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quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Filho da Selva

Filho da Selva - D-Mars (Loop, 2003)

- "Filho da Selva" é o nome do álbum e também de um tema em conjunto com o Ridículo, queres desvendar um bocado esta expressão ou este titulo?

D-Mars - Selva é principalmente a cidade, é o que todos dizem, que a cidade é uma selva. Neste caso penso que o hip-hop é um filho dessa selva, e então eu também sou um filho dessa selva porque sou um filho do hip-hop aqui em Portugal, junto com os meus irmãos todos, o pessoal todo do movimento. Tem a ver também com os ritmos da cidade, acho que este álbum se identifica com o ritmo urbano, é um álbum mais marcado pela batida do que propriamente pela mensagem das rimas como fazíamos nos Micro.

Por Rui Meireles para H2T - www.h2tuga.net e revista HipHop Nation, Setembro/2003

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

A Ópera Mágica do Cantor Maldito

A Ópera Mágica do Cantor Maldito - Fausto (Sony, 2003)

Primeiro ouvem-se sons de grilos, a sugerir uma atmosfera nocturna. Depois, escutam-se passos de

várias pessoas, uns apressados outros lentos, "walkie-talkies" em comunicação, uma campainha que toca

uma, duas, três vezes, à quarta já em fúria pelo silêncio do outro lado. E a seguir um pontapé forte

em madeira seca. A porta treme ao estrondo que se repete, sincopado, para logo se fundir com o rufar

de tambores em cadência marcial. E uma voz, imperativa como a do mandador num baile mandado: "Dá-lhe

mais, que esta primeira é coisa pouca! Rebenta-me essa porta que lá dentro há coisa ruim! Rodeia

agora e bate forte, vai o coração à boca!" Um coro, masculino, em ondas como no "leva-leva" dos

pescadores algarvios, responde: "Cala a boca/ dobra a língua/ corta os pulsos/ quebra os dedos/ fecha

os olhos/ morre um pouco/ cala!"

É preciso reter estas últimas palavras: calar é morrer um pouco. Porque é em torno delas que Fausto

Bordalo Dias constrói o seu mais recente e elaboradíssimo disco, que começa tal como acabámos de

descrever. Ele chama-lhe uma ópera, uma ópera mágica, e quem ficar apenas pela sua superfície poderá

retratá-lo (mal) como um disco de crítica aos poderes instalados, espécie de ressurreição de um canto

(o de intervenção) que teve no pós-25 de Abril a sua génese e apogeu.

Mas é uma pista falsa. "A Ópera Mágica do Cantor Maldito", elaborada e aperfeiçoada por Fausto ao

longo dos últimos anos, é a aplicação aos dramas e contradições da sua geração (onde a música

desempenhou papel crucial) do mesmo método por ele seguido na trilogia que começou com "Por Este Rio

Acima" (1982), prosseguiu com "Crónicas da Terra Ardente" (1994) e há-de terminar num terceiro

duplo-álbum nos anos que virão. É a passagem da história trágico-marítima à história

trágico-política, sem que daí resulte um discurso vulgarmente contestatário.

Por isso, retomemos o fio da história: há um cantor que calam mas não morre. E morre mas não calam.

Contraditório? Como tudo, naturalmente. Como a imagem da capa, reflectida num espelho embaciado que

deixa entrever no modelo escolhido (não é Fausto, mas é uma das suas guitarras, por sinal vermelha,

que pende dos ombros do modelo anónimo) um cantor que são vários e que acolherá na sua rota de

tragicomédia personagens que o completam e cercam, como o magistral agiota, a

nova-brigada-dos-coronéis-de-lápis-azul, os bárbaros da "passerelle", os mangas-de-alpaca, a loira do

bilhete de despedida, o "desconhecido alguém" que espreita "na paz da imensidão do universo" e a que

o cantor não precisa de chamar Deus.

Neste sentido, a "ópera" de Fausto é também uma epopeia portuguesmente terreste de que já conhecemos

(ou julgamos conhecer) muitas das personagens, aqui escarnecidas pelos seus defeitos, fraquezas e

falácias, pelo seu ego contraditório que o vapor no espelho ajuda a disseminar e simultaneamente a

ocultar. Na certeza de que, quando as gotas abandonarem o espelho à sua limpeza anterior, poucos ou

nenhuns escaparão incólumes ao olhar que antes nele pousou. Um olhar que não poupa ninguém, nem o

próprio autor, que aqui retrata igualmente os seus vícios e dúvidas, expondo-os como narrador

distanciado e implacavelmente crítico desta história onde por paixão se envolveu. Porque são amores e

ódios que aqui se cruzam, numa teia (o autor prefere a palavra "trama") que aos poucos se desvenda em

palavras cuidadas (as letras são, quase sempre, superlativas, bem como a música que as envolve, na

linha dos discos anteriores, assente no usual cruzamento de rítmicas tradicionais com harmonias

finamente elaboradas) e em pormenores que caberá ao auditor desvendar, numa paciência de labirinto.

Uma pista, necessária: a segunda canção do disco, "Era uma vez um cantor maldito", foi escrita como

"libreto" intencional desta "ópera". Nela reside a chave essencial para as leituras/audições que se

seguem.

epopeia. A trama da história tem, como se verá, além de contornos alegóricos, alguns traços místicos.

É certo que os penitentes e os pecadores são outros, de outro tempo que é o nosso, mas também eles

encontram eco nas personagens antes recriadas por Fausto a partir da "Peregrinação" de Fernão Mendes

Pinto: os tesouros e a agiotagem, as naus (agora cibernéticas) e os amores sem âncora, os sonhos e o

definhamento deles. Mas se este paralelismo é patente em grande parte do disco, é o lado místico que

desperta nas duas últimas canções, "A penumbra da claridade" e "E o cantor olha as estrelas", a

primeira fazendo o cantor questionar-se sobre a existência de uma entidade divina no momento da sua

prenunciada morte ("quem sabe/ eu sem saber/ acredite em ti/ e tu/ quem sabe/ sem que eu saiba/

acredites em mim"); e a segunda levando um coro feminino a lavrar-lhe um epitáfio que soa como um

Te-Deum pagão. Os tambores finais, trocando a cadência marcial dos primeiros minutos do disco pela

euforia das festas populares, acentuam a alegria da também anunciada ressurreição do cantor defunto:

"Na troada dos tambores/ e no rasgado das violas bravias/ levanta-se agora por artes de magia/

ressuscitou p'la grande vénia dos actores/ no coração rebelde de outros cantores". Não é um mártir

nem um herói, e é aqui que a história trai a mística. É apenas um homem. Há muito tempo que um disco

não nos contava assim uma história, desafiando-nos a escutá-la fora da pressa habitual dos dias.

(..)

Os desenhos do decano da BD portuguesa, José Ruy, que ilustram o libreto do disco a pedido de Fausto,

devem-se a uma ligação antiga e sentimental: foi através do seu traço que o cantor descobriu, ainda

jovem e no extinto "Cavaleiro Andante", as primeiras pranchas da "Peregrinação" de Fernão Mendes

Pinto.

O pequeno excerto de gravação inserido no final do disco como faixa escondida, um minuto após

terminar o último tema, mostra o cantor a gaguejar (e a praguejar) nos ensaios de "Eis aqui o

agiota", por não acertar na métrica da canção. Uma forma, como qualquer outra, de desembaciar o espelho.


"uma geração ao espelho", texto de Nuno pacheco / Público, 28/11/2003

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Encantamento

Encantamento - Mafalda Arnauth (EMI, 2003)

"Encantamento" termina com um "Fado Arnauth". A própria não receia ser acusada de pretensiosismo e explica a razão de ser do título: "Esse título existe porque estive durante dois ou três meses a tentar dar títulos às músicas o que, com a SPA, é impossível. Têm sempre registado um título igual! Por exemplo, tinha "Na palma da minha mão", mas não dava, tentei cinco ou seis títulos, acabou por ter que ser "Da palma da minha mão". O "Fado Arnauth" foi "Feitiço", o "Sem limite" não pôde ser "Sem limites", "Bendito fado" teve que ficar "Bendito fado, bendita gente", "É sempre cedo" chamava-se "Acorda coração"... Impressionante. O "Fado Arnauth" foi um relâmpago, nascido da frustração."





E "Encantamento", foi também assim? "Esse foi um encantamento total. Um cantamento, encantamento que vem do canto. Um encantamento com a vida que passa. Porque é que, de repente, me sinto uma pessoa saudável? Há quem diga que o desapego à vida, um instinto anti-vida, é necessário. Eu penso precisamente o contrário, acho que este encantamento vem de cantar à vida, da superação do dia-a-dia. A minha vida será tanto mais rica quanto mais gostar até das coisas menos boas. Embora hoje este amor pela vida esteja algo "démodé"...Já esteve mais na moda ser-se feliz."



Entrevista de Fernando Magalhães / Público

sábado, 7 de agosto de 2010

Rimar Contra A Maré

Rimar Contra A Maré - Boss AC (NorteSul, 2003)

- Qual é o significado de "Rimar contra a Maré"?

O álbum é um recado para mim mas com o qual tu também te podes identificar. Há lá músicas que eu ponderei até é que ponto é que eu as punha porque são músicas escritas quase como escape (...). O "Rimar contra A Maré" é o trocadilho do remar contra a maré, porque no fundo é o que eu tenho feito. É só obstáculos, por cada porta que se abre são duas que se fecham.

- Quem ou o qué a maré?

A maré é tudo o que me rodeia. A maré são as editoras, as rádios, os média, as pessoas que eu pensava que estavam comigo e não estão, são as pessoas que me endeusavam e que depois do "Mandachuva" sair eu sou o inimigo. Isto tudo tem sido a maré. A verdade é que com todas essas marés eu ainda estou de pé.

Entrevista de Ana Ferreira / Hip Hop Nation

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Le Jeu


Le Jeu - Balla (Music Mob, 2003)

- O segundo registo dos Balla, “Le jeu”, apresenta-se com novas influências e perspectivas. Como se deu esta evolução?

As coisas vão acontecendo naturalmente. Para fazer um disco preciso de encontar motivação e isso faz parte do processo natural da criação. O que ouves no “Le jeu” era uma ideia já tinha há algum tempo embora nunca a tivesse concretizado. Achei que agora seria o momento certo.

- Passados dez anos ligado à música nos mais variados projectos, em grupo ou individualmente, a verdade é que continuas um pouco à margem, na cena alternativa, e acabas por não chegar à linha da frente... ou não te deixas levar?

(risos) Pois, mas isso de não estar na linha da frente pode não ser necessariamente mau. Se calhar não é bem isso que eu quero. Fico satisfeito se a minha música cheguar às pessoas que gostam deste tipo de música. Por norma, não me costumo queixar em relação a nada. Quero continuar a ter inspiração para fazer música. Não gosto de me sentir pressionado, por exemplo, para ter um single que passe nas rádios. No “Le jeu” procurei eliminar todos os possíveis singles porque sou contra esses formatos. Se calhar até tinha essas canções, se calhar até caí nessa sonoridade obvia para single, mas foi precisamente esse tipo de temas que eu evitei.

- A capa do álbum é no mínimo curiosa. Há dois anos o Nathaniel Merriweather, mais conhecido por Dan the Automator (produtor dos Gorillaz), editou um álbum em que a capa era muito parecida. Porquê? Para caricaturar a capa do álbum do francês Serge Gainsbourg. É uma trilogia de imagens ou também há influências sonoras?

Bem, em relação à capa a ideia foi criar uma espécie de capa standard. O remake do original foi feito primeiro pelo Dan the Automator e agora por nós. Ao criarmos essa tal capa standard, se é que isto é possível, a ideia é levar as pessoas a identificarem o ambiente que nós quisemos incluir nos discos. No caso do “Le jeu”, a capa só surgiu depois do álbum mas encaixou bem com o que a música sugere. Mas em termos musicais não são necessariamente as mesmas inspirações. Do Dan the Automator inspira-me a vertente de produtor e a maneira como trabalha tecnicamente. Já em relação ao Serge Gainsbourg, e apesar de ele ser a imagem do ambiente que quis recriar, ele não é necessariamente a minha maior inflência como compositor.

- Então foi mais pela imagem?

Muitas vezes uma capa de um disco inspira-me mais que propriamente a música que lá está dentro.

- Qual é a interpretação que fazes destas capas?

Para mim, a capa original do Serge Gainsbourg é o espelho do que é a música. Já o Dan the Automator fez isto nitidamente para gozar. A minha capa foi intencional e acho que se identifica muito com o disco.

- Convidaste a Sylvie C. para interpretar alguns dos temas. A escolha de uma vocalista francesa foi propositada?

Tive sempre a vontade de fazer um álbum com estas características mas, para isso, precisava de uma cantora francesa porque é esta a língua que me inspira neste momento. Embora a Sylvie C. estivesse num projecto que não tem muito a ver com o que ela faz aqui, ela percebeu rapidamente qual o ambiente que eu queria neste disco e começamos a trabalhar. A ideia era, antes de mais nada, servir as cançoes que já existiam enquadrando a voz sem contrariar o ambiente idealizado.

Entrevista de Joana Brandão / PJ, 14/06/2003

- Uma das principais diferenças entre este álbum e o anterior é a sua consistência, ao nível dos ambientes e de um certo imaginário ancorado na música francesa e nas bandas sonoras para filmes. Essa unidade foi procurada?

Pelo facto de o outro ter sido lançado por uma editora maior [NorteSul], existiu da minha parte uma certa tentação de criar um ou outro tema com características de "single". No novo álbum não tive essas preocupações. Pelo contrário, os temas que poderiam constituir potenciais "singles" foram deixados de lado porque prejudicavam a coerência que pretendia atribuir ao disco. Nesse sentido, houve uma preocupação em desenvolver os temas que faziam sentido em termos de conjunto.

- O disco anterior era mais pessoal. De alguma forma, havia uma maior exposição - inclusive dedicava-o à sua mãe. Em "Le Jeu" parece assumir um maior artifício ou uma costela ficcional.

Todos os discos que faço são dedicados à minha mãe... Mas este álbum não é tão pessoal. É um disco onde criei personagens. Por outro lado, o facto de a Sylvie ter criado as suas próprias histórias e de ter interpretado os temas à sua maneira - de forma diversa da minha - transformou-o num objecto diferente do anterior. Menos centrado em mim. É um disco onde existe uma aposta mais deliberada no lado estético e, nesse sentido, não reflecte o meu mundo interior de forma tão directa. Mas não é um disco "falso" ou menos sentido - até pelo facto de conter pontos em comum com anteriores projectos meus. Acredito plenamente nele.

- Como se conheceram e qual foi a importância da Sylvie C. no processo de criação do álbum?

Vi-a num espectáculo do seu projecto, Cabaret LX, onde ela utilizava muitas referências ao "swing" francês e onde cantava temas da Edith Piaf. A maneira dela cantar nesse contexto é muito diferente daquela que se pode ouvir no disco, mas o facto de ter imaginado uma voz feminina francesa para os temas que andava a criar - inspirado pelos duetos das bandas sonoras eróticas dos anos 70 - fez-me acreditar que a Sylvie poderia ser essa pessoa. Quando começámos a trabalhar ela teve alguma dificuldade em entrar nos temas. Achava-os superficiais em comparação com uma certa teatralidade a que estava habituada, mas depois de lhe ter dado a ouvir discos dos Boris Ex-Machina de 1996 ela percebeu que essa teatralidade já tinha sido explorada anteriormente. Agora, procurava outra coisa e ela conseguiu chegar lá.

- Como funcionaram os dois em termos de dinâmica de trabalho? Tinha as ideias, desenvolvi-as e tentava transmiti-las?

Fazia as músicas, colocava as minhas partes de voz e, ela, em momentos de improviso ou depois de falarmos um pouco, cantava por cima. O primeiro tema que completámos, "A meu favor", foi construído de forma espontânea com ela a improvisar. Colou a sua voz à minha como sentia naquele momento, sem nenhuma direcção. Na maior parte dos casos, criava a estrutura sonora, dava-lhe e ela desenvolvia a sua parte.

- Existiram algumas resistências em relação ao primeiro álbum de Balla provocadas pela sua voz. Neste disco surge diferente, com uma voz mais ajustada. Teve alguma preocupação especial com esse aspecto?

É difícil encarar esse assunto de forma despreocupada quando se teve tantas críticas, não é? Desta feita, não usei a voz para "dizer" texto. Fiz apenas aquilo que sentia que devia fazer e fui mais intuitivo. Insisto em cantar porque nem sempre é fácil transmitir as ideias a outra pessoa. São coisas que vêm de dentro. Mas, em relação às vozes, estou muito satisfeito com os resultados obtidos e sinto que evolui.

- Neste disco assume uma série de referências, o que nos conduz a uma das grandes discussões na música actual: a fronteira, muitas vezes invísivel, entre cópia e citação.

Estou à vontade para defender as citações porque não as encaro como um mero decalque. A citação mais óbvia e aquela que a maior parte das pessoas refere é Serge Gainsbourg, mas a verdade é que não tive qualquer preocupação em ouvir os seus discos. Quando parto para a feitura de um disco gosto de criar ambientes que funcionem como linha condutora para aquilo que vai ser desenvolvido. Mais do que citações directas, interessa-me a criação de ambientes. E é interessante porque essas atmosferas têm mais a ver com cinema do que propriamente com este ou aquele disco. Ou seja, aquilo que me interessa verdadeiramente é a criação de um imaginário. Apreendê-lo, entendê-lo e, depois, criar algo a partir dele.

- A propósito de "Le Jeu" podemos falar de Gainsbourg e da música francesa do passado mas também naqueles que se inspiraram nela mais recentemente como os Air dos primeiros tempos ou Bertrand Burgalat, não lhe parece?

A maior influência do disco nem sequer é o Gainsbourg. Serão coisas mais ligeiras como o Pierre Bachelet que compôs a banda sonora do filme "Emmanuelle I" e alguns compositores italianos, dos quais nem sequer sei o nome. Em relação aos Air e a Burgalat, são coisas de que gosto... De qualquer forma, de há uns anos a esta parte, a redescoberta do passado da música popular transformou-se num acontecimento global. Existe uma partilha de influências pelo mundo inteiro. Recordo-me dos Jazzanova falarem, há alguns anos, da forma como utilizavam "lixo" para criar a sua música, numa alusão à matéria-prima que utilizavam. No início sentia o mesmo.

- De alguma forma, a capa do disco funciona como um jogo de citações porque existe uma alusão óbvia a uma capa de Serge Gainsbourg. De quem foi a ideia?

A ideia foi da editora Music Mob e do João [Santos], da Ananana. A capa já tinha sido glosada pelo Dan The Automator [no álbum "Lovage", assinado como Nathaniel Merriweather] e achámos piada fazê-lo também, por uma razão simples: a capa do Gainsbourg é um símbolo, é uma espécie de clássico e toda a gente a conhece. Ou seja, não existe o perigo de alguém olhar para aquilo como uma espécie de citação disfarçada. É um mero piscar de olho. Apesar de não ser o melhor álbum de Gainsbourg, ambos os discos me marcaram. Talvez até mais o do Automator.

Entrevista de Victor Belanciano / Publico, 16/05/2003


segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Como Sempre... Como Dantes

Como Sempre... Como Dantes - Camané (EMI, 2003)

- Apesar de este ser oficialmente o álbum ao vivo de Camané, o primeiro disco, "Uma Noite de Fados", de 1995, também foi registado em directo. Esta opção tem a ver com a queixa, frequente entre os fadistas, que diz ser o estúdio um habitat pouco natural para o fado?

No meu primeiro disco houve essa opção de forma muito clara. Neste já não houve tanto essa preocupação. A ideia foi fazer um apanhado daquilo que fiz durante estes anos e mostrar as diferenças de um espectáculo ao vivo em palco e numa casa de fados, ou seja, em ambientes diferentes.

- Serve então como um cartão de visita de uma carreira?

Também, apesar de não ser aquele disco ao vivo gravado numa única sala. Optámos por deixar no disco aquela fúria do público nos espectáculos do Centro Cultural de Belém, em Lisboa, mas procurámos também a concentração e a vontade de descoberta que se nota num público estrangeiro, como o belga. E fizemos incluir gravações captadas na casa de fados O Embuçado, durante as comemorações do seu 40º aniversário. Resolvemos gravar e, quando fomos ouvir, percebemos que também ali o ambiente era diferente, que o som é muito mais cru.

- O título, "Como Sempre... Como Dantes", tem uma intenção provocatória...

O título, como já vem sendo costume nos meus álbuns, foi retirado de uma letra, de um poema de Júlio de Sousa. Como este disco define aquilo que tenho feito, acho que é bem achado. "Como Dantes" é "O Embuçado", uma casa de fados. "Como Sempre" é o que é.

- Portanto, não se refere ao fado como algo imutável.

Não, refere-se a mim. Tem a ver comigo e com a minha forma de estar no fado. Não representa o fado. É o meu fado

Entrevista de Miguel Francisco Cadete/Público, 28/11/2003

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Namaste


Namaste - Blasted Mechanism (Metrodiscos, 2003)

O que é que significa «Namaste» (NR: leia-se «Namastê»)? Tem alguma coisa a ver com a palavra em sânscrito que significa «o Divino que vive em ti»?

É isso mesmo. E é uma saudação. Para nós, é uma saudação à Humanidade, como se nós nos curvássemos perante a Divindade dos seres humanos. Em 1986 os Blasted criaram um conceito, uma história ficcional, que tem tido desenvolvimentos. Houve uma raça de seres de outro planeta que aportou à Terra. Houve o desenvolver de seres vindos de um ambiente aquático e que povoaram a Terra. Agora, há seres que estão espalhados pelo planeta e que ninguém sabe quem são - os bebés-diamantes - que poderão levar o planeta a uma nova dimensão. Os bebés-diamantes, que têm sido estudados pela cultura nepalesa, são mentes altamente predispostas para fazer a mudança da Humanidade, uma mudança de modo de vida, de mentalidades, de conceitos. Na nossa ficção, os Blasted anunciam a chegada, preparam o terreno, dessas crianças-diamantes... E esta ficção poderá passar para uma narrativa, em banda-desenhada, proximamente.

Entrevista de António Pires / Blitz, Fev/2003

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Faz de Conta

Faz de Conta - Júlio Pereira (Som Livre, 2003)

É o título de um poema do Eugénio de Andrade de que eu sempre gostei. É a frase que faz mais parte do nosso universo quando somos crianças. Não há ninguém que não brinque ao faz de conta. Todos nós, ainda hoje, adultos, fazemos de conta por vezes.

Entrevista de Sandra Lopes, Correio da Manhã, 06/12/2003