Enter - Hipnótica (Nortesul, 1999)- Como é que surgiu a colaboração com o Luís Caldeira [responsável pela excelente produção de "Enter"]?
O Luís é um amigo nosso de há alguns anos. Há cerca de oito anos que o conhecemos. Na altura em que o projecto se estava a iniciar, também ele se estava a iniciar. Tinha acabado de voltar dos EUA, onde fez um curso de engenheiro de som, tendo começado a trabalhar para a Valentim de Carvalho. Desde essa altura que ele vem acompanhando o projecto, as ideias, a intimidade, a química e os caminhos e eu acho que esse envolvimento foi fundamental para o resultado final. Acho que se fosse com outra pessoa, quer portuguesa, quer estrangeira, era impossível atingir o mesmo nível de cumplicidade. Não digo que o disco seria melhor ou pior com outra pessoa, mas não seria igual. E não imagino sequer outra pessoa neste momento. Logo desde cedo estava estabelecido que o Luís era a pessoa. Foi ele também que nos produziu o nosso EP. Na nossa cabeça era algo que estava já planeado. E o mesmo aconteceu com os gráficos, os Barbara Says, com os quais a relação é muito semelhante. Os Barbara Says acompanhavam-nos já desde antes do início do projecto. É uma relação muito particular, em que o grafismo estimula a nossa própria música, como quando eles aparecem com cartazes, flyers, etc., ou então o contrário, em que eles reagem às nossa músicas novas. E então há ali uma efervescência que é difícil de acontecer. No fundo, temos sorte. Conseguimos juntar todas estas vertentes complementares com pessoas com as quais nos identificamos.
- Como surgiu esta ligação com a arquitectura, já patente na imagem dos Hipnótica desde o EP?
Surgiu das inúmeras conversas com os Barbara Says. Aí, mais uma vez, é a música a estimular a parte gráfica. O título "Buildings Above Them", que era para ter sido o título do EP, foi, se calhar, um dos títulos que marcaram os Barbara Says e todo um caminho gráfico, tem um forte impacto visual. A partir daí foi jogar com isso. E depois foi o grafismo a estimular a música. As estruturas dos prédios fizeram-nos lembrar ligações e estruturas invisíveis que aparentemente não estão lá, mas que são a sustentação disto tudo. Eles [Barbara Says] alimentaram-nos esse conceito das ligações invisíveis, que é uma ideia que nós aproveitámos para o disco, e temas como, por exemplo, "Islands... Connect", em que nós vemos as pessoas como ilhas, um pouco perdidas na cidade, havendo aquela necessidade de ligação, como se fosse uma rede virtual. É um bom exemplo de como essa troca criativa que de outra forma não aconteceria. Se estivessemos a trabalhar com gráficos que nem sequer nos conhecessem é óbvio que não alcançaríamos este nível de cumplicidade.
Entrevista de Vitor Junqueira / Musicnet, Dezembro de 1999
O primeiro álbum chama-se "Enter" porque deve ser entendido como uma viagem ao universo dos Hipnótica.
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