quarta-feira, 24 de março de 2010

Vinho dos Amantes

Vinho dos Amantes - Janita Salomé (Som Livre, 2007)

- O que é o "Vinho dos Amantes"?

É embaraçosa, essa pergunta... O que é? Foi o que me ocorreu, o que me surgiu. É o resultado de tudo o que fiz até agora. Tudo o que fiz até agora acabou por desembocar no "Vinho dos Amantes", que é um passo diferente naquilo que tenho feito, no que diz respeito à minha linguagem musical e também temática. Antes, dediquei-me muito à música tradicional, estou umbilicalmente ligado à música tradicional e também à poesia arábico-andaluza e aos sons mediterrânicos e a todos uns ambientes muito específicos, muito próprios que são, no fundo, a matriz da música que faço. No entanto, há, também, um lado urbano, marcadamente urbano, que emerge do facto de eu viver na cidade há muitos anos.

- Há uma simbiose entre a música tradicional e a música urbana?

Eu procuro fazê-la. Aliás, o conceito de música popular portuguesa passa, quanto a mim, por aí. Mas, não perdendo o fio ao discurso: "Vinho dos Amantes" é o resultado daquilo que foi a minha existência, da minha vida, porque nada daquilo que eu faço, relacionado com a música e com a minha profissão, está separado daquilo que é a minha existência. A música que eu faço é o resultado dos livros que leio, dos amigos que tenho, das viagens que faço, dos sons que me rodeiam, daquilo que observo, daquilo que me surpreende. E o vinho é algo que está muito presente na nossa cultura, na cultura mediterrânica e na cultura portuguesa. E de que maneira! O vinho é uma bebida mística, mágica, que nos transforma, ora nos bestializa, ora nos inspira, ora nos torna no indivíduo capaz de desafiar o mundo e mais inspirado do universo. E é aliciante falar do vinho, fazer música sobre o vinho, com a poesia e tudo o que li sobre o vinho. As coisas vão-se encadeando. E eu sempre fui um aficionado da prática libatória, com relativamente pouco conhecimento sobre a matéria. Mas este trabalho enriqueceu-me muito, porque me conduziu e me levou a descobrir as belas palavras que existem escritas sobre o vinho, à volta do vinho, de autores dos mais diversos, de grandes autores, passando por Baudelaire, Anacreonte, ou José Jorge Letria, Hélia Correia, Carlos Mota de Oliveira, Camilo Pessanha. Figuram todos neste trabalho. A surpresa, para mim, foi encontrar outros que não musiquei e que, possivelmente, no futuro figurarão também como poetas da minha música. Estou a lembrar-me de Pablo Neruda, que tem um soneto sobre o vinho que é das coisas mais belas que se escreveram sobre esse tema! O vinho tem esta mística, e à volta do vinho muita da nossa existência fervilha e, para o melhor e para o pior, o vinho está presente.

Entrevista de Nuno Gomes dos Santos / Revista Autores (SPA)

A ode ao vinho tem sentido num país vinícola como Portugal, tendo nós o vinho com uma presença tão forte na nossa cultura. Não sou pioneiro, provavelmente outros músicos e outros compositores já o fizeram. Mas de outra maneira, porque as formas podem ser tão variadas como diversa é a poesia e a literatura sobre o vinho.

Entrevista de Marta Neves / Jornal de Notícias, 13/03/2007

Encontrei muita e bela poesia dos mais diversos autores sobre a temática do vinho. Neste trabalho faço um percurso desde os tempos da Antiguidade Clássica até aos tempos actuais, do Anacreonte à Hélia Correia (amiga a quem pedi que escrevesse sobre o vinho), passando pelo Caminho Pessanha e pelo Charles Baudelaire, um mestre na experimentação das mais diversas drogas que fala destas e do vinho com a maior sabedoria que afinal de contas é o mais importante no que diz respeito ao vinho.

- E porquê o título "Vinho dos Amantes"?

O vinho e o amor foram sempre, durante os tempos, relacionados entre si, dizendo Jorge Sousa Braga numa colectânea que publicou na Assírio & Alvim, intitulada "O Vinho e as Rosas", que "vinho" é uma palavra que na sua origem mais remota deriva do sânscrito e quer dizer "amado". Portanto, há uma relação do vinho com o amor, sabendo-se também que mesmo na Antiguidade Clássica, Ovídio já dizia que o vinho predispõe a alma para o amor, isto se não tiver sido bebido em grandes quantidades, claro, porque o vento atiça a chama mas se for muito forte apaga-a!.

Entrevista de João Afonso / Epicur, Agosto-Setembro de 2007

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