Leitaria Garrett - Vitorino (EMI)
A – Aliás, os movimentos culturais e literários do século XX estão quase todos ligados aos cafés: o Gelo, a Brasileira…
V – Estão ligados aos cafés, porque não tinham outro sítio para ir, não podiam fazê-lo em teatros ou em centros culturais. Por exemplo, a Escola de Belas-Artes não tinha associação de estudantes. Havia uma pró-associação, que se reunia noutras faculdades ou então na Leitaria Garrett.
A – Que tu homenageaste num disco…
V – Sim, porque entretanto fecharam-na. Essas leitarias duraram muito tempo em Portugal, felizmente, porque eram lugares muito baratos e onde se fiava. Fiar é sintoma de grande pobreza, mas, ao mesmo tempo também, de grande solidariedade. O Sr. Castanheira, na Leitaria Garrett, tinha um livro de assentos onde muitos alunos da Escola só pagavam ao fim do mês, quando recebiam algum dinheiro da família. Nós éramos muito novos, mas tínhamos um sentido de observação e alguma facilidade para nos integrarmos em grupos de velhos boémios e intelectuais que paravam ali pela Brasileira e pelas livrarias, que também eram pontos de reunião. Havia ali pintores, músicos, o São Carlos ainda funcionava muito bem, e o Chiado era um centro de vida muito activo. Isso fortaleceu muito o meu conhecimento com algumas pessoas, poetas, pintores… Tive essa sorte, e tinha alguma disponibilidade e alguma energia. Durante muitos anos, quase não dormi. Agora ando a dormir tudo o que não dormi, estou a pagar as favas…
eNTREVISTA DE Viriato teles/Spautores
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