Leva-me Aos Fados - Ana Moura (Universal, 2009)
- O que é que Leva-me aos Fados tem que os outros discos seus não tinham?
Essencialmente, tem maturidade. Essa ideia passa mesmo pela foto da capa, em que estou a olhar de frente, olhos nos olhos. Já consigo encarar a câmara de frente. A maturidade é a principal diferença. Depois, tem algumas diferenças em termos musicais, como o facto de usar duas guitarras portuguesas, além da participação de compositores que eu nunca tinha cantado.
Jorge Manuel Lopes / Time Out, 20/10/2009
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terça-feira, 7 de dezembro de 2010
sexta-feira, 23 de abril de 2010
Nothing’s Ever Good Enough

Nothing’s Ever Good Enough - Electric Wiilow (Honeysound, 2008)
- Qual é a história de Nothing’s Ever Good Enough?
Se olharmos para a parte estética da capa acho que se consegue captar uma vibração positiva. Embora o título possa parecer paradoxal em relação à capa, acaba por ter o efeito que pretendíamos. Por um lado, podemos ver que nada é suficiente pelo lado negativo ou, por outro lado, ainda bem que nada é suficiente. Por isso é que andamos por aqui…
- O título do álbum, Nothing’s Ever Good Enough, remete-nos para alguma tristeza e desilusão. Mas nas duas canções em que aparece tem um efeito contrário. O que pretendem transmitir?
Este efeito foi propositado e conseguido. Não queríamos dar uma mensagem singular. Mas não quero revelar mais nada… É um puzzle que cada um deve construir à sua maneira. Muitas vezes nem eu sei porque é que escrevi aquilo em determinada canção.
- Há uma qualquer insatisfação e melancolia que percorre o disco. Nothing’s Ever Good Enough é um álbum optimista ou pessimista?
Mais uma vez não vou dizer o que é para mim. Não quero roubar o espaço de manobra aos ouvintes. Deixo o convite às pessoas para descobrirem.
Entrevista de Eduarda Sousa, 23/04/2008
sexta-feira, 16 de abril de 2010
Mátria
Mátria - Paulo de Carvalho (Universal, 1999)«É sempre arriscado fazer um espectáculo com canções que as pessoas não conhecem.» Mas, na realidade, «Mátria» é uma aventura que já tem quatro anos. Em 1997, com outro título, esteve prestes a ser publicado por uma pequena editora independente. A ideia era a mesma, eram as mesmas canções com as mesmas letras que requereu a diversas mulheres do nosso meio - Maria Barroso, Né Ladeiras, Simone de Oliveira, Dulce Pontes, Mafalda Veiga, Isabel Ruth, que ele «nem conhecia», Maria Rosa Colaço, «com a qual andava à espera de trabalhar há 30 anos».
Falou com elas, convenceu-as, em certos casos insistiu face à demora. Algumas enviaram-lhe poemas, uma ou outra remeteram textos, «por vezes com três ou quatro páginas»; em quase todos os casos passou depois tempo a retalhar e recombinar as palavras, sumariou as ideias, elaborou manobras que todas as autoras acabaram por aprovar. Começou a compor com a ajuda da guitarra, que toca mal, e com a voz, que é o seu instrumento, antes de haver uma banda.
A intenção era que tudo resultasse, como agora, num amplo fresco da sentimentalidade lusófona, descrita no feminino e interpretada no masculino, de acordo com uma linha que ele incansavelmente define como «etno-urbana», uma estilização meio rural, meio cosmopolita.
Porém, nessa primeira fase acabou por descobrir que o projecto não tinha o som que queria. «O que eu queria, já na altura, era poder trabalhar sobre uma base de rítmica electrónica e depois acrescentar-lhe outros instrumentos», mas os resultados que então conseguiu ficaram muito aquém das expectativas que criara. Por isso, hoje em dia não consegue disfarçar que se sente «muito orgulhoso por ter resolvido deitar o álbum todo para o caixote do lixo» e recomeçá-lo depois a partir do zero, desta vez na companhia do engenheiro Fernando Abrantes e com a ajuda de Ivan Lins, o amigo brasileiro surge creditado como produtor, mas que também interpretou em dueto com Paulo as duas versões alternativas de «Mulher É Vida» e «O Fado» publicadas no final do disco.
(...)
Falou com elas, convenceu-as, em certos casos insistiu face à demora. Algumas enviaram-lhe poemas, uma ou outra remeteram textos, «por vezes com três ou quatro páginas»; em quase todos os casos passou depois tempo a retalhar e recombinar as palavras, sumariou as ideias, elaborou manobras que todas as autoras acabaram por aprovar. Começou a compor com a ajuda da guitarra, que toca mal, e com a voz, que é o seu instrumento, antes de haver uma banda.
A intenção era que tudo resultasse, como agora, num amplo fresco da sentimentalidade lusófona, descrita no feminino e interpretada no masculino, de acordo com uma linha que ele incansavelmente define como «etno-urbana», uma estilização meio rural, meio cosmopolita.
Porém, nessa primeira fase acabou por descobrir que o projecto não tinha o som que queria. «O que eu queria, já na altura, era poder trabalhar sobre uma base de rítmica electrónica e depois acrescentar-lhe outros instrumentos», mas os resultados que então conseguiu ficaram muito aquém das expectativas que criara. Por isso, hoje em dia não consegue disfarçar que se sente «muito orgulhoso por ter resolvido deitar o álbum todo para o caixote do lixo» e recomeçá-lo depois a partir do zero, desta vez na companhia do engenheiro Fernando Abrantes e com a ajuda de Ivan Lins, o amigo brasileiro surge creditado como produtor, mas que também interpretou em dueto com Paulo as duas versões alternativas de «Mulher É Vida» e «O Fado» publicadas no final do disco.
(...)
Surpreende o público quando interrompe a função para apresentar a equipa técnica e a jovem Susana Lemos, a artista plástica que ilustrou o disco - há serigrafias em exposição no átrio do casino e hão-de acompanhar quase sempre o espectáculo, quando ele avançar decididamente para a estrada no próximo ano.
Texto de Jorge P. Pires / Expresso, 25/09/1999
Texto de Jorge P. Pires / Expresso, 25/09/1999
Mais tarde, também em 99, e por um acaso feliz, [Susana Lemos] fez a capa do CD "Mátria", de Paulo de Carvalho. "A concepção gráfica e plástica foi toda minha e deixou-me feliz". O tal acaso feliz que a ligou a Paulo de Carvalho conta-se em duas palavras: o Paulo tinha um contrato com o Casino Estoril; a Susana tinha trabalhos seus no Salão Primavera daquele Casino, integrados numa exposição colectiva dos finalistas das Belas Artes de Lisboa e Porto; o Paulo viu a exposição, gostou dos seus trabalhos, pediu o seu contacto e depois de conversarem convidou-a para fazer o capa do disco que tinha em preparação. Tão simples como isso...
quarta-feira, 14 de abril de 2010
Paz
Paz - Eugénia MC (Som Livre, 2002)«Paz» não tem nada a ver com um sentimento oposto à guerra. «Também não tem a ver com paz de espírito ou maturidade. Tem a ver com emoções, um estado superior de existência. Energia, conhecimento e vida. Uma vida acima dos valores materiais. Tem a ver com o que está ainda por vir. Algo posterior, estimulante e sobrevivente aos pequenos apocalipses que vão acontecendo na actualidade e que têm aumentado de forma gradual nos últimos anos», refere Eugénia.
entrevista de Filipe Rodrigues da Silva / Diário Digital
- Porque é que chamou «Paz» a este disco?
Para onde caminha a humanidade? Isto é o caos total. Nós vivemos mini-apocalipses. Essa história do ano 2000, do apocalipse... Qual apocalipse? O século XX foi o século dos mini-apocalipses constantes, permanentes. A cada segundo morrem crianças com fome, gente morre em guerras, acidentes naturais... estamos a matar o planeta. Isto não é um apocalipse? Esta paz de que falo é uma paz de esperança num futuro longínquo, porque acredito que a humanidade cresça na inteligência.
Aquele desenho da Fernanda Fragateiro na capa do disco, com aquele bonequinho triste, e depois a minha fotografia já a olhar para cima representam o real e o irreal, a tristeza e a alegria, os dois pólos que, na minha opinião, deveriam ser os motores da vida. A tristeza e a alegria, e não a fome e o excesso, por exemplo. Porque há uma tristeza criativa, quando se trata de uma dor interna de questionamento e não de uma dor que venha de flagelos sociais.Entrevista de Jorge Lima Alves / Expresso, 2003
quinta-feira, 8 de abril de 2010
Tree Of Life

Tree Of Life - José Castro (Sargaçal/Musiactiva, 2005)
"Tree of Life" é um álbum estranho que tanto inclui pop electrónica como temas épicos à Peter Gabriel, guitarra portuguesa e acordeão, música brasileira, cabo-verdiana e, eventualmente, mensagens ecologistas. Estranho mesmo, mas um pouco menos quando se ouvem as explicações de José Castro.
Numa das canções de "Tree of Life", "Melting Man", José Castro canta sobre um «homem que derrete antes de ficar árvore», conceito que é desenvolvido visualmente nas fotografias do disco. E é essa «fusão» que assombra todo o álbum: homem/natureza, magia/realidade, músicas de agora/sonoridades ancestrais. "Tree of Life" é um disco conceitual - o primeiro de uma trilogia -, onde poderiam constar os nomes de Peter Gabriel, Brian Eno e David Byrne. Mas não; consta lá o de José Castro, cantor e compositor português que reconhece a sua admiração por esses nomes, «pelo rock progressivo, pela música ambiental» e por músicas étnicas.
Mas as suas raízes, curiosamente, estão em áreas bastante distantes: «na adolescência fiz parte de bandas de hardcore e de death-metal, sempre a tocar bateria. Depois passei para a guitarra. E foi há quatro, cinco anos, que comecei a desenvolver este projecto a solo». Um projecto cujo conceito foi sendo desenvolvido ao longo dos anos e que teve como molas fundamentais alguns momentos da vida de José Castro: «Fiz um filme, na sequência de um curso de vídeo, chamado "A Porta do Bosque", baseado em textos de Jorge Guimarães. Era um diálogo de uma árvore com o Homem e as suas diferenças. E, depois, em Londres, fui jardineiro de profissão». Essa ligação temática da sua obra às árvores pode fazer pensar em ideais ecologistas mas José Castro diz que «isto não é uma coisa ecológica, embora tenha essa vertente. A ideia é o Homem "estar parado" - como as árvores - mas nem é tanto parar para pensar, é mais parar para sentir». Musicalmente, José Castro diz que «tudo pode entrar na minha música, desde que faça sentido e seja verdadeiro. A música começa com uma raiz e desenvolve-se a partir daí. No tema "Mocambo", que tem a ver com a Madragoa, faz sentido que haja ali uma guitarra portuguesa».
No álbum, José Castro toca muitos instrumentos (de guitarra a percussões passando por tubos PVC, banjo indiano, bandolim, baixo, flautas...) e participam - entre outros - o acordeonista Gabriel Gomes (Sétima Legião/Madredeus/Tjak...) e Bernardo Couto em guitarra portuguesa. Ao vivo, José Castro é acompanhado por uma banda de amigos - «com os quais aprendo imenso; eles são todos melhores músicos do que eu» - formada por Bernardo Barata (guitarra), com quem José Castro já tinha tocado «nas tais bandas de hardcore», músicos dos TV Rural e dos Oioai e «uma pianista de formação clássica nos teclados», Joana Vaz. As sementes estão lançadas.
Texto e entrevista de António Pires/Blitz, Fevereiro de 2005
terça-feira, 6 de abril de 2010
Ser Solidário
Ser Solidário - José Mário Branco (Edisom, 1982) “Ser Solidário”/”Ser Solitário”. A alternância do “d” e do “t” não é original. José Mário Branco inspirou-se num conto do romancista existencialista francês Albert Camus “sobre o absurdo”. “É o percurso interior de um pintor que, à medida que avança na concepção e na depuração ético-estética da sua arte, se vai deixando tomar por um processo de esquizofrenia e isolar do mundo, da família, de todos. Até que fica isolado no sótão da casa, com as suas tintas e as suas telas, e já não sai de lá, nunca mais. Depois de muito tempo sem saberem dele, alguém resolve entrar naquele sótão e encontra-o já morto. No cavalete, está uma tela toda pintada de branco com uma assinatura que não é uma assinatura mas uma palavra, ‘solitaire’ ou ‘solidaire’, não se percebe se é um ‘t’ ou um ‘d’.” A capa de “Ser Solidário” é negra.
Entrevista de Fernando Magalhães / Público, 14/02/1996
terça-feira, 30 de março de 2010
Ligação Directa
Ligação Directa - Sérgio Godinho (EMI, 2006)P - Antes de ir mais longe: o título, Ligação Directa, significa o quê?
- Fui tirar fotografias com o Daniel Blaufuks e ele queria também fotografias de noite. Há uma garagem onde eu guardo o carro e, entre outras, aí tirámos algumas que acabaram por ir parar à capa e ao "booklet" do disco. Quando olhei para as fotografias, aquilo foi assim uma iluminação (com pouca luz...). Eu tenho uma grande dificuldade com títulos, muitas vezes são excrescências... alguma coisa que defina minimamente mas que não defina nada, às vezes, no limite pode ser um "soundbyte", mas tem de fazer sentido. Estava ali no meio dos carros e pensei nessa ideia da "ligação directa". Mas, como é evidente, é uma metáfora que extravasa e que pode ser ligação directa à vida, aos amores, aos públicos, aos meus músicos, ou fazer uma "ligação em directo" para... Estocolmo... e é aquilo também que as pessoas quiserem quando ouvirem. É suficientemente aberto para isso.
Entrevista de João Lisboa / Expresso, 2006
Entrevista de João Lisboa / Expresso, 2006

Existe um autocalante com a identificação do disco e do cantor.
sexta-feira, 19 de março de 2010
Heróis do Mar

Heróis do Mar - Heróis do Mar (EMI, 1988)
«Não encontrámos nenhum título que nos satisfazesse e qualquer outro nome só iria parecer artificial. plástico.» Carlos Maria Trindade em entrevista a Maria João Lourenço / TV Guia - Agosto/1988
Da superficie branca da capa oito olhos nos espreitam, quatro bocas nos sugerem um som por descobrir. Do outro lado, na contracapa do último LP dos Heróis do Mar, são quatro os ouvidos que se perfilam perante o nosso olhar; um pouco mais abaixo, duas pernas traçam o quatro, símbolo da estabilidade e do equilibrio, aqui tomado à letra como simples sinal numérico a sublinhar o quarto álbum dos Heróis. Um belíssimo trabalho gráfico de Rui Pregal da Cunha e Fátima Rolo Duarte para assinalar o regresso do grupo ao fatal vinil. (MJL)
Nota: o disco também é conhecido por "4" para distinguir do álbum de estreia do grupo.
«Não encontrámos nenhum título que nos satisfazesse e qualquer outro nome só iria parecer artificial. plástico.» Carlos Maria Trindade em entrevista a Maria João Lourenço / TV Guia - Agosto/1988
Da superficie branca da capa oito olhos nos espreitam, quatro bocas nos sugerem um som por descobrir. Do outro lado, na contracapa do último LP dos Heróis do Mar, são quatro os ouvidos que se perfilam perante o nosso olhar; um pouco mais abaixo, duas pernas traçam o quatro, símbolo da estabilidade e do equilibrio, aqui tomado à letra como simples sinal numérico a sublinhar o quarto álbum dos Heróis. Um belíssimo trabalho gráfico de Rui Pregal da Cunha e Fátima Rolo Duarte para assinalar o regresso do grupo ao fatal vinil. (MJL)
Nota: o disco também é conhecido por "4" para distinguir do álbum de estreia do grupo.quinta-feira, 18 de março de 2010
Crua
Crua - Aldina Duarte (EMI, 2006) - Talvez já tenha respondido a esta pergunta vezes demais do que aquilo que deseja, mas… porquê "Crua"?
Também foi uma ideia de David Ferreira, a ideia do CD é Verdade Nua e Crua, mas como título era inadequado, portanto o David achou que a imagem gráfica e fotográfica do CD devia passar pelo preto e branco e eu deveria ser fotografada sem quaisquer acessórios para sugerir a nudez… "Crua" porque é sem artifícios e há uma linguagem muito directa na abordagem de temas como o prazer e a solidão, por exemplo.
Entrevista de André Gomes/Bodyspace, 24/07/2006
terça-feira, 16 de março de 2010
The Night Before And A New Day
The Night Before And A New Day - Blind Zero (Universal, 2005)- A capa do disco apresenta-nos uma carocha a cair dento de água... tem algo a ver com a vossa "vivência" anterior?
De certa forma, porque há sempre um cuidado estético em tudo o que fazemos. Houve uma preocupação em deixar transparecer na capa do disco aquela ideia ciclica que tens no disco. Pode-se ver pelas letras que há uma mudança, uma passagem. Depois da noite vem o dia, depois do dia vem a noite. E também se pode sentir essa passagem através da capa, com as diferentes fases da queda do insecto. O próprio nome do disco está partido em dois, tal como a capa. há elementos graficos, como código de barras e o nome da editora, que são elementos que saltam de capa para capa. Criámos essa ideia quase para confundir e obrigar as pessoas a virar o cd. É para tornar as coisas mais interessantes, para que a capa tenha um conceito estético. Tal como fazermos com os videos, damos liberdade artística total. Chamamos as pessoas que achamos que têm competência para fazer esse tipo de trabalho e explicamos o que pretendemos.
Entrevista de Laura Alves / Forum estudante Agosto /2005
segunda-feira, 15 de março de 2010
Cintura

Cintura - Clã (EMI, 2008)
O facto de terem escolhido o nome Cintura é um convite declarado para as pessoas mexerem essa parte do corpo?
Manuela Azevedo (Risos) Muito sinceramente, a escolha do nome tem a ver com o facto de gostarmos muito da palavra, por si só, de uma forma abstracta. É bonita graficamente e sonoramente também. Depois, pelo facto de a palavra estar ligada a um disco que é muito baseado na secção rítmica e que apela à dança e ao movimento, achámos que era a ideal para dar ao álbum.
O Cintura é muito diferente do antecessor Rosa Carne.
MA Em termos musicais sim, mas em termos líricos não me parece tanto...
É antes uma espécie de continuidade?
MA Completamente. Não só porque o disco continua a ser habitado por mulheres (o que também era uma característica do disco anterior), mas também pelo facto de passarmos pelos mesmos escritores.
Nos vossos discos há sempre um grande investimento na imagem. Desta vez a coisa também não é diferente...
MA Para nós, foi sempre importante investir, não bem na imagem, mas em tudo o que está à volta do nosso trabalho (as capas dos discos, os cartazes dos concertos, a maneira como subimos ao palco, a roupa que vestimos durante o espectáculo). Acho que neste disco conseguimos melhor es resultados até, porque à medida que o tempo foi passando temos conseguido conquistar colaboradores nessa área da imagem.
HG Eu diria que a capa de um disco dá muitos sinais. A ideia é passar algumas coisas que estão lá dentro e outras que não estão e acabas por descobrir na capa.
Entrevista de Edgar Amaral, Mundo Universitário, 8/10/2007
http://www.mundouniversitario.pt/docs/1448/_MU80.pdf
O facto de terem escolhido o nome Cintura é um convite declarado para as pessoas mexerem essa parte do corpo?
Manuela Azevedo (Risos) Muito sinceramente, a escolha do nome tem a ver com o facto de gostarmos muito da palavra, por si só, de uma forma abstracta. É bonita graficamente e sonoramente também. Depois, pelo facto de a palavra estar ligada a um disco que é muito baseado na secção rítmica e que apela à dança e ao movimento, achámos que era a ideal para dar ao álbum.
O Cintura é muito diferente do antecessor Rosa Carne.
MA Em termos musicais sim, mas em termos líricos não me parece tanto...
É antes uma espécie de continuidade?
MA Completamente. Não só porque o disco continua a ser habitado por mulheres (o que também era uma característica do disco anterior), mas também pelo facto de passarmos pelos mesmos escritores.
Nos vossos discos há sempre um grande investimento na imagem. Desta vez a coisa também não é diferente...
MA Para nós, foi sempre importante investir, não bem na imagem, mas em tudo o que está à volta do nosso trabalho (as capas dos discos, os cartazes dos concertos, a maneira como subimos ao palco, a roupa que vestimos durante o espectáculo). Acho que neste disco conseguimos melhor es resultados até, porque à medida que o tempo foi passando temos conseguido conquistar colaboradores nessa área da imagem.
HG Eu diria que a capa de um disco dá muitos sinais. A ideia é passar algumas coisas que estão lá dentro e outras que não estão e acabas por descobrir na capa.
Entrevista de Edgar Amaral, Mundo Universitário, 8/10/2007
http://www.mundouniversitario.pt/docs/1448/_MU80.pdf
- Por que escolheram "Cintura" para nome do álbum?
MA: Francamente, porque a palavra nos pareceu muito bonita. Nós tínhamos, para este disco, várias hipóteses, o que é uma coisa rara. Esta palavra acabou por se impor sub-repticiamente nas votações que fomos fazendo, muito porque suava bem e porque graficamente era muito bonita. Uma coisa elegante e ao mesmo tempo enigmática, antiga, abstracta. Depois tinha ligações com algumas ideias fortes do disco, com a ideia de viagem de movimento. A cintura é o diâmetro que nos aguenta em pé enquanto nos mexemos, e o jogo de cintura mantém-nos equilibrados nas coisas que a vida nos traz: em todas as partidas e chegadas. Esta dança toda está à volta da cintura.
- O facto de terem apostado num álbum mais pop, mais dançável, está de alguma forma relacionado com o nome?
MA: Sim, essa dimensão mais física, mais sensual, mais dos sentidos é uma dimensão que nós quisemos potenciar em tudo, não só no título do disco, mas também na maneira como fomos trabalhando as fotografias, o grafismo, o guarda-roupa. Tudo aponta para esse aspecto mais festivo de nos sentirmos vivos e do espírito de aventura e de conquista.
Entrevista de ComUM - Jornal dos alunos de Ciências da Comunicação da Universidade do Minho
quinta-feira, 11 de março de 2010
Kom-Tratake

Kom-Tratake - Lideres da Nova Mensagem (Vidisco, 1997)
Na capa de Kom-Tratake, uma ampulheta escorre um mundo em areia. Pio MC, dos Lideres da Nova Mensagem, diz que essa ampulheta encerra o nosso futuro: "Nós estamos no final do século e vê-se tanta podridão que é inevitável a sensação de que algo vai ter que mudar. foi o que tentamos exprimir na capa e no título, o Kom-tratake é dirigido a esse negativismo global.
Texto e entrevista de Carlos Mota / Sons - Público, 04/06/1997
Na capa de Kom-Tratake, uma ampulheta escorre um mundo em areia. Pio MC, dos Lideres da Nova Mensagem, diz que essa ampulheta encerra o nosso futuro: "Nós estamos no final do século e vê-se tanta podridão que é inevitável a sensação de que algo vai ter que mudar. foi o que tentamos exprimir na capa e no título, o Kom-tratake é dirigido a esse negativismo global.
Texto e entrevista de Carlos Mota / Sons - Público, 04/06/1997
A capa é da Mediacaos e os desenhos são do baixista Pedro Manaças. Em 1998 vendeu o baixo e deixou a música.
Outras imagens do disco em http://www.hugovcosta.com/lnm-hip-hop/fotos/
quarta-feira, 10 de março de 2010
Miradouro
Miradouro - Júlio Pereira (Transmédia, 1987)Júlio Pereira imagina um mapa quando decide fazer este disco.
Inspirado por alguns elementos etno-musicais de cada uma das regiões de Portugal, compôe nove temas reunidos sob o título Miradouro.
Para tal, convida Henrique Cayatte para fazer as ilustrações, com base na documentação seleccionada por Hipólito Clemente [baseado no livro de Ernesto Veiga de Oliveira: "Instrumentos Musicais Populares Portugueses".].
O trabalho recebe posteriormente o disco de ouro; o mapa é solicitado por diversas escolas do País e, por este motivo, Júlio Pereira decide torná-lo disponível na Internet.
Nessa altura, lembrei-me de fazer um disco onde cada um dos temas fosse baseado nos elementos etno-musicais de cada uma das nossas regiões». Rapidamente lhe veio a ideia de ilustrar o projecto com um mapa, mostrando os instrumentos de cada uma das regiões.
Juntamente com o então director da Livraria Opinião, Hipólito Clemente, o designer gráfico Henrique Cayatte e o produtor musical Alberto Lopes, passou aos factos. E assim surgiu um mapa em papel, de 100X70cm, que acompanhou a edição do disco, ainda em vinil, com uma capa com recortes que permitiam vê-lo.
O objectivo do mapa «não é de todo fazer uma coisa altamente aprofundada, para especialistas, sobre etno-musicologia», sublinha Júlio Pereira. «O objectivo é exactamente o contrário». Pretende «satisfazer a curiosidade» das pessoas, apostando no conceito ‘sabia que…’. «Com rigor, mas de uma maneira acessível» a qualquer um, diz.
http://www.instituto-camoes.pt/encarte-jl/mapa-etno-musical-de-portugal-no-cvc.html
imagem:http://rateyourmusic.com/release/album/julio_pereira/miradouro/
segunda-feira, 1 de março de 2010
Enter
Enter - Hipnótica (Nortesul, 1999)- Como é que surgiu a colaboração com o Luís Caldeira [responsável pela excelente produção de "Enter"]?
O Luís é um amigo nosso de há alguns anos. Há cerca de oito anos que o conhecemos. Na altura em que o projecto se estava a iniciar, também ele se estava a iniciar. Tinha acabado de voltar dos EUA, onde fez um curso de engenheiro de som, tendo começado a trabalhar para a Valentim de Carvalho. Desde essa altura que ele vem acompanhando o projecto, as ideias, a intimidade, a química e os caminhos e eu acho que esse envolvimento foi fundamental para o resultado final. Acho que se fosse com outra pessoa, quer portuguesa, quer estrangeira, era impossível atingir o mesmo nível de cumplicidade. Não digo que o disco seria melhor ou pior com outra pessoa, mas não seria igual. E não imagino sequer outra pessoa neste momento. Logo desde cedo estava estabelecido que o Luís era a pessoa. Foi ele também que nos produziu o nosso EP. Na nossa cabeça era algo que estava já planeado. E o mesmo aconteceu com os gráficos, os Barbara Says, com os quais a relação é muito semelhante. Os Barbara Says acompanhavam-nos já desde antes do início do projecto. É uma relação muito particular, em que o grafismo estimula a nossa própria música, como quando eles aparecem com cartazes, flyers, etc., ou então o contrário, em que eles reagem às nossa músicas novas. E então há ali uma efervescência que é difícil de acontecer. No fundo, temos sorte. Conseguimos juntar todas estas vertentes complementares com pessoas com as quais nos identificamos.
- Como surgiu esta ligação com a arquitectura, já patente na imagem dos Hipnótica desde o EP?
Surgiu das inúmeras conversas com os Barbara Says. Aí, mais uma vez, é a música a estimular a parte gráfica. O título "Buildings Above Them", que era para ter sido o título do EP, foi, se calhar, um dos títulos que marcaram os Barbara Says e todo um caminho gráfico, tem um forte impacto visual. A partir daí foi jogar com isso. E depois foi o grafismo a estimular a música. As estruturas dos prédios fizeram-nos lembrar ligações e estruturas invisíveis que aparentemente não estão lá, mas que são a sustentação disto tudo. Eles [Barbara Says] alimentaram-nos esse conceito das ligações invisíveis, que é uma ideia que nós aproveitámos para o disco, e temas como, por exemplo, "Islands... Connect", em que nós vemos as pessoas como ilhas, um pouco perdidas na cidade, havendo aquela necessidade de ligação, como se fosse uma rede virtual. É um bom exemplo de como essa troca criativa que de outra forma não aconteceria. Se estivessemos a trabalhar com gráficos que nem sequer nos conhecessem é óbvio que não alcançaríamos este nível de cumplicidade.
Entrevista de Vitor Junqueira / Musicnet, Dezembro de 1999
O primeiro álbum chama-se "Enter" porque deve ser entendido como uma viagem ao universo dos Hipnótica.
quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010
Le Jeu

Le Jeu - Balla (Music Mob, 2003)
- O segundo registo dos Balla, “Le jeu”, apresenta-se com novas influências e perspectivas. Como se deu esta evolução?
As coisas vão acontecendo naturalmente. Para fazer um disco preciso de encontar motivação e isso faz parte do processo natural da criação. O que ouves no “Le jeu” era uma ideia já tinha há algum tempo embora nunca a tivesse concretizado. Achei que agora seria o momento certo.
- Passados dez anos ligado à música nos mais variados projectos, em grupo ou individualmente, a verdade é que continuas um pouco à margem, na cena alternativa, e acabas por não chegar à linha da frente... ou não te deixas levar?
(risos) Pois, mas isso de não estar na linha da frente pode não ser necessariamente mau. Se calhar não é bem isso que eu quero. Fico satisfeito se a minha música cheguar às pessoas que gostam deste tipo de música. Por norma, não me costumo queixar em relação a nada. Quero continuar a ter inspiração para fazer música. Não gosto de me sentir pressionado, por exemplo, para ter um single que passe nas rádios. No “Le jeu” procurei eliminar todos os possíveis singles porque sou contra esses formatos. Se calhar até tinha essas canções, se calhar até caí nessa sonoridade obvia para single, mas foi precisamente esse tipo de temas que eu evitei.
- A capa do álbum é no mínimo curiosa. Há dois anos o Nathaniel Merriweather, mais conhecido por Dan the Automator (produtor dos Gorillaz), editou um álbum em que a capa era muito parecida. Porquê? Para caricaturar a capa do álbum do francês Serge Gainsbourg. É uma trilogia de imagens ou também há influências sonoras?
Bem, em relação à capa a ideia foi criar uma espécie de capa standard. O remake do original foi feito primeiro pelo Dan the Automator e agora por nós. Ao criarmos essa tal capa standard, se é que isto é possível, a ideia é levar as pessoas a identificarem o ambiente que nós quisemos incluir nos discos. No caso do “Le jeu”, a capa só surgiu depois do álbum mas encaixou bem com o que a música sugere. Mas em termos musicais não são necessariamente as mesmas inspirações. Do Dan the Automator inspira-me a vertente de produtor e a maneira como trabalha tecnicamente. Já em relação ao Serge Gainsbourg, e apesar de ele ser a imagem do ambiente que quis recriar, ele não é necessariamente a minha maior inflência como compositor.
- Então foi mais pela imagem?
Muitas vezes uma capa de um disco inspira-me mais que propriamente a música que lá está dentro.
- Qual é a interpretação que fazes destas capas?
Para mim, a capa original do Serge Gainsbourg é o espelho do que é a música. Já o Dan the Automator fez isto nitidamente para gozar. A minha capa foi intencional e acho que se identifica muito com o disco.
- Convidaste a Sylvie C. para interpretar alguns dos temas. A escolha de uma vocalista francesa foi propositada?
Tive sempre a vontade de fazer um álbum com estas características mas, para isso, precisava de uma cantora francesa porque é esta a língua que me inspira neste momento. Embora a Sylvie C. estivesse num projecto que não tem muito a ver com o que ela faz aqui, ela percebeu rapidamente qual o ambiente que eu queria neste disco e começamos a trabalhar. A ideia era, antes de mais nada, servir as cançoes que já existiam enquadrando a voz sem contrariar o ambiente idealizado.
Entrevista de Joana Brandão / PJ, 14/06/2003
- Uma das principais diferenças entre este álbum e o anterior é a sua consistência, ao nível dos ambientes e de um certo imaginário ancorado na música francesa e nas bandas sonoras para filmes. Essa unidade foi procurada?
Pelo facto de o outro ter sido lançado por uma editora maior [NorteSul], existiu da minha parte uma certa tentação de criar um ou outro tema com características de "single". No novo álbum não tive essas preocupações. Pelo contrário, os temas que poderiam constituir potenciais "singles" foram deixados de lado porque prejudicavam a coerência que pretendia atribuir ao disco. Nesse sentido, houve uma preocupação em desenvolver os temas que faziam sentido em termos de conjunto.
- O disco anterior era mais pessoal. De alguma forma, havia uma maior exposição - inclusive dedicava-o à sua mãe. Em "Le Jeu" parece assumir um maior artifício ou uma costela ficcional.
Todos os discos que faço são dedicados à minha mãe... Mas este álbum não é tão pessoal. É um disco onde criei personagens. Por outro lado, o facto de a Sylvie ter criado as suas próprias histórias e de ter interpretado os temas à sua maneira - de forma diversa da minha - transformou-o num objecto diferente do anterior. Menos centrado em mim. É um disco onde existe uma aposta mais deliberada no lado estético e, nesse sentido, não reflecte o meu mundo interior de forma tão directa. Mas não é um disco "falso" ou menos sentido - até pelo facto de conter pontos em comum com anteriores projectos meus. Acredito plenamente nele.
- Como se conheceram e qual foi a importância da Sylvie C. no processo de criação do álbum?
Vi-a num espectáculo do seu projecto, Cabaret LX, onde ela utilizava muitas referências ao "swing" francês e onde cantava temas da Edith Piaf. A maneira dela cantar nesse contexto é muito diferente daquela que se pode ouvir no disco, mas o facto de ter imaginado uma voz feminina francesa para os temas que andava a criar - inspirado pelos duetos das bandas sonoras eróticas dos anos 70 - fez-me acreditar que a Sylvie poderia ser essa pessoa. Quando começámos a trabalhar ela teve alguma dificuldade em entrar nos temas. Achava-os superficiais em comparação com uma certa teatralidade a que estava habituada, mas depois de lhe ter dado a ouvir discos dos Boris Ex-Machina de 1996 ela percebeu que essa teatralidade já tinha sido explorada anteriormente. Agora, procurava outra coisa e ela conseguiu chegar lá.
- Como funcionaram os dois em termos de dinâmica de trabalho? Tinha as ideias, desenvolvi-as e tentava transmiti-las?
Fazia as músicas, colocava as minhas partes de voz e, ela, em momentos de improviso ou depois de falarmos um pouco, cantava por cima. O primeiro tema que completámos, "A meu favor", foi construído de forma espontânea com ela a improvisar. Colou a sua voz à minha como sentia naquele momento, sem nenhuma direcção. Na maior parte dos casos, criava a estrutura sonora, dava-lhe e ela desenvolvia a sua parte.
- Existiram algumas resistências em relação ao primeiro álbum de Balla provocadas pela sua voz. Neste disco surge diferente, com uma voz mais ajustada. Teve alguma preocupação especial com esse aspecto?
É difícil encarar esse assunto de forma despreocupada quando se teve tantas críticas, não é? Desta feita, não usei a voz para "dizer" texto. Fiz apenas aquilo que sentia que devia fazer e fui mais intuitivo. Insisto em cantar porque nem sempre é fácil transmitir as ideias a outra pessoa. São coisas que vêm de dentro. Mas, em relação às vozes, estou muito satisfeito com os resultados obtidos e sinto que evolui.
- Neste disco assume uma série de referências, o que nos conduz a uma das grandes discussões na música actual: a fronteira, muitas vezes invísivel, entre cópia e citação.
Estou à vontade para defender as citações porque não as encaro como um mero decalque. A citação mais óbvia e aquela que a maior parte das pessoas refere é Serge Gainsbourg, mas a verdade é que não tive qualquer preocupação em ouvir os seus discos. Quando parto para a feitura de um disco gosto de criar ambientes que funcionem como linha condutora para aquilo que vai ser desenvolvido. Mais do que citações directas, interessa-me a criação de ambientes. E é interessante porque essas atmosferas têm mais a ver com cinema do que propriamente com este ou aquele disco. Ou seja, aquilo que me interessa verdadeiramente é a criação de um imaginário. Apreendê-lo, entendê-lo e, depois, criar algo a partir dele.
- A propósito de "Le Jeu" podemos falar de Gainsbourg e da música francesa do passado mas também naqueles que se inspiraram nela mais recentemente como os Air dos primeiros tempos ou Bertrand Burgalat, não lhe parece?
A maior influência do disco nem sequer é o Gainsbourg. Serão coisas mais ligeiras como o Pierre Bachelet que compôs a banda sonora do filme "Emmanuelle I" e alguns compositores italianos, dos quais nem sequer sei o nome. Em relação aos Air e a Burgalat, são coisas de que gosto... De qualquer forma, de há uns anos a esta parte, a redescoberta do passado da música popular transformou-se num acontecimento global. Existe uma partilha de influências pelo mundo inteiro. Recordo-me dos Jazzanova falarem, há alguns anos, da forma como utilizavam "lixo" para criar a sua música, numa alusão à matéria-prima que utilizavam. No início sentia o mesmo.
- De alguma forma, a capa do disco funciona como um jogo de citações porque existe uma alusão óbvia a uma capa de Serge Gainsbourg. De quem foi a ideia?
A ideia foi da editora Music Mob e do João [Santos], da Ananana. A capa já tinha sido glosada pelo Dan The Automator [no álbum "Lovage", assinado como Nathaniel Merriweather] e achámos piada fazê-lo também, por uma razão simples: a capa do Gainsbourg é um símbolo, é uma espécie de clássico e toda a gente a conhece. Ou seja, não existe o perigo de alguém olhar para aquilo como uma espécie de citação disfarçada. É um mero piscar de olho. Apesar de não ser o melhor álbum de Gainsbourg, ambos os discos me marcaram. Talvez até mais o do Automator.
Entrevista de Victor Belanciano / Publico, 16/05/2003
- O segundo registo dos Balla, “Le jeu”, apresenta-se com novas influências e perspectivas. Como se deu esta evolução?
As coisas vão acontecendo naturalmente. Para fazer um disco preciso de encontar motivação e isso faz parte do processo natural da criação. O que ouves no “Le jeu” era uma ideia já tinha há algum tempo embora nunca a tivesse concretizado. Achei que agora seria o momento certo.
- Passados dez anos ligado à música nos mais variados projectos, em grupo ou individualmente, a verdade é que continuas um pouco à margem, na cena alternativa, e acabas por não chegar à linha da frente... ou não te deixas levar?
(risos) Pois, mas isso de não estar na linha da frente pode não ser necessariamente mau. Se calhar não é bem isso que eu quero. Fico satisfeito se a minha música cheguar às pessoas que gostam deste tipo de música. Por norma, não me costumo queixar em relação a nada. Quero continuar a ter inspiração para fazer música. Não gosto de me sentir pressionado, por exemplo, para ter um single que passe nas rádios. No “Le jeu” procurei eliminar todos os possíveis singles porque sou contra esses formatos. Se calhar até tinha essas canções, se calhar até caí nessa sonoridade obvia para single, mas foi precisamente esse tipo de temas que eu evitei.
- A capa do álbum é no mínimo curiosa. Há dois anos o Nathaniel Merriweather, mais conhecido por Dan the Automator (produtor dos Gorillaz), editou um álbum em que a capa era muito parecida. Porquê? Para caricaturar a capa do álbum do francês Serge Gainsbourg. É uma trilogia de imagens ou também há influências sonoras?
Bem, em relação à capa a ideia foi criar uma espécie de capa standard. O remake do original foi feito primeiro pelo Dan the Automator e agora por nós. Ao criarmos essa tal capa standard, se é que isto é possível, a ideia é levar as pessoas a identificarem o ambiente que nós quisemos incluir nos discos. No caso do “Le jeu”, a capa só surgiu depois do álbum mas encaixou bem com o que a música sugere. Mas em termos musicais não são necessariamente as mesmas inspirações. Do Dan the Automator inspira-me a vertente de produtor e a maneira como trabalha tecnicamente. Já em relação ao Serge Gainsbourg, e apesar de ele ser a imagem do ambiente que quis recriar, ele não é necessariamente a minha maior inflência como compositor.
- Então foi mais pela imagem?
Muitas vezes uma capa de um disco inspira-me mais que propriamente a música que lá está dentro.
- Qual é a interpretação que fazes destas capas?
Para mim, a capa original do Serge Gainsbourg é o espelho do que é a música. Já o Dan the Automator fez isto nitidamente para gozar. A minha capa foi intencional e acho que se identifica muito com o disco.
- Convidaste a Sylvie C. para interpretar alguns dos temas. A escolha de uma vocalista francesa foi propositada?
Tive sempre a vontade de fazer um álbum com estas características mas, para isso, precisava de uma cantora francesa porque é esta a língua que me inspira neste momento. Embora a Sylvie C. estivesse num projecto que não tem muito a ver com o que ela faz aqui, ela percebeu rapidamente qual o ambiente que eu queria neste disco e começamos a trabalhar. A ideia era, antes de mais nada, servir as cançoes que já existiam enquadrando a voz sem contrariar o ambiente idealizado.
Entrevista de Joana Brandão / PJ, 14/06/2003
- Uma das principais diferenças entre este álbum e o anterior é a sua consistência, ao nível dos ambientes e de um certo imaginário ancorado na música francesa e nas bandas sonoras para filmes. Essa unidade foi procurada?
Pelo facto de o outro ter sido lançado por uma editora maior [NorteSul], existiu da minha parte uma certa tentação de criar um ou outro tema com características de "single". No novo álbum não tive essas preocupações. Pelo contrário, os temas que poderiam constituir potenciais "singles" foram deixados de lado porque prejudicavam a coerência que pretendia atribuir ao disco. Nesse sentido, houve uma preocupação em desenvolver os temas que faziam sentido em termos de conjunto.
- O disco anterior era mais pessoal. De alguma forma, havia uma maior exposição - inclusive dedicava-o à sua mãe. Em "Le Jeu" parece assumir um maior artifício ou uma costela ficcional.
Todos os discos que faço são dedicados à minha mãe... Mas este álbum não é tão pessoal. É um disco onde criei personagens. Por outro lado, o facto de a Sylvie ter criado as suas próprias histórias e de ter interpretado os temas à sua maneira - de forma diversa da minha - transformou-o num objecto diferente do anterior. Menos centrado em mim. É um disco onde existe uma aposta mais deliberada no lado estético e, nesse sentido, não reflecte o meu mundo interior de forma tão directa. Mas não é um disco "falso" ou menos sentido - até pelo facto de conter pontos em comum com anteriores projectos meus. Acredito plenamente nele.
- Como se conheceram e qual foi a importância da Sylvie C. no processo de criação do álbum?
Vi-a num espectáculo do seu projecto, Cabaret LX, onde ela utilizava muitas referências ao "swing" francês e onde cantava temas da Edith Piaf. A maneira dela cantar nesse contexto é muito diferente daquela que se pode ouvir no disco, mas o facto de ter imaginado uma voz feminina francesa para os temas que andava a criar - inspirado pelos duetos das bandas sonoras eróticas dos anos 70 - fez-me acreditar que a Sylvie poderia ser essa pessoa. Quando começámos a trabalhar ela teve alguma dificuldade em entrar nos temas. Achava-os superficiais em comparação com uma certa teatralidade a que estava habituada, mas depois de lhe ter dado a ouvir discos dos Boris Ex-Machina de 1996 ela percebeu que essa teatralidade já tinha sido explorada anteriormente. Agora, procurava outra coisa e ela conseguiu chegar lá.
- Como funcionaram os dois em termos de dinâmica de trabalho? Tinha as ideias, desenvolvi-as e tentava transmiti-las?
Fazia as músicas, colocava as minhas partes de voz e, ela, em momentos de improviso ou depois de falarmos um pouco, cantava por cima. O primeiro tema que completámos, "A meu favor", foi construído de forma espontânea com ela a improvisar. Colou a sua voz à minha como sentia naquele momento, sem nenhuma direcção. Na maior parte dos casos, criava a estrutura sonora, dava-lhe e ela desenvolvia a sua parte.
- Existiram algumas resistências em relação ao primeiro álbum de Balla provocadas pela sua voz. Neste disco surge diferente, com uma voz mais ajustada. Teve alguma preocupação especial com esse aspecto?
É difícil encarar esse assunto de forma despreocupada quando se teve tantas críticas, não é? Desta feita, não usei a voz para "dizer" texto. Fiz apenas aquilo que sentia que devia fazer e fui mais intuitivo. Insisto em cantar porque nem sempre é fácil transmitir as ideias a outra pessoa. São coisas que vêm de dentro. Mas, em relação às vozes, estou muito satisfeito com os resultados obtidos e sinto que evolui.
- Neste disco assume uma série de referências, o que nos conduz a uma das grandes discussões na música actual: a fronteira, muitas vezes invísivel, entre cópia e citação.
Estou à vontade para defender as citações porque não as encaro como um mero decalque. A citação mais óbvia e aquela que a maior parte das pessoas refere é Serge Gainsbourg, mas a verdade é que não tive qualquer preocupação em ouvir os seus discos. Quando parto para a feitura de um disco gosto de criar ambientes que funcionem como linha condutora para aquilo que vai ser desenvolvido. Mais do que citações directas, interessa-me a criação de ambientes. E é interessante porque essas atmosferas têm mais a ver com cinema do que propriamente com este ou aquele disco. Ou seja, aquilo que me interessa verdadeiramente é a criação de um imaginário. Apreendê-lo, entendê-lo e, depois, criar algo a partir dele.
- A propósito de "Le Jeu" podemos falar de Gainsbourg e da música francesa do passado mas também naqueles que se inspiraram nela mais recentemente como os Air dos primeiros tempos ou Bertrand Burgalat, não lhe parece?
A maior influência do disco nem sequer é o Gainsbourg. Serão coisas mais ligeiras como o Pierre Bachelet que compôs a banda sonora do filme "Emmanuelle I" e alguns compositores italianos, dos quais nem sequer sei o nome. Em relação aos Air e a Burgalat, são coisas de que gosto... De qualquer forma, de há uns anos a esta parte, a redescoberta do passado da música popular transformou-se num acontecimento global. Existe uma partilha de influências pelo mundo inteiro. Recordo-me dos Jazzanova falarem, há alguns anos, da forma como utilizavam "lixo" para criar a sua música, numa alusão à matéria-prima que utilizavam. No início sentia o mesmo.
- De alguma forma, a capa do disco funciona como um jogo de citações porque existe uma alusão óbvia a uma capa de Serge Gainsbourg. De quem foi a ideia?
A ideia foi da editora Music Mob e do João [Santos], da Ananana. A capa já tinha sido glosada pelo Dan The Automator [no álbum "Lovage", assinado como Nathaniel Merriweather] e achámos piada fazê-lo também, por uma razão simples: a capa do Gainsbourg é um símbolo, é uma espécie de clássico e toda a gente a conhece. Ou seja, não existe o perigo de alguém olhar para aquilo como uma espécie de citação disfarçada. É um mero piscar de olho. Apesar de não ser o melhor álbum de Gainsbourg, ambos os discos me marcaram. Talvez até mais o do Automator.
Entrevista de Victor Belanciano / Publico, 16/05/2003
sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010
Mappa do Coração
Mappa do Coração - Vozes da Rádio (BMG, 1997)quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010
Todos os Dias Fossem Estes/Outros

Todos os Dias Fossem Estes / Outros - Nuno Prata (Turbina, 2006) Que dias preferes, estes … ou os outros?
Depende das alturas… Normalmente são estes os dias que eu quero, em que estou a fazer música. E é isso que me dá realmente prazer. Mas tal não me impede de me lembrar dos “outros” dias, dias que não existiram ou em que poderia ter vivido situações diferentes que não experimentei por estar a viver “estes” dias…
O título não sugere então um paralelo entre o passado e o presente, entre o Nuno Prata a solo e…?
Ah… pois, isso… [risos] É possível imaginar muitos significados para este título e fico surpreendido com as diferentes teorias que apresentam e que por vezes são mais elaboradas e criativas do que a verdadeira. Mas não. A razão pela qual o escolhi é mesmo a que apresentei. Na verdade, é um titulo que já tinha há muito tempo guardado na gaveta e que sempre me agradou talvez por dar azo a conjecturas diversas sobre o seu significado. E o título está ligado a outro aspecto que é importante: a capa e o design que se aplicam ao disco, no sentido de o tornar um objecto interessante.
Entrevista de Eugénia Azevedo/ Bodyspace.net, 22/02/2006
A Turbina é uma editora discográfica peculiar. Editou um disco que não é disco, é banda sonora (Giroflé); um disco que é dois (Todos os dias fossem estes, Todos os dias fossem outros); dois discos (O amor dá-me tesão, Não fui eu que estraguei) que são um, que afinal são livro (Foge foge bandido).
Nuno Prata, 03/06/2008
Todos os dias fossem estes foi o título da primeira maqueta que fiz do meu trabalho a solo, e achei logo que seria um bom título para um disco. Em Setembro de 2002, depois de um período de indecisão quanto ao meu futuro (acabou-se os Ornatos, e agora?), resolvi gravar algumas das canções que tinha escrito. Defini um horário de trabalho, meti mãos à obra e passadas duas semanas tinha gravado doze dessas canções. Com guitarra, baixo, teclados, e tudo o mais que uma canção que se preze tem direito. Depois dessa primeira maqueta ainda gravei outra (Nuno, Nico, em Setembro de 2003), continuei a escrever canções e comecei a apresentá-las ao vivo no início de 2004. Estamos em Janeiro de 2006 e o disco ainda não saiu; percebe-se porque é que acho que Todos os dias fossem outros também é um bom título.
Nuno Prata, 27/01/2006
A embalagem do meu primeiro disco a solo permite-lhe dois títulos: Todos os dias fossem estes e Todos os dias fossem outros. Enquanto o disco não é editado (o que deve acontecer em Abril, através da editora Turbina) e o meu sítio não fica pronto vou deixando aqui alguma informação.
Nuno Prata, 27/01/2006
A capa do teu disco é bastante original e chama a atenção pela positiva. Como surgiu a ideia de a fazer assim?Concebi essa embalagem para a segunda maquete que gravei - a maquete "Nuno, Nico" - e decidi aproveitá-la para o disco porque, para além de a achar um objecto apelativo, dá ao disco a possibilidade de, em vez de um, ter dois títulos que lhe servem que nem uma luva.
Jotta / acisum, 6/10/2006

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010
Resistir É Vencer

Resistir É Vencer - José Mário Branco (EMI, 2004)
O álbum chama-se «Resistir É Vencer», uma frase inspirada na resistência timorense. Como é que se consegue, ainda, resistir noutros lados? Em Portugal? Na Europa? No Mundo?
É preciso ver que esse lema não significa «se tu resistires tu vais vencer» mas sim «resistir é já uma vitória». E resistir a quê? Resistir ao inimigo, aos imensos «muros de Berlim» que ainda aí continuam, aos obstáculos que nos aparecem no caminho, mas também resistir aos muros e obstáculos que estão dentro de nós. É uma referência à nossa luta contra os nossos próprios limites. E isso é muito palpável em qualquer criação artística, nomeadamente na música: o compositor é aquele que ouve a música antes dos outros; é a luta contra o silêncio, é organizar os sons desorganizados que estão dentro da nossa cabeça e depois transmiti-los aos outros. Porque é que ainda canto estas canções?... Vivo bem, tenho uma boa casa, tenho um carro à porta, o frigorífico cheio de comida, de que é que me queixo?... Queixo-me porque percebi que ser de esquerda é não conseguir viver bem com a dor dos outros. É não conseguir ser feliz. Porque acordo, olho para o espelho e o que vejo é uma pessoa dorida com a dor...
Entrevista de António Pires / Blitz
Capa: detalhe de pintura de Júlio Pomar
quarta-feira, 20 de janeiro de 2010
Ar
Ar- Danças Ocultas (EMI, 1998)FM – “Ar” respira ambientalismo por todos os poros...
ARTUR FERNANDES – Do título, o mais simples possível, à capa, com um mínimo de texto, a preocupação foi que a música pudesse dizer tudo a partir do elemento, o ar, que faz funcionar o nosso instrumento. Foi-se em busca de imagens que se inserissem no contexto estético abordado neste disco, esse tal ambientalismo ou paisagismo.
P. – Podemos falar de micropaisagens?
R. – Sem dúvida nenhuma. O reportório incluído tem bastantes pormenores. Poderíamos falar, quase, na teoria do caos, em que há o macropormenor, o médio pormenor e o micropormenor. Existe um balanço, um ritmo instalado e depois, aí dentro, aparece uma melodia deste, um pormenor daquele, uma resposta de um terceiro, até se chegar à densidade que procurámos para este disco.
P. – Onde é que foi tirada a foto da capa?
R. – Num local da serra do Caramulo chamado Urgueira, no concelho de Águeda. É Portugal, como poderia ser a Colômbia ou o Tibete.
Entrevista de Fernando Magalhães / Público, 19/06/1998 [Danças Ocultas respiram em novo disco: Ar de fole]
http://poeira-cosmica-fm.blogspot.com/search/label/Danças%20Ocultas
capa: http://filosofiadecurral.blogspot.com/2010/01/ir-para-uma-ilha-deserta-e-levar-um.html
sexta-feira, 15 de janeiro de 2010
Oito
Oito - Rádio Macau (iPlay, 2008)Oitavo registo de originais, editado no ano de 2008. O número oito tem algum simbolismo?
Xana : Não. Há apenas a graça de, depois de a capa estar feita, vermos o oito assemelhar-se ao símbolo do infinito.
Flak : A razão principal [para o nome do disco] foi o facto de não termos encontrado um nome, ou uma frase, que pudesse definir este grupo de canções, adequado aos textos da Xana e do Pedro Malaquias. É um grupo de canções mas não tem nada de conceptual. Acho piada a discos com números – é um clássico, como no caso dos Led Zeppelin.
Entrevista de Mário Rui Vieira /Blitz 28/03/2008
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