domingo, 28 de fevereiro de 2010

Rádio Alegria

Rádio Alegria - Os Azeitonas (Maria Records, 2008)

Portugal Rebelde - "Rádio Alegria" é o 2º trabalho de Os Azeitonas. A que se ficou a dever este título para o vosso regresso aos discos?

Araújo Jorge - O nome do disco deve-se à morada da nossa sala de ensaios. Fica na Rua da Alegria, no Porto, e já há uns anos que cultivamos a fantasia de criar a nossa própria rádio pirata. A nossa ideia da "Rádio Alegria" já tem uns anos. À medida que fomos encarando a realidade e desistindo da ideia, resolvemos criar uma rádio imaginária, em disco. O disco já estava composto e parcialmente gravado quando o baptizamos assim. Foi a maneira de dar vida a essa fantasia, e é para isso que servem os discos.

P.R. - "Rádio Alegria", conta com algumas participações especiais. Queres falar-nos um pouco desses convidados?

AJ - A forma que encontramos de dar consistência ao conceito de "rádio alegria" foi transformar o disco todo numa transmissão virtual. Para isso, era necessário um "locutor". Lembramo-nos logo do António Sala, mas isso não foi possivel. O Rui Veloso sugeriu o Paulino Coelho, também da renascença. Também participa o Joao Francisco Guerreiro, jornalista.(...)

http://portugalrebelde.blogspot.com/2008/01/os-azeitonas-discurso-directo.html

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Guerrilheiro

Guerrilheiro - Kussondula (Zona Música, 2006)

- Com tantas mensagens de paz que o álbum tem, porque é que se chama "Guerrilheiro"?

Somos guerrilheiros da paz (risos)... É uma referência à História de Angola, que está cheia de guerrilheiros. E também a uma canção do primeiro álbum [6ª faixa do disco "Tá-se Bem"] dos Kussondulola, que se chamava "Guerrilheiro", que por sua vez é uma homenagem a um cantor clássico da música angolana, David Zé, que foi morto na guerra. E eu sinto-me um pouco guerrilheiro, mas um guerrilheiro-artista, com uma abordagem da política através da arte. E, ao fim deste tempo todo a divulgar o reggae, achámos que a nossa luta, dos Kussondulola, é uma luta de guerrilha. Assim como decidimos chamar à nossa digressão, a digressão do Mayombe, em homenagem à floresta angolana com esse nome – temos que vir da floresta falar às pessoas das cidades...

Entrevista de António Pires/Blitz, Abril de 2006

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Rocky Grounds, Big Sky

Rocky Grounds, Big Sky - Unplayabe Sofa Guitar (Borland/Subotnick, 2005)
«Desde a lírica à estrutura das canções, o tipo de melodias, a forma de tocar. Há um conceito em tudo neste álbum» E o primeiro conceito é o do próprio título, que retrata «aquela zona de desertos muito pedregosa junto às Montanhas Rochosas, como também temos aqui no Norte, por exemplo, na Serra d'Arga, se te esqueceres que estás no alto de uma serra, é um bocado como o Dakota Sul».

Entrevista de Eduardo Sardinha / Blitz, 15/03/2005

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Le Jeu


Le Jeu - Balla (Music Mob, 2003)

- O segundo registo dos Balla, “Le jeu”, apresenta-se com novas influências e perspectivas. Como se deu esta evolução?

As coisas vão acontecendo naturalmente. Para fazer um disco preciso de encontar motivação e isso faz parte do processo natural da criação. O que ouves no “Le jeu” era uma ideia já tinha há algum tempo embora nunca a tivesse concretizado. Achei que agora seria o momento certo.

- Passados dez anos ligado à música nos mais variados projectos, em grupo ou individualmente, a verdade é que continuas um pouco à margem, na cena alternativa, e acabas por não chegar à linha da frente... ou não te deixas levar?

(risos) Pois, mas isso de não estar na linha da frente pode não ser necessariamente mau. Se calhar não é bem isso que eu quero. Fico satisfeito se a minha música cheguar às pessoas que gostam deste tipo de música. Por norma, não me costumo queixar em relação a nada. Quero continuar a ter inspiração para fazer música. Não gosto de me sentir pressionado, por exemplo, para ter um single que passe nas rádios. No “Le jeu” procurei eliminar todos os possíveis singles porque sou contra esses formatos. Se calhar até tinha essas canções, se calhar até caí nessa sonoridade obvia para single, mas foi precisamente esse tipo de temas que eu evitei.

- A capa do álbum é no mínimo curiosa. Há dois anos o Nathaniel Merriweather, mais conhecido por Dan the Automator (produtor dos Gorillaz), editou um álbum em que a capa era muito parecida. Porquê? Para caricaturar a capa do álbum do francês Serge Gainsbourg. É uma trilogia de imagens ou também há influências sonoras?

Bem, em relação à capa a ideia foi criar uma espécie de capa standard. O remake do original foi feito primeiro pelo Dan the Automator e agora por nós. Ao criarmos essa tal capa standard, se é que isto é possível, a ideia é levar as pessoas a identificarem o ambiente que nós quisemos incluir nos discos. No caso do “Le jeu”, a capa só surgiu depois do álbum mas encaixou bem com o que a música sugere. Mas em termos musicais não são necessariamente as mesmas inspirações. Do Dan the Automator inspira-me a vertente de produtor e a maneira como trabalha tecnicamente. Já em relação ao Serge Gainsbourg, e apesar de ele ser a imagem do ambiente que quis recriar, ele não é necessariamente a minha maior inflência como compositor.

- Então foi mais pela imagem?

Muitas vezes uma capa de um disco inspira-me mais que propriamente a música que lá está dentro.

- Qual é a interpretação que fazes destas capas?

Para mim, a capa original do Serge Gainsbourg é o espelho do que é a música. Já o Dan the Automator fez isto nitidamente para gozar. A minha capa foi intencional e acho que se identifica muito com o disco.

- Convidaste a Sylvie C. para interpretar alguns dos temas. A escolha de uma vocalista francesa foi propositada?

Tive sempre a vontade de fazer um álbum com estas características mas, para isso, precisava de uma cantora francesa porque é esta a língua que me inspira neste momento. Embora a Sylvie C. estivesse num projecto que não tem muito a ver com o que ela faz aqui, ela percebeu rapidamente qual o ambiente que eu queria neste disco e começamos a trabalhar. A ideia era, antes de mais nada, servir as cançoes que já existiam enquadrando a voz sem contrariar o ambiente idealizado.

Entrevista de Joana Brandão / PJ, 14/06/2003

- Uma das principais diferenças entre este álbum e o anterior é a sua consistência, ao nível dos ambientes e de um certo imaginário ancorado na música francesa e nas bandas sonoras para filmes. Essa unidade foi procurada?

Pelo facto de o outro ter sido lançado por uma editora maior [NorteSul], existiu da minha parte uma certa tentação de criar um ou outro tema com características de "single". No novo álbum não tive essas preocupações. Pelo contrário, os temas que poderiam constituir potenciais "singles" foram deixados de lado porque prejudicavam a coerência que pretendia atribuir ao disco. Nesse sentido, houve uma preocupação em desenvolver os temas que faziam sentido em termos de conjunto.

- O disco anterior era mais pessoal. De alguma forma, havia uma maior exposição - inclusive dedicava-o à sua mãe. Em "Le Jeu" parece assumir um maior artifício ou uma costela ficcional.

Todos os discos que faço são dedicados à minha mãe... Mas este álbum não é tão pessoal. É um disco onde criei personagens. Por outro lado, o facto de a Sylvie ter criado as suas próprias histórias e de ter interpretado os temas à sua maneira - de forma diversa da minha - transformou-o num objecto diferente do anterior. Menos centrado em mim. É um disco onde existe uma aposta mais deliberada no lado estético e, nesse sentido, não reflecte o meu mundo interior de forma tão directa. Mas não é um disco "falso" ou menos sentido - até pelo facto de conter pontos em comum com anteriores projectos meus. Acredito plenamente nele.

- Como se conheceram e qual foi a importância da Sylvie C. no processo de criação do álbum?

Vi-a num espectáculo do seu projecto, Cabaret LX, onde ela utilizava muitas referências ao "swing" francês e onde cantava temas da Edith Piaf. A maneira dela cantar nesse contexto é muito diferente daquela que se pode ouvir no disco, mas o facto de ter imaginado uma voz feminina francesa para os temas que andava a criar - inspirado pelos duetos das bandas sonoras eróticas dos anos 70 - fez-me acreditar que a Sylvie poderia ser essa pessoa. Quando começámos a trabalhar ela teve alguma dificuldade em entrar nos temas. Achava-os superficiais em comparação com uma certa teatralidade a que estava habituada, mas depois de lhe ter dado a ouvir discos dos Boris Ex-Machina de 1996 ela percebeu que essa teatralidade já tinha sido explorada anteriormente. Agora, procurava outra coisa e ela conseguiu chegar lá.

- Como funcionaram os dois em termos de dinâmica de trabalho? Tinha as ideias, desenvolvi-as e tentava transmiti-las?

Fazia as músicas, colocava as minhas partes de voz e, ela, em momentos de improviso ou depois de falarmos um pouco, cantava por cima. O primeiro tema que completámos, "A meu favor", foi construído de forma espontânea com ela a improvisar. Colou a sua voz à minha como sentia naquele momento, sem nenhuma direcção. Na maior parte dos casos, criava a estrutura sonora, dava-lhe e ela desenvolvia a sua parte.

- Existiram algumas resistências em relação ao primeiro álbum de Balla provocadas pela sua voz. Neste disco surge diferente, com uma voz mais ajustada. Teve alguma preocupação especial com esse aspecto?

É difícil encarar esse assunto de forma despreocupada quando se teve tantas críticas, não é? Desta feita, não usei a voz para "dizer" texto. Fiz apenas aquilo que sentia que devia fazer e fui mais intuitivo. Insisto em cantar porque nem sempre é fácil transmitir as ideias a outra pessoa. São coisas que vêm de dentro. Mas, em relação às vozes, estou muito satisfeito com os resultados obtidos e sinto que evolui.

- Neste disco assume uma série de referências, o que nos conduz a uma das grandes discussões na música actual: a fronteira, muitas vezes invísivel, entre cópia e citação.

Estou à vontade para defender as citações porque não as encaro como um mero decalque. A citação mais óbvia e aquela que a maior parte das pessoas refere é Serge Gainsbourg, mas a verdade é que não tive qualquer preocupação em ouvir os seus discos. Quando parto para a feitura de um disco gosto de criar ambientes que funcionem como linha condutora para aquilo que vai ser desenvolvido. Mais do que citações directas, interessa-me a criação de ambientes. E é interessante porque essas atmosferas têm mais a ver com cinema do que propriamente com este ou aquele disco. Ou seja, aquilo que me interessa verdadeiramente é a criação de um imaginário. Apreendê-lo, entendê-lo e, depois, criar algo a partir dele.

- A propósito de "Le Jeu" podemos falar de Gainsbourg e da música francesa do passado mas também naqueles que se inspiraram nela mais recentemente como os Air dos primeiros tempos ou Bertrand Burgalat, não lhe parece?

A maior influência do disco nem sequer é o Gainsbourg. Serão coisas mais ligeiras como o Pierre Bachelet que compôs a banda sonora do filme "Emmanuelle I" e alguns compositores italianos, dos quais nem sequer sei o nome. Em relação aos Air e a Burgalat, são coisas de que gosto... De qualquer forma, de há uns anos a esta parte, a redescoberta do passado da música popular transformou-se num acontecimento global. Existe uma partilha de influências pelo mundo inteiro. Recordo-me dos Jazzanova falarem, há alguns anos, da forma como utilizavam "lixo" para criar a sua música, numa alusão à matéria-prima que utilizavam. No início sentia o mesmo.

- De alguma forma, a capa do disco funciona como um jogo de citações porque existe uma alusão óbvia a uma capa de Serge Gainsbourg. De quem foi a ideia?

A ideia foi da editora Music Mob e do João [Santos], da Ananana. A capa já tinha sido glosada pelo Dan The Automator [no álbum "Lovage", assinado como Nathaniel Merriweather] e achámos piada fazê-lo também, por uma razão simples: a capa do Gainsbourg é um símbolo, é uma espécie de clássico e toda a gente a conhece. Ou seja, não existe o perigo de alguém olhar para aquilo como uma espécie de citação disfarçada. É um mero piscar de olho. Apesar de não ser o melhor álbum de Gainsbourg, ambos os discos me marcaram. Talvez até mais o do Automator.

Entrevista de Victor Belanciano / Publico, 16/05/2003


terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Avatara


Avatara - Blasted Mechanism (Metrodiscos, 2005)

Depois de «Namaste» (ou, em sânscrito, «o Divino que vive em ti»), os Blasted Mechanism dão-nos mais um capítulo da saga que começaram a escrever há alguns anos: «Avatara» (ou, em sânscrito, «o Descendente de Deus incarnado»). Se calhar, não é mesmo por acaso que que o novo álbum da banda está cheio de sitars, unindo raggas jamaicanos às ragas indianas.

Valdjiu e Ary - os dois Blasted que falam nesta entrevista - começam por explicar o que liga, tematicamente, o novo álbum, «Avatara», ao anterior, «Namaste» e em que fase da «grande narrativa» Blasted é que estamos agora. Diz Valdjiu: «"Avatara" é um conceito que transporta, em si, o espírito daquilo que os Blasted sentem em relação à vida e à música. "Avatara" está presente em muitas culturas ancestrais e actuais, inclusive na portuguesa. Significa "Aquele que vem"...». Tem, portanto, algo de messiânico e de sebastiânico, até... «Sim, é o "Encoberto" e é alguém que vem transmitir uma nova consciência cósmica. Chegámos ao "Avatara" através de uma filosofia chamada Eubiose...». Na ficção dos Blasted, «Avatara» surge na sequência lógica da «fase da recolha e da tutoria dos bébés-diamantes (presente em "Namaste"), que vieram para sincronizar o Homem com o mecanismo cósmico». E acrescenta Ary: «Traduzido à letra, "Avatara", é um Messias, mas para nós é mais a ideia da concretização de uma "conspiração", aqui no bom sentido, que tem como objectivo, através do "Avatara", termos todos a consciência global de que temos que mudar a maneira como encaramos o tempo, o calendário, e como mecanizamos a nossa vida ao ponto de perdermos quase completamente o nosso lado espiritual».

Texto e Entrevista de António Pires / Blitz, Março/2005

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Como Sempre... Como Dantes

Como Sempre... Como Dantes - Camané (EMI, 2003)

- Apesar de este ser oficialmente o álbum ao vivo de Camané, o primeiro disco, "Uma Noite de Fados", de 1995, também foi registado em directo. Esta opção tem a ver com a queixa, frequente entre os fadistas, que diz ser o estúdio um habitat pouco natural para o fado?

No meu primeiro disco houve essa opção de forma muito clara. Neste já não houve tanto essa preocupação. A ideia foi fazer um apanhado daquilo que fiz durante estes anos e mostrar as diferenças de um espectáculo ao vivo em palco e numa casa de fados, ou seja, em ambientes diferentes.

- Serve então como um cartão de visita de uma carreira?

Também, apesar de não ser aquele disco ao vivo gravado numa única sala. Optámos por deixar no disco aquela fúria do público nos espectáculos do Centro Cultural de Belém, em Lisboa, mas procurámos também a concentração e a vontade de descoberta que se nota num público estrangeiro, como o belga. E fizemos incluir gravações captadas na casa de fados O Embuçado, durante as comemorações do seu 40º aniversário. Resolvemos gravar e, quando fomos ouvir, percebemos que também ali o ambiente era diferente, que o som é muito mais cru.

- O título, "Como Sempre... Como Dantes", tem uma intenção provocatória...

O título, como já vem sendo costume nos meus álbuns, foi retirado de uma letra, de um poema de Júlio de Sousa. Como este disco define aquilo que tenho feito, acho que é bem achado. "Como Dantes" é "O Embuçado", uma casa de fados. "Como Sempre" é o que é.

- Portanto, não se refere ao fado como algo imutável.

Não, refere-se a mim. Tem a ver comigo e com a minha forma de estar no fado. Não representa o fado. É o meu fado

Entrevista de Miguel Francisco Cadete/Público, 28/11/2003

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Mappa do Coração

Mappa do Coração - Vozes da Rádio (BMG, 1997)

Pedro Lobo, um dos mais conceituados fotógrafos da nossa cidade, tirou-nos fotos para o booklet do "Mappa do Coração", em Maio de 1997.

A capa do disco, concebida pelo Pedro Almeida, foi baseada em dois postais que a minha mãe guardou religiosamente durante décadas. (Joca)


quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

XIII

XIII - Xutos & Pontapés (EMI, 2001)

Como se vai chamar o novo álbum que sairá em Maio?

"XIII". É o 13º e achamos que é o fechar de um ciclo, porque o 13 está sempre a surgir. E temos também o X dos Xutos, é giro.

Entrevista de Telma Miguel e Vítor Rainho/Expresso, 07/04/2001

Voxpop - Vocês não são nada supersticiosos, pois não? Quem tem coragem para pôr um título destes, "XIII", não pode ser supersticioso...

Zé Pedro - Cada um tem os seus amuletos, é normal e humano. Eu, por exemplo, tenho estas pulseiras todas, que acho que me dão sorte. Pelo menos, dão-me uma certa energia. E o treze sempre foi um número carismático para os Xutos - o primeiro concerto que demos, e que é considerado o nosso aniversário, foi a 13 de Janeiro, nos Alunos de Apolo, quando os Faíscas acabaram e o Pedro Ayres Magalhães (que militava nos Faíscas) passou-me o testemunho. Depois, alguém se lembrou de pôr o título em romano, que se torna giro porque fica com o X, o que é místico. As pessoas associam o treze ao azar, o que nunca aconteceu connosco. Mesmo ao longo da nossa história, quando havia uma sexta-feira 13 de lua cheia, para nós era o máximo (risos). Na altura do Rock Rendez-Vous, lembro-me perfeitamente de uma célebre noite negra de sexta-feira 13 lua cheia, em que tocámos com os GNR. Para nós o treze é um número positivo. O que é engraçado é que, apesar do título "XIII", este não é o nosso décimo terceiro disco. A contar com este álbum, temos nove discos de originais e três ao vivo. Se realmente contarmos com a colectânea "Vida Malvada", o "XIII" é o nosso décimo terceiro disco. Mas para todos efeitos, "Vida Malvada" é apenas uma colectânea...

Entrevista de Gonçalo Palma/Voxpop, 19/06/2001

DN+ - A vossa discografia está cheia de números: o "7º single", o "88", o "1º de Agosto", agora o "13". Dá-vos sorte?

Zé Pedro - O 13 é para nós um bocado místico.Há sempre o 13 de janeiro que é uma data na qual comemorámos o aniversário... Realmente a escolha do número 13 para este disco, aconteceu sem nenhuma razão em especial, e quando fomos fazer as contas o 13 nem sequer acertava com a nossa discografia. (...) foi um trabalho muito solto. O 13 acabou por surgir como número de combate, lá escrito nas folhas, e acabou por ficar.. É um número ao qual nos ligamos bastante.

Zé Pedro - (...) Há uma lacuna neste disco, e a culpa foi minha, que é a décima terceira faixa. Há onze originais, a faixa do Mário Laginha, que será a décima segunda, mas falta uma que era a que tinha justificação com o título mas não consegui. Mas ainda vamos tentar resolver isso e, portanto, ainda há esse espaço em aberto.

Entrevista de Eurico Nobre ao DN+ 02/06/2001

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Namaste


Namaste - Blasted Mechanism (Metrodiscos, 2003)

O que é que significa «Namaste» (NR: leia-se «Namastê»)? Tem alguma coisa a ver com a palavra em sânscrito que significa «o Divino que vive em ti»?

É isso mesmo. E é uma saudação. Para nós, é uma saudação à Humanidade, como se nós nos curvássemos perante a Divindade dos seres humanos. Em 1986 os Blasted criaram um conceito, uma história ficcional, que tem tido desenvolvimentos. Houve uma raça de seres de outro planeta que aportou à Terra. Houve o desenvolver de seres vindos de um ambiente aquático e que povoaram a Terra. Agora, há seres que estão espalhados pelo planeta e que ninguém sabe quem são - os bebés-diamantes - que poderão levar o planeta a uma nova dimensão. Os bebés-diamantes, que têm sido estudados pela cultura nepalesa, são mentes altamente predispostas para fazer a mudança da Humanidade, uma mudança de modo de vida, de mentalidades, de conceitos. Na nossa ficção, os Blasted anunciam a chegada, preparam o terreno, dessas crianças-diamantes... E esta ficção poderá passar para uma narrativa, em banda-desenhada, proximamente.

Entrevista de António Pires / Blitz, Fev/2003

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Julho, 13

Julho, 13 - UHF (Edisom, 1990)

Primeiro o espectáculo. Agendado para o fim de semana em que os Rolling Stones fizeram rolar rock em Alvalade, acabou por ser adiado para o próximo dia 13 deste mês, numa sexta-feira que se espera liberta de sentimentos aziagos. Com a duração aproximada de duas horas, este concerto levará os UHF a pisarem um terreno que lhes é por demais familiar, o palco da Sociedade Incrível Almadense. Em Almada pois claro!

Introdução da entrevista de Maria João Lourenço / TV Guia aos UHF em Julho/1990

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Pois Canté

Pois Canté - GAC - Vozes Na Luta (Vozes Na Luta, 1976)

O GAC-Grupo de Acção Cultural, nasceu das cinzas do CAC-Colectivo de Acção Cultural. O CAC formou-se seis dias depois do golpe de Estado do 25 de Abril, mais precisamente na madrugada do 1º de Maio. Ou, mais precisamente, “no dia 30 de Abril, à noite, no dia em que cheguei de França, na casa, salvo erro, do José Jorge Letria” – recorda José Mário Branco. O antifascismo estava na ordem do dia, do minuto, do segundo.

José Mário Branco - "Pois Canté!" é uma expressão beirã, trazida para o grupo por Fernando Laranjeira, que significa ‘Então não há-de ser?!’.

Entrevista de Fernando Magalhães / Público, 6/12/1995

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Ulisses

Ulisses - Cristina Branco (Universal, 2006)

- Definiu "Ulisses", o seu último registo, como um "disco de viagens, encontros e desencontros". Este disco funciona como o retomar do rumo que desejava?
Nunca fiz um desvio ao curso natural das coisas. Também nunca tracei rotas, é certo! Ulisses é a consequência de tudo o que já cantei, já ouvi, pessoas que conheci, culturas… tudo! Ulisses sou eu e não a Penélope. Sou eu que parto e quero mais. A curiosidade e necessidade de conhecer é fértil e imparável no meu. É tudo assumido.

- Em Ulisses o fado tem menos expressão do que em registos anteriores. Como surgiu a aproximação a outros registos musicais? Considera-se ainda, apesar do conteúdo mais universalista de Ulisses, uma fadista?

A proposta é mesmo a viagem, assim à descarada! Não há fado em Ulisses, no entanto ele está sempre lá. A própria viagem já é fado, saudade. Cheira tudo a mar, a destino. Foi essa a ideia, brincar com a nossa temática trágica e universalizar. Mesmo o tema "Gaivota", aparece enquanto referência ao meu avô, porque me costumava "dizer" esse poema quando eu era pequena.
- Além da universalidade das canções, Ulisses possui uma universalidade de linguagens: português, francês, inglês, espanhol e até o português do Brasil. A juntar a tudo isto, no booklet de Ulisses as letras das canções surgem em português, inglês e francês. A universalização da palavra é uma preocupação sua?

Desde sempre. Não por necessidade pessoal, mas sempre cantei para públicos estrangeiros e estes sempre tiveram a curiosidade de perceber o que vai sendo dito. Parece-me lógico, a partir da compreensão do conteúdo partem para a compreensão do sentido de todo aquele acto cénico, da força da língua portuguesa e do peso que tem na música… e é então que surge o fado. Chamem-lhe o que quiserem.

Entrevista de André Gomes/Body Space, 23/06/2006

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Todos os Dias Fossem Estes/Outros

Todos os Dias Fossem Estes / Outros - Nuno Prata (Turbina, 2006)

Que dias preferes, estes … ou os outros?

Depende das alturas… Normalmente são estes os dias que eu quero, em que estou a fazer música. E é isso que me dá realmente prazer. Mas tal não me impede de me lembrar dos “outros” dias, dias que não existiram ou em que poderia ter vivido situações diferentes que não experimentei por estar a viver “estes” dias…

O título não sugere então um paralelo entre o passado e o presente, entre o Nuno Prata a solo e…?

Ah… pois, isso… [risos] É possível imaginar muitos significados para este título e fico surpreendido com as diferentes teorias que apresentam e que por vezes são mais elaboradas e criativas do que a verdadeira. Mas não. A razão pela qual o escolhi é mesmo a que apresentei. Na verdade, é um titulo que já tinha há muito tempo guardado na gaveta e que sempre me agradou talvez por dar azo a conjecturas diversas sobre o seu significado. E o título está ligado a outro aspecto que é importante: a capa e o design que se aplicam ao disco, no sentido de o tornar um objecto interessante.

Entrevista de Eugénia Azevedo/ Bodyspace.net, 22/02/2006


A Turbina é uma editora discográfica peculiar. Editou um disco que não é disco, é banda sonora (Giroflé); um disco que é dois (Todos os dias fossem estes, Todos os dias fossem outros); dois discos (O amor dá-me tesão, Não fui eu que estraguei) que são um, que afinal são livro (Foge foge bandido).

Nuno Prata, 03/06/2008

Todos os dias fossem estes foi o título da primeira maqueta que fiz do meu trabalho a solo, e achei logo que seria um bom título para um disco. Em Setembro de 2002, depois de um período de indecisão quanto ao meu futuro (acabou-se os Ornatos, e agora?), resolvi gravar algumas das canções que tinha escrito. Defini um horário de trabalho, meti mãos à obra e passadas duas semanas tinha gravado doze dessas canções. Com guitarra, baixo, teclados, e tudo o mais que uma canção que se preze tem direito. Depois dessa primeira maqueta ainda gravei outra (Nuno, Nico, em Setembro de 2003), continuei a escrever canções e comecei a apresentá-las ao vivo no início de 2004. Estamos em Janeiro de 2006 e o disco ainda não saiu; percebe-se porque é que acho que Todos os dias fossem outros também é um bom título.

Nuno Prata, 27/01/2006

A embalagem do meu primeiro disco a solo permite-lhe dois títulos: Todos os dias fossem estes e Todos os dias fossem outros. Enquanto o disco não é editado (o que deve acontecer em Abril, através da editora Turbina) e o meu sítio não fica pronto vou deixando aqui alguma informação.

Nuno Prata, 27/01/2006


A capa do teu disco é bastante original e chama a atenção pela positiva. Como surgiu a ideia de a fazer assim?Concebi essa embalagem para a segunda maquete que gravei - a maquete "Nuno, Nico" - e decidi aproveitá-la para o disco porque, para além de a achar um objecto apelativo, dá ao disco a possibilidade de, em vez de um, ter dois títulos que lhe servem que nem uma luva.

Jotta / acisum, 6/10/2006


quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Faz de Conta

Faz de Conta - Júlio Pereira (Som Livre, 2003)

É o título de um poema do Eugénio de Andrade de que eu sempre gostei. É a frase que faz mais parte do nosso universo quando somos crianças. Não há ninguém que não brinque ao faz de conta. Todos nós, ainda hoje, adultos, fazemos de conta por vezes.

Entrevista de Sandra Lopes, Correio da Manhã, 06/12/2003

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Mundo de Aventuras

Mundo de Aventuras - Ban (EMI, 1991)

"Ambiente Pop" era assim que o terceiro 33 rotações dos Ban estava para se chamar. Depois, a escolha do grupo recaiu sobre "Mundo de Aventuras". Título de um dos temas do novo álbum, "Mundo de Aventuras" ilustra a dois tempos o espírito e a música dos Ban. De um ponto de vista especialmente musical, é uma música (re)criada com bocadinhos de todas as outras. Enquanto filosofia de vida, testemunha o percurso seguido pelo grupo dos sete no mundo da música pop e abre caminho a novas aventuras.

Introdução de entrevista dos Ban a Maria João Lourenço / TV Guia

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Não Sou Daqui


Não Sou Daqui - Amélia Muge (2006)

- o título deste novo disco é rico em interpretações. É de alguma forma autobiográfico? Que significado lhe atribui?

Não faço discos autobiográficos. Eu sou uma pessoa muito simples e de gostos iguais a toda a gente. Nada a referenciar. Os discos fazem parte da minha profissão. Logo, tento trabalhar o melhor que sei, partindo de uma ideia e tentando fazer um percurso com ela. No decorrer do trabalho há investigação, há poemas, há canções, há imagens. Tento sempre encontrar títulos aparentemente óbvios, mas que deixam sempre uma ponta do véu levantada para outras interpretações, que foram sendo pensadas, ou encontradas ao longo do percurso. E isto permite outra coisa muito engraçada: há sempre alguém que traz um ponto de vista novo.

Entrevista de André Gomes/Bodyspace, 14/02/2007

– "Não Sou Daqui" é o título do teu disco mais recente. És de onde?

Das horas, dos momentos que vou vivendo, dos lugares, dos meus ideais, dos meus erros, dos livros, discos, espectáculos que me marcaram, dos meus mestres-amigos-família, dos meus desafios, dos meus desgostos, das várias comunidades de esperança que partilho com grupos variados e de variadas maneiras.

– Um caminho para a construção de uma identidade?

Sim. "Não Sou Daqui", na prática, quer dizer que eu não sou de uma coisa enquanto não a viver e, sobretudo, que a identidade, como pertença, também é uma coisa que se vai construindo.

– Então hoje consideras-te uma moçambicana a viver em Portugal, uma portuguesa de alma moçambicana ou nem uma coisa nem outra?

Apetece-me responder que tudo isso ao mesmo tempo, passando por toda uma coisa tão ou mais importante que é considerar-me uma terráquea com alma de extraterrestre. É uma resposta linda. Talvez não seja verdadeira, mas não sei responder de outro modo.

Entrevista de Viriato Teles / SPAutores

- Quando se dá a um álbum um título como Não Sou Daqui, isso autoriza logo uma série de interpretações possíveis: "não sou deste mundo", "não sou de Portugal", "não sou deste tempo", "não sou do lugar onde me querem arrumar"... quis dizer exactamente o quê?

Ao dizer "não sou daqui", estou a dizer outra verdade: estou lá. Em última análise, podemos ir parar a outro grande chavão: a identidade é sempre algo em trânsito. Também se pode ir às questões artísticas e reflectir se, num mercado cultural em nos situamos um pouco à margem, isso significa que não estamos nele. Não só estamos como estamos com um estatuto que varia entre a exclusão e a desigualdade (risos).

Entrevista de João Lisboa / Expresso

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

EP01

EP01 - Coldfinger (Norte Sul, 1999)

Para já é sob a forma de quinteto que os Coldfinger assinam a sua primeira edição, um EP de cinco temas editado pela Nortesul. O criador do projecto justifica a estreia num formato mais curto, ficando a gravação do primeiro álbum para Fevereiro do próximo ano: "Fizemos a primeira apresentação no mês de Dezembro do ano passado [no Hard Club], tocámos à volta de duas dezenas de concertos este ano, de modo que temos um período de vida ainda curto. Somos um projecto que quer crescer e a oportunidade de ir para estúdio foi aproveitada no sentido de ser um bom tubo de ensaio para o nosso trabalho do futuro."

(...)

Concordando, em qualquer dos casos, com o princípio de semianonimato subscrito por projectos aparentados com o seu, sobretudo britânicos, os Coldfinger optam no EP por uma capa de "design" sóbrio a laranja, publicando apenas no interior uma pequena foto deles próprios. "Ouvindo a música, vendo os nossos espectáculos, ou mesmo privando connosco, percebe-se que somos pessoas contidas, reservadas e que gostamos de uma certa sobriedade - o que não impede termos escolhido o laranja para a capa, porque é uma cor feliz. Mas queremos que a experiência dos Coldfinger passe essencialmente pela música e por uma boa relação com o objecto que é o EP."

Por Luis Maio / Público, 10/12/1999

Imagens: http://cargocollective.com/hugoalte/17790 (J.Faria e Hugo d'Alte @ Drop)

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Tu Aqui

Tu Aqui - Lena d'Água (CBS, 1989)

Passados cinco anos da morte de António Variações, Lena d'Água recusa-se a admitir tratar-se de uma homenagem. Não gosto da palavra, diz. Acho que apenas estou a a fazer justiça, quando todos pensavam que a música dele tinha acabado, isto vem provar o contrário. E ainda não fica tudo feito.

Num encontro fugaz com os familiares de António Variações, Lena manifestou a vontade de guardar dele uma recordação-objecto. Gostava de ter qualquer coisa de alguém de que não tive tempo para me despedir, diz. Quatro anos depois, em lugar de uma pulseira, gravou o disco; É uma coisa incrível. Acho que só não perdi o o controlo porque tenho uma boa relação com "o outro lado", com o "antes do princípio" e o "depois do fim".

Jaime Ribeiro, irmão do cantor, entregou-lhe seis cassetes para que ouvisse. Fiquei sem respiração, recorda. Foi uma sensação indiscritível. Levei as cassetes para casa e fiquei sozinha com elas. Só passado uns dias é que as pus a tocar. A primeira música que descobri foi só o "Adeus", só voz. O António estava afinadíssimo. Da fonte de criação saíu logo tudo pronto. É como se já lá estivesse a roupagem que se lhe deu.

Levo às pessoas aquilo que ele não teve tempo de lhes entregar: as coisas que escreve e que canta, que são do mais humano e sincero, e que têm a ver com todos os verdadeiros seres humanos.

Entrevista de Maria Gabriel Sousa / TV Guia
"Tu Aqui" é um dos cinco inéditos de António Variações

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Momentos

Momentos - Dulce Ponte (Farol, 2009)

Este ano, Dulce Pontes soprou 40 velas (nasceu a 8 de Abril de 1969 no Montijo) e comemora, nesta altura, 20 anos de carreira com a edição de Momentos, um disco duplo "que não é uma compilação", alerta. "É um álbum que serve para partilhar com o público aquilo que eu tenho feito nos últimos anos", começa por explicar. "A minha biografia está gravada, mas tenho vindo a registar todos os concertos desde há alguns anos para cá"..

Contudo, Dulce Pontes continua a ver-se como "uma artista completamente marginal" que não depende "da imprensa nem de campanhas de marketing". Sente-se triste com a comunicação social que "recebe a informação mas não a publica". Acto contínuo, "o público que não tem acesso à Internet não sabe o que ando a fazer e pensa que eu me afastei".

Certo é que tal como em outros momentos da sua carreira, a grande fatia dos concertos tem-se realizado "no estrangeiro" porque "em Portugal estamos duas semanas à espera de confirmar uma data". Mas, diz Dulce Pontes: "Não posso ficar no congelador à espera porque tenho contas para pagar, filhos..."

Hoje, como sempre, o seu caminho "é o da música portuguesa". Fala-se de um país "pequeno geograficamente, mas muito rico" em que cabem "o fado, a música medieval e o folclore". Dessa palete de sons "pesquisada por um senhor italiano (Michel Giacometti), nasce uma musicalidade "que continua a ser muito portuguesa". Uma lusitana paixão que é "muito maior que Lisboa".

Um ciclo que se fecha e outro que se inicia. Dulce Pontes considera que ainda lhe falta fazer "tudo" e não quer deixar que voz "lhe doa". Quer produzir outros artistas e compor, como já fez com Katia Guerreiro. Prometido está um segundo capítulo do mui reconhecido Primeiro Canto.

Artigo e entrevista de Davide Pinheiro, Diário de Notícias

Momentos é o álbum de carreira daquela a que podemos, sem qualquer risco, afirmar ser uma das divas nacionais. Uma voz arrepiante, que consegue exaltar os sentimentos mais profundos com o simples soltar de uma nota vibrante, alia-se a um percurso notável, avalizado por colaborações e troca de experiências com alguns dos maiores músicos e compositores do planeta e reconhecido pelo público de todo o mundo. Um percurso materializado em 17 canções. 17 momen-tos que se querem representativos de 20 anos de carreira. É caso para se dizer: silêncio que vai cantar a Dulce.

- Porquê a escolha destas 17 canções para representar os 20 anos de carreira? Que critério é que se segue para se conseguir esta selecção?

Pensa-se tanto num critério que depois acaba por se perder, até que se encontra de uma forma muito simples, que é: onde é que estão os momentos especiais? Que momentos é que, realmente, foram especiais, que te tocaram? Quais foram as pessoas importantes?

- E há alguma mais marcante?

Esse tipo de pergunta é a mesma coisa que eu ter 4 anos e estar numa loja só com caramelos e bolos de nata (risos)… Qual é que escolho? É difícil a resposta! Gosto da "Canção de Embalar" – gosto muito da "Canção de Embalar". É uma das canções mais emblemáticas do Zeca (Afonso) e acho que está bem conseguido o arranjo e o resultado final é interessante. É ligeiramente diferente do que fazemos ao vivo. Isto está sempre em transformação.

- E porquê este registo ao vivo?
Porque não há tempo para ir para estúdio… por acaso, há coisas gravadas em estúdio também, mas há muito tempo que eu não ia para estúdio. Uma das coisas que me aconteceu logo a seguir ao nascimento da minha filha, e ao longo destes anos todos, é que tenho coleccionado concertos, não só em áudio mas em vídeo também. E essa é a minha biografia viva e é alguma coisa que fica – pelo menos, para os meus filhos ouvirem, se lhes apetecer. E porquê ao vivo? Porque é isso que eu faço. Agora posso ter o tempo organizado de uma forma diferente – a pouco e pouco ter mais tempo para o lado familiar, dosear as coisas, não estar tanto tempo fora de casa. Já cansa!

Artigo completo na Arte Sonora nº 11 (Julho/Agosto 2009)

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Resistir É Vencer


Resistir É Vencer - José Mário Branco (EMI, 2004)

O álbum chama-se «Resistir É Vencer», uma frase inspirada na resistência timorense. Como é que se consegue, ainda, resistir noutros lados? Em Portugal? Na Europa? No Mundo?

É preciso ver que esse lema não significa «se tu resistires tu vais vencer» mas sim «resistir é já uma vitória». E resistir a quê? Resistir ao inimigo, aos imensos «muros de Berlim» que ainda aí continuam, aos obstáculos que nos aparecem no caminho, mas também resistir aos muros e obstáculos que estão dentro de nós. É uma referência à nossa luta contra os nossos próprios limites. E isso é muito palpável em qualquer criação artística, nomeadamente na música: o compositor é aquele que ouve a música antes dos outros; é a luta contra o silêncio, é organizar os sons desorganizados que estão dentro da nossa cabeça e depois transmiti-los aos outros. Porque é que ainda canto estas canções?... Vivo bem, tenho uma boa casa, tenho um carro à porta, o frigorífico cheio de comida, de que é que me queixo?... Queixo-me porque percebi que ser de esquerda é não conseguir viver bem com a dor dos outros. É não conseguir ser feliz. Porque acordo, olho para o espelho e o que vejo é uma pessoa dorida com a dor...

Entrevista de António Pires / Blitz

Capa: detalhe de pintura de Júlio Pomar

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Tudo Ou Nada

Tudo Ou Nada - Katia Guerreiro (Som Livre, 2005)

O terceiro álbum de Kátia Guerreiro vai sair lá para o final do verão e ainda não tem nome. Má pontaria, portanto, para uma primeira pergunta, mas foi mesmo por aí que começou a conversa, num intervalo das gravações do "disco ainda sem título" que a fadista ultima nos estúdios Pé de vento, em plena lezíria ribatejana. "Não ando em busca de um título, isso depois aparece naturalmente. Já nos dois discos anteriores foi assim", diz divertida.
Entrevista de Miguel Judas / Visão 11/08/2005

- O nome do disco não foi escolhido ao acaso. Acha que este é o álbum do tudo ou nada?
Claro! Há etapas muito importantes na carreira de um artista. O terceiro disco é a confirmação de tudo aquilo que já foi feito e será a base de segurança de tudo o que vem depois. Neste disco, tudo ou nada. ou as pessoas finalmente acreditam que sou verdadeira naquilo que faço, ou então não vale a pena seguirem os meus passos, porque só com a verdade é que sei fazer as coisas.

Entrevista de Vanda Ladeiras / Focus 12/10/2005