mas nós, que temos alternativas, revelamos sempre essas facetas que vêm da mitologia, onde se falava de animais ou seres o mais temerários possível para descrever situações humanas ou facetas da humanidade. No “Homem Máquina”, é uma coisa mais actual – a tentativa do homem imputar culpas na máquina e ilibar-se, quando foi ele a criar a máquina. A máquina é totalmente inocente, não tem vontades.
- As letras são negras mas falam de anjos, da separação de amantes e de culpa. É possível falar de sentimentos através de máquinas?
Sim, a nossa música lida com sentimentos. É a tal questão do Homem Máquina e não da Máquina Homem. Não é mecanizar completamente. É colocar traços humanos nas máquinas e maquinais no homem. Não deixamos de ter sentimentos, até as próprias máquinas mais recentes mostram uma tendência humana para lidar com algumas situações. A separação de amantes poderá ser a separação do homem e da sua máquina. O amor não é só a questão sexual, é muito mais vasto que isso.
- Como pensam colocar no palco o novo disco?
Já fizemos alguns ensaios e temos alguns fatos. Na promoção do “Bestiário”, eu entrava debaixo de um casulo, entrávamos envoltos num plástico. E a besta ia saindo do casulo e cada vez tinha uma forma menos bestial e mais humana e, no final, era o homem. Para este, nós temos uns fatos de corpo inteiro que representam um homem-máquina. O tema ‘H.M.’, que encerra o disco, vai ser a introdução dos concertos todos e fazemos a ligação com a faixa de abertura. Podemos dizer que o disco defende a máquina e a actuação defende o homem. A nossa actuação é completamente orgânica.
Helder Gomes / Mondo Bizarre # 14
terça-feira, 7 de dezembro de 2010
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