terça-feira, 7 de dezembro de 2010

La Toilette des Étoiles

La Toilette des Étoiles - Belle Chase Hotel (Norte Sul, 2000)

"A ideia de fundo foi fazer um álbum mais temático. Um álbum com uma característica muito típica dos Belle Chase Hotel que são as narrativas de fuga, histórias de personagens incompatíveis com o quotidiano. Um título como "La Toilette des Étoiles" acaba por ser uma boa desculpa para criar uma certa ambiguidade: a "toilette" enquanto sanita ou enquanto abrilhantamento do toucador, um ambiguidade que pode muito bem definir o destino trágico das pessoas. Há quem nasça com a sensação de que a vida é uma coisa única que tem de embelezar e há quem veja tudo isto como um lampejo frouxo de luz de fim de tarde, um ocaso constante, e que por isso mais vale deitá-la pela sanita abaixo porque não vale de nada. Partindo desta situação entre o poético e o patético, procurámos fazer um álbum coerente, pelo menos à nossa maneira. É claro que a dispersão acabou por acontecer."

'La Toilette des Étoiles' é um álbum bem mais depurado, mais frio e bastante menos comemorativo que o anterior. Desta vez foram as letras que pintaram a música, tentaram ser elas mais doces que a própria música. No 'Fossa Nova' havia muitas músicas trágicas que tiveram um tratamento de contraponto. Uma das características desta banda é que a tensão entre a música e a história tem sempre uma intensidade muito grande. As letras nunca vão exaltar o que a música tem de mais agudo. Vão exactamente contrapor. E este é um álbum bem mais azul no sentido da frieza, no sentido de assumir personagens e histórias a céu aberto. No 'Fossa Nova' não eram tanto personagens contados, eram mais personagens a falar. Aqui há um trabalho maior de narrador, uma distância crítica maior. É como se tentássemos afastar-nos das personagens para tentar percebê-las melhor."

Entrevista de TIAGO LUZ PEDRO / Público, 27/10/2000


"La Toilette des Étoiles" é apenas uma forma de traduzir "Fossanova" para francês?

Acaba por ser. "Je vais à la toilette". Tanto pode ser "vou à fossa" como "vou-me maquilhar"... Previ mais ou menos que isto se pudesse começar a tornar (pelo menos da minha parte) uma banda escatológica. "Fossanova", de certa maneira, era um facilitismo, qualquer coisa podia caber naquele título, entre o escatológico e a referência à música de uma burguesia iluminada como era a bossanova. La Toilette des Étoiles, quando surgiu, também pensei que podia ser a sanita das estrelas. Há uma amargura e um cepticismo maior destas personagens. As estrelas são as convidadas especiais deste disco. Há quem nasça e tenha uma concepção da condição humana como algo absolutamente trágico onde não vale a pena investir em coisa nenhuma porque daqui a nada vai tudo pela sanita abaixo e outras pessoas que nascem com a ideia que isto é um período fugaz mas, por isso mesmo, é a pérola que deve ser mais trabalhada. Essa ambiguidade da "toilette" — neste caso, o embelezar das coisas — acabou por ser o que deixei ficar como a minha explicação oficial. O proximo, se calhar, vai chamar-se Cotonette On Earth, algo mais terra a terra. Estou, talvez, condenado ao meu extremo ser sempre a escatologia poética (ou patética, sei lá), a vertigem do esgoto, sabendo de antemão que todas as personagens que crio se vão escafoder no seu anonimato e insignificância e que já nascem desmoronadas. (2000)

Entrevista de João Lisboa / Expresso

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