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terça-feira, 7 de setembro de 2010

99.9

99.9 - Despe & Siga (BMG, 1999)

Nasceram após uma transformação no seio dos velhos Peste e Sida. Com sangue novo, ideias arejadas e montes de boa disposição e humor, acabam de lançar aquele que é já o terceiro álbum da banda sob o nome Despe e Siga. O novo disco intitula-se "99.9", brinca com os mitos e manias deste mundo na vertigem do milénio e surpreende com um ska/reggae/pop tecnológico devidamente embalado num novo visual, muito geração cyber...

- Em matéria de letras, o álbum "99.9" — ao contrário dos anteriores, agora exclusivamente com temas originais da banda — conserva intacta a vossa habitual dose de ironia e bom humor?...

Claro que sim, isso tem a ver não só com o nosso projecto mas é algo que faz parte da nossa postura e da nossa maneira de viver. A forma como nos relacionamos entre nós e com as outras pessoas é sempre optimista — mesmo com o maior dos problemas, nunca afunilamos muito as questões e quando escrevemos as canções, isso acaba por sair e transparecer de uma forma natural. Em termos de fio condutor, continuamos a explorar a língua portuguesa, procurando formas que a tornem cada vez mais musical e que se enquadrem bem no estilo que fazemos — pode estar dentro da área do pop/rock... mas é pop/rock português, sem dúvida. É isso que sempre temos tentado fazer desde o início, mesmo com as versões, ao fazê-las em português — é esse caminho que procuramos sempre aprofundar e, consideramos que neste disco conseguimos chegar a um bom ponto.

- O que pretendem transmitir com a canção "Radio Ska"?

A base desta canção é a ideia de fazer uma emissão de Rádio que fosse a nossa rádio, uma estação fictícia, a Rádio Ska, na frequência de 99.9, que tem notícias e uma playlist... É claro que chamámos a essa playlist as bandas portuguesas que, de alguma forma, abordam um bocadinho ou têm alguma coisa a ver com o ska e com o reggae — daí que convidássemos a essa "Radio Ska" os Trabalhadores do Comércio, os Taxi, os Ornatos, os Kussondulola...

Entrevista de AF / Musicnet, Abril de 1999

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Mátria

Mátria - Paulo de Carvalho (Universal, 1999)

«É sempre arriscado fazer um espectáculo com canções que as pessoas não conhecem.» Mas, na realidade, «Mátria» é uma aventura que já tem quatro anos. Em 1997, com outro título, esteve prestes a ser publicado por uma pequena editora independente. A ideia era a mesma, eram as mesmas canções com as mesmas letras que requereu a diversas mulheres do nosso meio - Maria Barroso, Né Ladeiras, Simone de Oliveira, Dulce Pontes, Mafalda Veiga, Isabel Ruth, que ele «nem conhecia», Maria Rosa Colaço, «com a qual andava à espera de trabalhar há 30 anos».

Falou com elas, convenceu-as, em certos casos insistiu face à demora. Algumas enviaram-lhe poemas, uma ou outra remeteram textos, «por vezes com três ou quatro páginas»; em quase todos os casos passou depois tempo a retalhar e recombinar as palavras, sumariou as ideias, elaborou manobras que todas as autoras acabaram por aprovar. Começou a compor com a ajuda da guitarra, que toca mal, e com a voz, que é o seu instrumento, antes de haver uma banda.

A intenção era que tudo resultasse, como agora, num amplo fresco da sentimentalidade lusófona, descrita no feminino e interpretada no masculino, de acordo com uma linha que ele incansavelmente define como «etno-urbana», uma estilização meio rural, meio cosmopolita.

Porém, nessa primeira fase acabou por descobrir que o projecto não tinha o som que queria. «O que eu queria, já na altura, era poder trabalhar sobre uma base de rítmica electrónica e depois acrescentar-lhe outros instrumentos», mas os resultados que então conseguiu ficaram muito aquém das expectativas que criara. Por isso, hoje em dia não consegue disfarçar que se sente «muito orgulhoso por ter resolvido deitar o álbum todo para o caixote do lixo» e recomeçá-lo depois a partir do zero, desta vez na companhia do engenheiro Fernando Abrantes e com a ajuda de Ivan Lins, o amigo brasileiro surge creditado como produtor, mas que também interpretou em dueto com Paulo as duas versões alternativas de «Mulher É Vida» e «O Fado» publicadas no final do disco.

(...)

Surpreende o público quando interrompe a função para apresentar a equipa técnica e a jovem Susana Lemos, a artista plástica que ilustrou o disco - há serigrafias em exposição no átrio do casino e hão-de acompanhar quase sempre o espectáculo, quando ele avançar decididamente para a estrada no próximo ano.

Texto de Jorge P. Pires / Expresso, 25/09/1999

Mais tarde, também em 99, e por um acaso feliz, [Susana Lemos] fez a capa do CD "Mátria", de Paulo de Carvalho. "A concepção gráfica e plástica foi toda minha e deixou-me feliz". O tal acaso feliz que a ligou a Paulo de Carvalho conta-se em duas palavras: o Paulo tinha um contrato com o Casino Estoril; a Susana tinha trabalhos seus no Salão Primavera daquele Casino, integrados numa exposição colectiva dos finalistas das Belas Artes de Lisboa e Porto; o Paulo viu a exposição, gostou dos seus trabalhos, pediu o seu contacto e depois de conversarem convidou-a para fazer o capa do disco que tinha em preparação. Tão simples como isso...

segunda-feira, 1 de março de 2010

Enter

Enter - Hipnótica (Nortesul, 1999)

- Como é que surgiu a colaboração com o Luís Caldeira [responsável pela excelente produção de "Enter"]?

O Luís é um amigo nosso de há alguns anos. Há cerca de oito anos que o conhecemos. Na altura em que o projecto se estava a iniciar, também ele se estava a iniciar. Tinha acabado de voltar dos EUA, onde fez um curso de engenheiro de som, tendo começado a trabalhar para a Valentim de Carvalho. Desde essa altura que ele vem acompanhando o projecto, as ideias, a intimidade, a química e os caminhos e eu acho que esse envolvimento foi fundamental para o resultado final. Acho que se fosse com outra pessoa, quer portuguesa, quer estrangeira, era impossível atingir o mesmo nível de cumplicidade. Não digo que o disco seria melhor ou pior com outra pessoa, mas não seria igual. E não imagino sequer outra pessoa neste momento. Logo desde cedo estava estabelecido que o Luís era a pessoa. Foi ele também que nos produziu o nosso EP. Na nossa cabeça era algo que estava já planeado. E o mesmo aconteceu com os gráficos, os Barbara Says, com os quais a relação é muito semelhante. Os Barbara Says acompanhavam-nos já desde antes do início do projecto. É uma relação muito particular, em que o grafismo estimula a nossa própria música, como quando eles aparecem com cartazes, flyers, etc., ou então o contrário, em que eles reagem às nossa músicas novas. E então há ali uma efervescência que é difícil de acontecer. No fundo, temos sorte. Conseguimos juntar todas estas vertentes complementares com pessoas com as quais nos identificamos.

- Como surgiu esta ligação com a arquitectura, já patente na imagem dos Hipnótica desde o EP?

Surgiu das inúmeras conversas com os Barbara Says. Aí, mais uma vez, é a música a estimular a parte gráfica. O título "Buildings Above Them", que era para ter sido o título do EP, foi, se calhar, um dos títulos que marcaram os Barbara Says e todo um caminho gráfico, tem um forte impacto visual. A partir daí foi jogar com isso. E depois foi o grafismo a estimular a música. As estruturas dos prédios fizeram-nos lembrar ligações e estruturas invisíveis que aparentemente não estão lá, mas que são a sustentação disto tudo. Eles [Barbara Says] alimentaram-nos esse conceito das ligações invisíveis, que é uma ideia que nós aproveitámos para o disco, e temas como, por exemplo, "Islands... Connect", em que nós vemos as pessoas como ilhas, um pouco perdidas na cidade, havendo aquela necessidade de ligação, como se fosse uma rede virtual. É um bom exemplo de como essa troca criativa que de outra forma não aconteceria. Se estivessemos a trabalhar com gráficos que nem sequer nos conhecessem é óbvio que não alcançaríamos este nível de cumplicidade.

Entrevista de Vitor Junqueira / Musicnet, Dezembro de 1999

O primeiro álbum chama-se "Enter" porque deve ser entendido como uma viagem ao universo dos Hipnótica.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

EP01

EP01 - Coldfinger (Norte Sul, 1999)

Para já é sob a forma de quinteto que os Coldfinger assinam a sua primeira edição, um EP de cinco temas editado pela Nortesul. O criador do projecto justifica a estreia num formato mais curto, ficando a gravação do primeiro álbum para Fevereiro do próximo ano: "Fizemos a primeira apresentação no mês de Dezembro do ano passado [no Hard Club], tocámos à volta de duas dezenas de concertos este ano, de modo que temos um período de vida ainda curto. Somos um projecto que quer crescer e a oportunidade de ir para estúdio foi aproveitada no sentido de ser um bom tubo de ensaio para o nosso trabalho do futuro."

(...)

Concordando, em qualquer dos casos, com o princípio de semianonimato subscrito por projectos aparentados com o seu, sobretudo britânicos, os Coldfinger optam no EP por uma capa de "design" sóbrio a laranja, publicando apenas no interior uma pequena foto deles próprios. "Ouvindo a música, vendo os nossos espectáculos, ou mesmo privando connosco, percebe-se que somos pessoas contidas, reservadas e que gostamos de uma certa sobriedade - o que não impede termos escolhido o laranja para a capa, porque é uma cor feliz. Mas queremos que a experiência dos Coldfinger passe essencialmente pela música e por uma boa relação com o objecto que é o EP."

Por Luis Maio / Público, 10/12/1999

Imagens: http://cargocollective.com/hugoalte/17790 (J.Faria e Hugo d'Alte @ Drop)

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

O Primeiro Canto

O Primeiro Canto - Dulce Pontes (Universal, 1999)

SM - Fale um pouco de O Primeiro Canto, seu novo CD...
DULCE - Foi um trabalho conceitual, um desafio enorme. Procurei traduzir, em sua amplitude, o significado dos quatro elementos: terra, fogo, água e ar. Tudo da maneira mais simples possível, sobretudo nos arranjos.

SM - Na capa do disco você aparece coberta de lama. Como foi fazer aquela foto?

DULCE - É, apareço completamente nua, coberta de barro. As fotos foram produzidas às 6h30 da manhã pelo fotografo holandês Maarten Corbijn, que foi espetacular. Estava superfrio e ele ficou de cueca para ser solidário.

Em 2009 revelou que está a preparar o seguimento de "O Primeiro Canto".