quarta-feira, 31 de março de 2010

Melro


Melro - Janita Salomé (Orfeu, 1980)

- O Janita que me está a falar deste seu último trabalho discográfico não tem nada a ver ou tem ainda alguma coisa a ver com o que fez o "Melro"?

Com o "Melro"? Sempre! Porque cada trabalho é sempre, de alguma forma, consequência do anterior. Como o melro, eu sou um indivíduo circunspecto e atento ao que se passa à minha volta. E preocupado com as coisas do mundo, com a existência da Humanidade e com os caminhos que ela leva. E, particularmente, sensível àquilo que se passa no meu país, onde as pessoas são cada vez mais infelizes e cada vez têm menos motivos para gostar da sua existência e do que as rodeia, porque a vida cada vez é mais difícil, as pessoas cada vez têm mais dificuldades. E é uma injustiça tremenda...

- ... e o que é que isso tem a ver com o melro?

Porque o melro é, precisamente, o pássaro que dá o alerta quando chega o perigo. O disco que teve esse nome sai no princípio dos anos 80, depois do 25 de Abril, mas também depois do 25 de Novembro, e o melro foi a imagem que me surgiu. Porque eu fui caçador e o melro estragava-me as caçadas, porque, onde há um melro, o melro sai e, com um piar característico de pânico, perdizes, lebres, tudo o que há nas imediações foge. O melro dá o sinal de alerta

terça-feira, 30 de março de 2010

Ligação Directa

Ligação Directa - Sérgio Godinho (EMI, 2006)

P - Antes de ir mais longe: o título, Ligação Directa, significa o quê?
- Fui tirar fotografias com o Daniel Blaufuks e ele queria também fotografias de noite. Há uma garagem onde eu guardo o carro e, entre outras, aí tirámos algumas que acabaram por ir parar à capa e ao "booklet" do disco. Quando olhei para as fotografias, aquilo foi assim uma iluminação (com pouca luz...). Eu tenho uma grande dificuldade com títulos, muitas vezes são excrescências... alguma coisa que defina minimamente mas que não defina nada, às vezes, no limite pode ser um "soundbyte", mas tem de fazer sentido. Estava ali no meio dos carros e pensei nessa ideia da "ligação directa". Mas, como é evidente, é uma metáfora que extravasa e que pode ser ligação directa à vida, aos amores, aos públicos, aos meus músicos, ou fazer uma "ligação em directo" para... Estocolmo... e é aquilo também que as pessoas quiserem quando ouvirem. É suficientemente aberto para isso.

Entrevista de João Lisboa / Expresso, 2006


Existe um autocalante com a identificação do disco e do cantor.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Endelweiss

Edelweiss - Entre Aspas (BMG, 1997)

- Porquê o título do álbum, "Edelweiss"?

"Edelweiss" é uma pequena flor branca que nasce acima dos mil metros de altitude. Quisémos dar o nome de uma flor sem o fazer necessariamente em português - não íamos chamar-lhe rosa, por exemplo…

Escolhemos "Edelweiss" porque é uma flor poética e que não existe em Portugal. Outra das razões tem a ver com o facto de continuarmos a apostar em cor - o "Lollipop" já era bastante colorido - e "Edelweiss" é novamente cores, flores…

- Qual é a temática das vossas novas canções?

Falamos de flores… Temos um tema sobre o racismo - a cor. As nossas abordagens nunca são dramáticas: ou são fantasia ou são naturais e optimistas. Isso tem a ver com o facto de sermos do Algarve - somos livres, não estamos propriamente metidos dentro da cidade

Entrevista site Musicnet

sexta-feira, 26 de março de 2010

Transfado

Transfado - Anamar (CNM, 2004)

TRANSFADO, O QUE É? Música lusa, “tanguera”, ibérica, transatlântica, intemporal, “transfádica”. Fado e latinidade, africanidade, Tango, Milonga, Morna, Rumba, Habanera...prazer. Canções vibrantes. Impacto teatral. Voz profunda. Piano, contrabaixo e guitarra portuguesa. Música para a alma. Para os sentidos. Para o corpo Musica intimista para ouvir alto, muito alto. Transfado é universal, como nós. Fados, novos, quentes, antigos, amados, com outros ritmos e sonoridades. À esfíngica intensidade fadista somam-se outras emoções, positivas, estimulantes. Novas letras para melodias carismáticas e canções inéditas, imprevistas. Poetas eternos e letristas contemporâneos habitam o fado com outras palavras, porque Transfado é anti-tragédia, anti-depressivo, auto-motivante, cúmplice, pró-activo. Sim, é um Cd. E um espectáculo. E um manifesto. Viva a vida. Obrigada.

(texto contido no press release)

"O disco teve um caminho longo. Começou quando o Tiago Torres da Silva, o meu desencaminhador profissional, me disse 'Ana, está na hora. Ou voltas ou não voltas. Mas se voltas é melhor despachares-te.' Reequacionei muitas coisas, fiz um balanço do que estava para trás (por isso saiu aquela antologia pela Universal) e resolvi partir para um novo projecto. Aí o Tiago, que estava ligado à ZonaMúsica, às edições de fado, sugeriu que podia ser uma pedrada no charco eu fazer um disco de fado tradicional."

Mas ela, depois de pensar muito sobre o assunto, recusou: "Disse-lhe que não era possível, que não conseguia, até porque não sou fadista. Podia era, na senda do que tinha vindo a fazer ao longo da minha vida, fazer alguma coisa à volta do fado. Daí surgiu o conceito do 'Transfado', juntando a latinidade ibérica àquilo ao canto da alma, que também consta do tango, do flamenco e da música africana. Abalançámo-nos então a um projecto ambicioso: unir esses conceitos sem colagens forçadas, o que implicava juntar dois instrumentos poderosíssimos, o piano argentino e a guitarra portuguesa. Houve um trabalho aturado com os músicos, que louvo sistematicamente, porque se no disco se consegue encontrar um som uno a eles se deve."

Texto e entrevista de Nuno Pacheco / Público, 03/12/2004

quinta-feira, 25 de março de 2010

Abril

Abril - Cristina Branco (Universal, 2007)
- Este disco poder-se-ia chamar de outra forma?

O nome era tão óbvio, que se escondeu até ao final da produção. O que me deixava tremendamente preocupada, porque eu escolho sempre os títulos antes de partir para a recolha de temas.

Entrevista de André Gomes/Bodyspace, 10/03/2008

Disco composto por versões de José Afonso

quarta-feira, 24 de março de 2010

Vinho dos Amantes

Vinho dos Amantes - Janita Salomé (Som Livre, 2007)

- O que é o "Vinho dos Amantes"?

É embaraçosa, essa pergunta... O que é? Foi o que me ocorreu, o que me surgiu. É o resultado de tudo o que fiz até agora. Tudo o que fiz até agora acabou por desembocar no "Vinho dos Amantes", que é um passo diferente naquilo que tenho feito, no que diz respeito à minha linguagem musical e também temática. Antes, dediquei-me muito à música tradicional, estou umbilicalmente ligado à música tradicional e também à poesia arábico-andaluza e aos sons mediterrânicos e a todos uns ambientes muito específicos, muito próprios que são, no fundo, a matriz da música que faço. No entanto, há, também, um lado urbano, marcadamente urbano, que emerge do facto de eu viver na cidade há muitos anos.

- Há uma simbiose entre a música tradicional e a música urbana?

Eu procuro fazê-la. Aliás, o conceito de música popular portuguesa passa, quanto a mim, por aí. Mas, não perdendo o fio ao discurso: "Vinho dos Amantes" é o resultado daquilo que foi a minha existência, da minha vida, porque nada daquilo que eu faço, relacionado com a música e com a minha profissão, está separado daquilo que é a minha existência. A música que eu faço é o resultado dos livros que leio, dos amigos que tenho, das viagens que faço, dos sons que me rodeiam, daquilo que observo, daquilo que me surpreende. E o vinho é algo que está muito presente na nossa cultura, na cultura mediterrânica e na cultura portuguesa. E de que maneira! O vinho é uma bebida mística, mágica, que nos transforma, ora nos bestializa, ora nos inspira, ora nos torna no indivíduo capaz de desafiar o mundo e mais inspirado do universo. E é aliciante falar do vinho, fazer música sobre o vinho, com a poesia e tudo o que li sobre o vinho. As coisas vão-se encadeando. E eu sempre fui um aficionado da prática libatória, com relativamente pouco conhecimento sobre a matéria. Mas este trabalho enriqueceu-me muito, porque me conduziu e me levou a descobrir as belas palavras que existem escritas sobre o vinho, à volta do vinho, de autores dos mais diversos, de grandes autores, passando por Baudelaire, Anacreonte, ou José Jorge Letria, Hélia Correia, Carlos Mota de Oliveira, Camilo Pessanha. Figuram todos neste trabalho. A surpresa, para mim, foi encontrar outros que não musiquei e que, possivelmente, no futuro figurarão também como poetas da minha música. Estou a lembrar-me de Pablo Neruda, que tem um soneto sobre o vinho que é das coisas mais belas que se escreveram sobre esse tema! O vinho tem esta mística, e à volta do vinho muita da nossa existência fervilha e, para o melhor e para o pior, o vinho está presente.

Entrevista de Nuno Gomes dos Santos / Revista Autores (SPA)

A ode ao vinho tem sentido num país vinícola como Portugal, tendo nós o vinho com uma presença tão forte na nossa cultura. Não sou pioneiro, provavelmente outros músicos e outros compositores já o fizeram. Mas de outra maneira, porque as formas podem ser tão variadas como diversa é a poesia e a literatura sobre o vinho.

Entrevista de Marta Neves / Jornal de Notícias, 13/03/2007

Encontrei muita e bela poesia dos mais diversos autores sobre a temática do vinho. Neste trabalho faço um percurso desde os tempos da Antiguidade Clássica até aos tempos actuais, do Anacreonte à Hélia Correia (amiga a quem pedi que escrevesse sobre o vinho), passando pelo Caminho Pessanha e pelo Charles Baudelaire, um mestre na experimentação das mais diversas drogas que fala destas e do vinho com a maior sabedoria que afinal de contas é o mais importante no que diz respeito ao vinho.

- E porquê o título "Vinho dos Amantes"?

O vinho e o amor foram sempre, durante os tempos, relacionados entre si, dizendo Jorge Sousa Braga numa colectânea que publicou na Assírio & Alvim, intitulada "O Vinho e as Rosas", que "vinho" é uma palavra que na sua origem mais remota deriva do sânscrito e quer dizer "amado". Portanto, há uma relação do vinho com o amor, sabendo-se também que mesmo na Antiguidade Clássica, Ovídio já dizia que o vinho predispõe a alma para o amor, isto se não tiver sido bebido em grandes quantidades, claro, porque o vento atiça a chama mas se for muito forte apaga-a!.

Entrevista de João Afonso / Epicur, Agosto-Setembro de 2007

terça-feira, 23 de março de 2010

Código Verde

Código Verde - Luís Represas (Universal, 2000)
Quando concluí o disco, em termos de composição, percebi que todos os temas falavam de relações. E, no meu entender, todas as relações têm um código para se entrar nelas. O que importa é descobri-lo, descobrir esse "código verde" que dá passagem. Foi assim que surgiu o título do disco.
Entrevista de João Miguel Tavares / Diário de Notícias, 30/09/2000

segunda-feira, 22 de março de 2010

Luna Dance

Luna Dance - Bunny Ranch (Transformadores, 2006)

- Qual é o significado do titulo do disco, "Luna Dance"? .

Já sabes donde vem o nome Bunnyranch! Os Bunnyranch deram o primeiro concerto num espaço em Coimbra chamado Le Son que mais tarde deixou de se chamar Le Son e passou a ser Luna Dancing, isto é, tornou-se um espaço igual aquele ao que os Bunnyranch foram retirar o nome, como havia aqui uma enorme relação… mas também significa que se pode dançar ou fazer outra coisa qualquer debaixo da lua ou que se pode ser afectado pela lua!

Entrevista de André Gomes/Bodyspace, 12/10/2006 .

sexta-feira, 19 de março de 2010

Heróis do Mar


Heróis do Mar - Heróis do Mar (EMI, 1988)

«Não encontrámos nenhum título que nos satisfazesse e qualquer outro nome só iria parecer artificial. plástico.» Carlos Maria Trindade em entrevista a Maria João Lourenço / TV Guia - Agosto/1988

Da superficie branca da capa oito olhos nos espreitam, quatro bocas nos sugerem um som por descobrir. Do outro lado, na contracapa do último LP dos Heróis do Mar, são quatro os ouvidos que se perfilam perante o nosso olhar; um pouco mais abaixo, duas pernas traçam o quatro, símbolo da estabilidade e do equilibrio, aqui tomado à letra como simples sinal numérico a sublinhar o quarto álbum dos Heróis. Um belíssimo trabalho gráfico de Rui Pregal da Cunha e Fátima Rolo Duarte para assinalar o regresso do grupo ao fatal vinil. (MJL)
Nota: o disco também é conhecido por "4" para distinguir do álbum de estreia do grupo.

quinta-feira, 18 de março de 2010

Crua

Crua - Aldina Duarte (EMI, 2006)

- Talvez já tenha respondido a esta pergunta vezes demais do que aquilo que deseja, mas… porquê "Crua"?

Também foi uma ideia de David Ferreira, a ideia do CD é Verdade Nua e Crua, mas como título era inadequado, portanto o David achou que a imagem gráfica e fotográfica do CD devia passar pelo preto e branco e eu deveria ser fotografada sem quaisquer acessórios para sugerir a nudez… "Crua" porque é sem artifícios e há uma linguagem muito directa na abordagem de temas como o prazer e a solidão, por exemplo.

Entrevista de André Gomes/Bodyspace, 24/07/2006

quarta-feira, 17 de março de 2010

Na Linha da Vida

Na Linha da Vida - Camané (EMI, 1998)

- Quis dizer alguma coisa quando escolheu para título do disco "Na Linha da Vida"?

Este título surge na sequência de uma série de espectáculos que tinha feito no Inatel. "Na Linha da Vida" é "nalinha do fado".

- Linha da vida é também, na quiromancia, a linha do destino... Acredita na fatalidade?

Acho que o destino somos nós que o fazemos diariamente, a forma como a gente vive no dia-a-dia, que se pode reflectir no futuro.

Entrevista de Fernando Magalhães / Público, 20/02/1998

terça-feira, 16 de março de 2010

The Night Before And A New Day

The Night Before And A New Day - Blind Zero (Universal, 2005)

- A capa do disco apresenta-nos uma carocha a cair dento de água... tem algo a ver com a vossa "vivência" anterior?

De certa forma, porque há sempre um cuidado estético em tudo o que fazemos. Houve uma preocupação em deixar transparecer na capa do disco aquela ideia ciclica que tens no disco. Pode-se ver pelas letras que há uma mudança, uma passagem. Depois da noite vem o dia, depois do dia vem a noite. E também se pode sentir essa passagem através da capa, com as diferentes fases da queda do insecto. O próprio nome do disco está partido em dois, tal como a capa. há elementos graficos, como código de barras e o nome da editora, que são elementos que saltam de capa para capa. Criámos essa ideia quase para confundir e obrigar as pessoas a virar o cd. É para tornar as coisas mais interessantes, para que a capa tenha um conceito estético. Tal como fazermos com os videos, damos liberdade artística total. Chamamos as pessoas que achamos que têm competência para fazer esse tipo de trabalho e explicamos o que pretendemos.

Entrevista de Laura Alves / Forum estudante Agosto /2005


segunda-feira, 15 de março de 2010

Cintura


Cintura - Clã (EMI, 2008)

O facto de terem escolhido o nome Cintura é um convite declarado para as pessoas mexerem essa parte do corpo?

Manuela Azevedo (Risos) Muito sinceramente, a escolha do nome tem a ver com o facto de gostarmos muito da palavra, por si só, de uma forma abstracta. É bonita graficamente e sonoramente também. Depois, pelo facto de a palavra estar ligada a um disco que é muito baseado na secção rítmica e que apela à dança e ao movimento, achámos que era a ideal para dar ao álbum.

O Cintura é muito diferente do antecessor Rosa Carne.

MA Em termos musicais sim, mas em termos líricos não me parece tanto...

É antes uma espécie de continuidade?

MA Completamente. Não só porque o disco continua a ser habitado por mulheres (o que também era uma característica do disco anterior), mas também pelo facto de passarmos pelos mesmos escritores.

Nos vossos discos há sempre um grande investimento na imagem. Desta vez a coisa também não é diferente...

MA Para nós, foi sempre importante investir, não bem na imagem, mas em tudo o que está à volta do nosso trabalho (as capas dos discos, os cartazes dos concertos, a maneira como subimos ao palco, a roupa que vestimos durante o espectáculo). Acho que neste disco conseguimos melhor es resultados até, porque à medida que o tempo foi passando temos conseguido conquistar colaboradores nessa área da imagem.

HG Eu diria que a capa de um disco dá muitos sinais. A ideia é passar algumas coisas que estão lá dentro e outras que não estão e acabas por descobrir na capa.

Entrevista de Edgar Amaral, Mundo Universitário, 8/10/2007

http://www.mundouniversitario.pt/docs/1448/_MU80.pdf

- Por que escolheram "Cintura" para nome do álbum?

MA: Francamente, porque a palavra nos pareceu muito bonita. Nós tínhamos, para este disco, várias hipóteses, o que é uma coisa rara. Esta palavra acabou por se impor sub-repticiamente nas votações que fomos fazendo, muito porque suava bem e porque graficamente era muito bonita. Uma coisa elegante e ao mesmo tempo enigmática, antiga, abstracta. Depois tinha ligações com algumas ideias fortes do disco, com a ideia de viagem de movimento. A cintura é o diâmetro que nos aguenta em pé enquanto nos mexemos, e o jogo de cintura mantém-nos equilibrados nas coisas que a vida nos traz: em todas as partidas e chegadas. Esta dança toda está à volta da cintura.

- O facto de terem apostado num álbum mais pop, mais dançável, está de alguma forma relacionado com o nome?

MA: Sim, essa dimensão mais física, mais sensual, mais dos sentidos é uma dimensão que nós quisemos potenciar em tudo, não só no título do disco, mas também na maneira como fomos trabalhando as fotografias, o grafismo, o guarda-roupa. Tudo aponta para esse aspecto mais festivo de nos sentirmos vivos e do espírito de aventura e de conquista.

Entrevista de ComUM - Jornal dos alunos de Ciências da Comunicação da Universidade do Minho

sexta-feira, 12 de março de 2010

Synth-o-matic


Synth-o-matic - Zoe (Ed. Autor, 2002)

No final, onze canções seriam escolhidas para integrar "Synth-o-matic", o primeiro álbum dos Zoë. "Synth-o-matic" reflecte uma dialética constante: a conjugação do analógico com o digital; do orgânico com o intangível; do acústico com o electrónico... Essa contraposição de opostos marca indelevelmente o disco e a própria banda, criando atmosferas que oscilam entre pequenas subtilezas do imaginário e duras realidades do quotidiano; entre tons de café amargo e o doce requinte de um gin tónico ao fim do dia; entre a alienação do tráfego e a cadeira de um velho clube de jazz à beira-mar.»

O nome do disco - Synth-o-matic - foi achado quase em desespero de causa. Quando já nada fazia crer que encontrássemos um nome para o disco, se calhar ia acabar por se chamar "Zoë", olhei para um pedal de efeitos e vi lá escrito "synth-o-matic", da forma como o escrevemos. É um efeito que se utiliza em guitarra ou voz. Achámos piada ao nome porque, no fundo, reflecte todo o disco. Todo o nosso trabalho é muito orgânico, analógico... os teclados são todos analógicos. É uma característica muito forte do disco, daí que tenhamos aproveitado para fazer o jogo da palavra e dizer que estas 11 canções eram sintomáticas do que os Zoë são.

quinta-feira, 11 de março de 2010

Kom-Tratake


Kom-Tratake - Lideres da Nova Mensagem (Vidisco, 1997)

Na capa de Kom-Tratake, uma ampulheta escorre um mundo em areia. Pio MC, dos Lideres da Nova Mensagem, diz que essa ampulheta encerra o nosso futuro: "Nós estamos no final do século e vê-se tanta podridão que é inevitável a sensação de que algo vai ter que mudar. foi o que tentamos exprimir na capa e no título, o Kom-tratake é dirigido a esse negativismo global.

Texto e entrevista de Carlos Mota / Sons - Público, 04/06/1997
A capa é da Mediacaos e os desenhos são do baixista Pedro Manaças. Em 1998 vendeu o baixo e deixou a música.

quarta-feira, 10 de março de 2010

Miradouro

Miradouro - Júlio Pereira (Transmédia, 1987)

Júlio Pereira imagina um mapa quando decide fazer este disco.

Inspirado por alguns elementos etno-musicais de cada uma das regiões de Portugal, compôe nove temas reunidos sob o título Miradouro.

Para tal, convida Henrique Cayatte para fazer as ilustrações, com base na documentação seleccionada por Hipólito Clemente [baseado no livro de Ernesto Veiga de Oliveira: "Instrumentos Musicais Populares Portugueses".].

O trabalho recebe posteriormente o disco de ouro; o mapa é solicitado por diversas escolas do País e, por este motivo, Júlio Pereira decide torná-lo disponível na Internet.



Nessa altura, lembrei-me de fazer um disco onde cada um dos temas fosse baseado nos elementos etno-musicais de cada uma das nossas regiões». Rapidamente lhe veio a ideia de ilustrar o projecto com um mapa, mostrando os instrumentos de cada uma das regiões.

Juntamente com o então director da Livraria Opinião, Hipólito Clemente, o designer gráfico Henrique Cayatte e o produtor musical Alberto Lopes, passou aos factos. E assim surgiu um mapa em papel, de 100X70cm, que acompanhou a edição do disco, ainda em vinil, com uma capa com recortes que permitiam vê-lo.

O objectivo do mapa «não é de todo fazer uma coisa altamente aprofundada, para especialistas, sobre etno-musicologia», sublinha Júlio Pereira. «O objectivo é exactamente o contrário». Pretende «satisfazer a curiosidade» das pessoas, apostando no conceito ‘sabia que…’. «Com rigor, mas de uma maneira acessível» a qualquer um, diz.

http://www.instituto-camoes.pt/encarte-jl/mapa-etno-musical-de-portugal-no-cvc.html


imagem:http://rateyourmusic.com/release/album/julio_pereira/miradouro/

terça-feira, 9 de março de 2010

Pop Yen


Pop Yen - Jaguar (CD, Farol, 2002)

- Porquê "Pop-Yen"?

A meu ver é um estilo de música. Nós sempre gostámos muito de pop mas, a certa altura, começamos a ter bastantes influências electrónicas e a ouvir algumas coisas vindas do Japão, como Cornelius e The Sound Museum, daí o "yen".

Nota: esteve para se chamar "First".

segunda-feira, 8 de março de 2010

Garage

Garage - Lovedstone (Norte Sul, 1996)

- Porque é que chamaram "Garage" a este vosso primeiro álbum? Por seu lado, na capa aparece um pneu. porquê tantas referências automobilísticas?

Pedro Galhoz - O nome "Garage" pretende ser um símbolo ou uma homenagem a todas as bandas de rock. A garagem, desde sempre, foi um símbolo do rock. Pode dizer-se que o rock nasceu na garagem, não é? Há música que nasceu no estúdio, há outra que nasceu na rua, mas o rock é da garagem. O pneu tem a ver com estrada e rock'n'roll. Quer o nome, quer a imagem que nós escolhemos são símbolos. Há imagens que simbolizam o rock'n'roll e acho que o pneu é uma delas, já gasto e rebentado, porque, ao fim e ao cabo, é o que os músicos de rock"n"roll sofrem. O "Garage" é também uma homenagem a todos os músicos portugueses e do mundo que tocam rock"n"roll.
Mário Gomes -- As grandes (e as pequenas) bandas de sempre começaram a ensaiar numa garagem. Os Lovedstone também começaram assim. Este ano, contabilizando estatiscamente as coisas, a maior parte do tempo da nossa vida foi passado naquela garagem.

Entrevista de Miguel Francisco Cadete, Blitz

sexta-feira, 5 de março de 2010

Bairro

Bairro - Raquel Tavares (Movieplay, 2008)

Que Bairro vamos encontrar no novo trabalho?

Bairro não simboliza apenas aquilo a que chamamos bairro típico, é também o sítio onde cada um de nós nasceu, criou as suas raízes, a sua essência, os seus valores. É o berço de cada um de nós. O meu berço é o bairro do Alto Pina, muito embora tenha conhecido e vivido intensamente outros bairros, nomeadamente o bairro de Alfama, que é onde moro actualmente. E é de todas as recordações que tenho destes bairros que trata este disco. Os sítios por onde passei, as pessoas que conheci, as infindas noites de fado, o fado amador, as colectividades, as tasquinhas, os restaurantes que dão fado de quando em quando, enfim, retrata um pouco do meu percurso no fado ao longo destes 16 anos.

Entrevista de Hugo Torres / Rascunho, 15/05/2008

http://www.rasarte.net/artigo.php?id=2025

quinta-feira, 4 de março de 2010

A Vida dos Outros

A Vida dos Outros - Anaquim (Universal, 2010)

- Depois de 4 anos do início do projecto, só agora surgiu um álbum. Porquê?

Porque as coisas foram maturando quase como uma colheita de vinho. A música foi amadurecendo tanto na maneira como a apresentamos em palco como nos arranjos e letras. Agora achámos que estavam prontas a apresentar.

- Este álbum é a continuação do EP que lançaram?

Sim! Aliás, essa já era a intenção quando demos o título de Prólogo ao EP.

- Que história está por detrás do título do álbum?

A história é a mesma que dá a génese à personagem. O Anaquim é suposto ser um duende, de molas nos pés para poder desaparecer rapidamente, que cai na terra sem passado. É um duende que não interage com as pessoas, fica apenas no papel de observador. Depois escreve as crónicas sobre o que vê, sem ter o peso de um passado ou de uma tradição e, assim, poder julgar de maneira imparcial o que desenrola à volta dele.

Entrevista de Inês Carranca / Destak, 01/03/2010

quarta-feira, 3 de março de 2010

1970

1970 - J.P. Simões (Norte Sul, 2007)

- Sabe-se que o disco se chama "1970" porque foi o ano em que nasceste e pelo regressar a um certo purismo. Como foi encontrar o futuro nos anos 70?

O passado e o futuro são duas ficções que vivem numa tensão permanente quando se procura determinar o fio que as une. A imaginação, lugar dessa tensão, não tem restrições cronológicas, apenas nos dá pistas vagas sobre o estado dos nossos afectos numa determinada circunstância. O futuro é para onde o teu afecto se dirige.

Entrevista de André Gomes/Bodyspace, 25/01/2007

Já há alguns anos que eu andava à procura de uma casa no som que fosse mais parecida com o que eu gostava e que me permitisse juntar as minhas histórias meio letárgicas, meio amnésicas a um balanço mais vital que sinto mais como o meu pulsar do que a forma portuguesa de fazer canções. Também tem a ver com anos e anos a ouvir Chico Buarque de uma maneira talvez exagerada. Pensei: já que vou fazer um disco sozinho, vou fazer um disco simples, uma coisa que ando há muito tempo para fazer, um luso-samba. Onde está o meu futuro? Em 1970.
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Foi o que me ocorreu. Este disco é uma coisa muito artesanal, sem máquinas, com coros naturalistas como nos anos 70, com construções muito Chico Buarque, Tom Jobim... aquilo foi pensado como qualquer coisa de ficção científica, como se, no ano em que nasci, tivesse a idade que tenho... a imaginar que o nosso desenvolvimento cultural era diferente, que éramos pessoas que absorvíamos e transformávamos... com aqueles dois lados: o que sorve tudo, se mimetiza em tudo e ama as coisas novas quase com desespero, com uma alegria violenta, e o contraponto disso que é manter tradições mortas, direitinhas, como uma espécie de vínculo à terra. Eu tentei depurar esses elementos todos, há uma série de pormenores nos arranjos que particularizam aquilo, que põem uma sombra no morro. Esta foi uma primeira experiência. Eu ainda quero ir para algum lado a partir daqui onde encontrasse a minha toada. Tentar recomeçar a partir do sítio onde, há trinta e tal anos, deixámos as coisas mais ou menos auspiciosas e que, depois, esquecemos um bocado.

Entrevista de João Lisboa / Expresso

terça-feira, 2 de março de 2010

Um Amor Infinito


Um Amor Infinito - Madredeus (EMI, 2004)

O novo álbum dos Madredeus, «Um Amor Infinito», é ao mesmo tempo o fechar de um ciclo e um agradecimento aos seus fãs e à sua cidade de origem, Lisboa. A palavra a Pedro Ayres Magalhães...

«Um Amor Infinito» é o novo conjunto de canções dos Madredeus. Canções que falam, algumas delas, de Lisboa, cidade que assistiu ao nascimento do grupo mas que, ao longo de anos de viagens contínuas, só de vez em quando é morada habitual de alguns dos músicos dos Madredeus. Não por acaso, «Um Amor Infinito» tem um sub-título, em letras mais pequeninas, «Lisboa 2004». Diz Pedro Ayres (fundador, guitarrista e ainda o principal compositor do grupo): «É como se fosse a assinatura de um quadro... Nós temos o desidério de fazer uma música universal, de tocar para muitos públicos diferentes, mas as nossas obras correspondem a um período, como se fosse o período de um pintor ou de um escultor ou de um fotógrafo». E, antes ainda de explicar este reacender da paixão por Lisboa, Pedro explica o conceito de «período artístico»: «Isto pressupõe a existência de um atelier, de uma oficina, em constante aperfeiçoamento, e em que cada período cria um reportório para si próprio que tenta satisfazer melhor que o anterior as características estilísticas, históricas, do grupo, e as actuais». E Lisboa?... «Neste caso, o disco foi gravado em Lisboa - o nosso último disco que tinha sido gravado em Lisboa foi o «Existir» [1990] - e corresponde a uma mudança de estratégia do grupo: antes do «Movimento» tocávamos o ano todo ininterruptamente, e a partir do «Movimento», o grupo, para se manter unido, decidiu só tocar 15 dias por mês. E esta fase é aquilo que eu chamo "a fase do acampamento em Lisboa". E isso tornou-nos, de novo, cidadãos de Lisboa, porque há anos que não púnhamos cá os pés. Este disco tem treze canções, mas ficaram muitas de fora: em cada disco, que acaba por ser o reportório de concerto que vamos apresentar a seguir, preparamos sempre outras canções para o concerto que não entram no disco. E neste reportório estão canções inspiradas ou dedicadas a Lisboa, e estão também canções destinadas à juventude de todo o mundo, um pouco como a "Canção aos Novos", como agradecimento a todos aqueles que nos ouviram e acarinharam ao longo destes anos todos...».

O reportório de «Um Amor Infinito» é, na prática, o reportório do quinto concerto apresentar pelos Madredeus. Um disco - e a digressão que aí vem - que marca, também o fechar de um ciclo do grupo: «Temos a sensação de que o grupo vai ter que, depois disto, renovar-se de alguma forma. Neste disco atingimos a mais sofisticada criatividade que é possível dentro do contexto de desenvolvimento deste grupo. Não vejo isto como chegar aos nossos limites, mas mais como chegar aos limites do tempo... Nunca soubemos o nosso futuro, como ainda não sabemos... e quis escrever uma canção chamada "Um Amor Infinito" porque quis que ficasse na memória do nosso público como o agradecimento final dos Madredeus, a grande vénia ao extraordinário estímulo que recebemos de tantas minorias em tantos lugares do mundo - e falo em minorias porque o Madredeus é um grupo completamente fora do mainstream: é um grupo sem bateria, que canta em português... mas que foi recebido nos grandes teatros do mundo para apresentar todos os seus concertos... Os Madredeus, em quase todo o lado, são só conhecidos por algumas elites: veja-se, por exemplo, a relação da comunidade emigrante portuguesa com os Madredeus, que é praticamente nula; nós tocamos em Paris, por exemplo, e há portugueses mas há muitos mais franceses...».

O conceito por trás do álbum não se cinge, no entanto, às duas vertentes já referidas. O instrumental «O Olival» passa por músicas de várias épocas e vários lugares e tem, segundo Pedro Ayres, um objectivo que pode ser traduzível por palavras: «A oliveira é a árvore de Jerusalém, do Médio Oriente... O símbolo dos Templários era uma folha de oliveira e a minha inspiração para esse tema veio da linha de castelos templários ao longo da fronteira portuguesa... e seguindo essa linha percebe-se onde estava o agressor, percebe-se que não estava do lado de cá porque os castelos eram construídos para defesa. E fiz esse tema também para chamar a atenção para o estado de muitos desses castelos, que estão em ruínas, largados ao abandono, e que deveriam ser recuperados. Poderiam ser um chamariz turístico valiosíssimo, com gente de toda a Europa a vir visitar o roteiro dos castelos dos Templários: mais do que o vinho, mais do que a praia, mais do que o Manuelino...».

Essa preocupação com o passado e com a História de Portugal não é estranha a todo o percurso criativo dos Madredeus: «Sim, os Madredeus continuam a encenar a Saudade: são uma mulher [Teresa Salgueiro] sozinha em palco com os músicos lá atrás a fazer uma música que emula o mar, que emula o vento; e aquela mulher espera que alguma coisa aconteça, não se sabe muito bem o quê...». E acrescenta: «A música dos Madredeus é toda feita para a Teresa: ou quando ela canta, ou quando ela se cala... E todo o reportório dos Madredeus pode ser visto como se fosse uma colecção de vestidos para a Teresa. E numa certa época fica-lhe bem o amarelo, e noutra época fica-lhe bem o azul... Eu, como director artístico do grupo, tento ser sempre sensível quando escolho as canções que vamos levar para o palco e/ou para as gravações. Para além de que a identificação dos Madredeus ao passado é feito através da Teresa, e das duas guitarras clássicas, mas principalmente da Teresa».

Texto e entrevista de António Pires / Blitz, Maio de 2004

Os discos «Um Amor Infinito» e «Faluas do Tejo» (editado em 2005) foram registados nas mesmas sessões de gravação.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Enter

Enter - Hipnótica (Nortesul, 1999)

- Como é que surgiu a colaboração com o Luís Caldeira [responsável pela excelente produção de "Enter"]?

O Luís é um amigo nosso de há alguns anos. Há cerca de oito anos que o conhecemos. Na altura em que o projecto se estava a iniciar, também ele se estava a iniciar. Tinha acabado de voltar dos EUA, onde fez um curso de engenheiro de som, tendo começado a trabalhar para a Valentim de Carvalho. Desde essa altura que ele vem acompanhando o projecto, as ideias, a intimidade, a química e os caminhos e eu acho que esse envolvimento foi fundamental para o resultado final. Acho que se fosse com outra pessoa, quer portuguesa, quer estrangeira, era impossível atingir o mesmo nível de cumplicidade. Não digo que o disco seria melhor ou pior com outra pessoa, mas não seria igual. E não imagino sequer outra pessoa neste momento. Logo desde cedo estava estabelecido que o Luís era a pessoa. Foi ele também que nos produziu o nosso EP. Na nossa cabeça era algo que estava já planeado. E o mesmo aconteceu com os gráficos, os Barbara Says, com os quais a relação é muito semelhante. Os Barbara Says acompanhavam-nos já desde antes do início do projecto. É uma relação muito particular, em que o grafismo estimula a nossa própria música, como quando eles aparecem com cartazes, flyers, etc., ou então o contrário, em que eles reagem às nossa músicas novas. E então há ali uma efervescência que é difícil de acontecer. No fundo, temos sorte. Conseguimos juntar todas estas vertentes complementares com pessoas com as quais nos identificamos.

- Como surgiu esta ligação com a arquitectura, já patente na imagem dos Hipnótica desde o EP?

Surgiu das inúmeras conversas com os Barbara Says. Aí, mais uma vez, é a música a estimular a parte gráfica. O título "Buildings Above Them", que era para ter sido o título do EP, foi, se calhar, um dos títulos que marcaram os Barbara Says e todo um caminho gráfico, tem um forte impacto visual. A partir daí foi jogar com isso. E depois foi o grafismo a estimular a música. As estruturas dos prédios fizeram-nos lembrar ligações e estruturas invisíveis que aparentemente não estão lá, mas que são a sustentação disto tudo. Eles [Barbara Says] alimentaram-nos esse conceito das ligações invisíveis, que é uma ideia que nós aproveitámos para o disco, e temas como, por exemplo, "Islands... Connect", em que nós vemos as pessoas como ilhas, um pouco perdidas na cidade, havendo aquela necessidade de ligação, como se fosse uma rede virtual. É um bom exemplo de como essa troca criativa que de outra forma não aconteceria. Se estivessemos a trabalhar com gráficos que nem sequer nos conhecessem é óbvio que não alcançaríamos este nível de cumplicidade.

Entrevista de Vitor Junqueira / Musicnet, Dezembro de 1999

O primeiro álbum chama-se "Enter" porque deve ser entendido como uma viagem ao universo dos Hipnótica.