
Le Jeu - Balla (Music Mob, 2003)
- O segundo registo dos Balla, “Le jeu”, apresenta-se com novas influências e perspectivas. Como se deu esta evolução?
As coisas vão acontecendo naturalmente. Para fazer um disco preciso de encontar motivação e isso faz parte do processo natural da criação. O que ouves no “Le jeu” era uma ideia já tinha há algum tempo embora nunca a tivesse concretizado. Achei que agora seria o momento certo.
- Passados dez anos ligado à música nos mais variados projectos, em grupo ou individualmente, a verdade é que continuas um pouco à margem, na cena alternativa, e acabas por não chegar à linha da frente... ou não te deixas levar?
(risos) Pois, mas isso de não estar na linha da frente pode não ser necessariamente mau. Se calhar não é bem isso que eu quero. Fico satisfeito se a minha música cheguar às pessoas que gostam deste tipo de música. Por norma, não me costumo queixar em relação a nada. Quero continuar a ter inspiração para fazer música. Não gosto de me sentir pressionado, por exemplo, para ter um single que passe nas rádios. No “Le jeu” procurei eliminar todos os possíveis singles porque sou contra esses formatos. Se calhar até tinha essas canções, se calhar até caí nessa sonoridade obvia para single, mas foi precisamente esse tipo de temas que eu evitei.
- A capa do álbum é no mínimo curiosa. Há dois anos o Nathaniel Merriweather, mais conhecido por Dan the Automator (produtor dos Gorillaz), editou um álbum em que a capa era muito parecida. Porquê? Para caricaturar a capa do álbum do francês Serge Gainsbourg. É uma trilogia de imagens ou também há influências sonoras?
Bem, em relação à capa a ideia foi criar uma espécie de capa standard. O remake do original foi feito primeiro pelo Dan the Automator e agora por nós. Ao criarmos essa tal capa standard, se é que isto é possível, a ideia é levar as pessoas a identificarem o ambiente que nós quisemos incluir nos discos. No caso do “Le jeu”, a capa só surgiu depois do álbum mas encaixou bem com o que a música sugere. Mas em termos musicais não são necessariamente as mesmas inspirações. Do Dan the Automator inspira-me a vertente de produtor e a maneira como trabalha tecnicamente. Já em relação ao Serge Gainsbourg, e apesar de ele ser a imagem do ambiente que quis recriar, ele não é necessariamente a minha maior inflência como compositor.
- Então foi mais pela imagem?
Muitas vezes uma capa de um disco inspira-me mais que propriamente a música que lá está dentro.
- Qual é a interpretação que fazes destas capas?
Para mim, a capa original do Serge Gainsbourg é o espelho do que é a música. Já o Dan the Automator fez isto nitidamente para gozar. A minha capa foi intencional e acho que se identifica muito com o disco.
- Convidaste a Sylvie C. para interpretar alguns dos temas. A escolha de uma vocalista francesa foi propositada?
Tive sempre a vontade de fazer um álbum com estas características mas, para isso, precisava de uma cantora francesa porque é esta a língua que me inspira neste momento. Embora a Sylvie C. estivesse num projecto que não tem muito a ver com o que ela faz aqui, ela percebeu rapidamente qual o ambiente que eu queria neste disco e começamos a trabalhar. A ideia era, antes de mais nada, servir as cançoes que já existiam enquadrando a voz sem contrariar o ambiente idealizado.
Entrevista de Joana Brandão / PJ, 14/06/2003
- Uma das principais diferenças entre este álbum e o anterior é a sua consistência, ao nível dos ambientes e de um certo imaginário ancorado na música francesa e nas bandas sonoras para filmes. Essa unidade foi procurada?
Pelo facto de o outro ter sido lançado por uma editora maior [NorteSul], existiu da minha parte uma certa tentação de criar um ou outro tema com características de "single". No novo álbum não tive essas preocupações. Pelo contrário, os temas que poderiam constituir potenciais "singles" foram deixados de lado porque prejudicavam a coerência que pretendia atribuir ao disco. Nesse sentido, houve uma preocupação em desenvolver os temas que faziam sentido em termos de conjunto.
- O disco anterior era mais pessoal. De alguma forma, havia uma maior exposição - inclusive dedicava-o à sua mãe. Em "Le Jeu" parece assumir um maior artifício ou uma costela ficcional.
Todos os discos que faço são dedicados à minha mãe... Mas este álbum não é tão pessoal. É um disco onde criei personagens. Por outro lado, o facto de a Sylvie ter criado as suas próprias histórias e de ter interpretado os temas à sua maneira - de forma diversa da minha - transformou-o num objecto diferente do anterior. Menos centrado em mim. É um disco onde existe uma aposta mais deliberada no lado estético e, nesse sentido, não reflecte o meu mundo interior de forma tão directa. Mas não é um disco "falso" ou menos sentido - até pelo facto de conter pontos em comum com anteriores projectos meus. Acredito plenamente nele.
- Como se conheceram e qual foi a importância da Sylvie C. no processo de criação do álbum?
Vi-a num espectáculo do seu projecto, Cabaret LX, onde ela utilizava muitas referências ao "swing" francês e onde cantava temas da Edith Piaf. A maneira dela cantar nesse contexto é muito diferente daquela que se pode ouvir no disco, mas o facto de ter imaginado uma voz feminina francesa para os temas que andava a criar - inspirado pelos duetos das bandas sonoras eróticas dos anos 70 - fez-me acreditar que a Sylvie poderia ser essa pessoa. Quando começámos a trabalhar ela teve alguma dificuldade em entrar nos temas. Achava-os superficiais em comparação com uma certa teatralidade a que estava habituada, mas depois de lhe ter dado a ouvir discos dos Boris Ex-Machina de 1996 ela percebeu que essa teatralidade já tinha sido explorada anteriormente. Agora, procurava outra coisa e ela conseguiu chegar lá.
- Como funcionaram os dois em termos de dinâmica de trabalho? Tinha as ideias, desenvolvi-as e tentava transmiti-las?
Fazia as músicas, colocava as minhas partes de voz e, ela, em momentos de improviso ou depois de falarmos um pouco, cantava por cima. O primeiro tema que completámos, "A meu favor", foi construído de forma espontânea com ela a improvisar. Colou a sua voz à minha como sentia naquele momento, sem nenhuma direcção. Na maior parte dos casos, criava a estrutura sonora, dava-lhe e ela desenvolvia a sua parte.
- Existiram algumas resistências em relação ao primeiro álbum de Balla provocadas pela sua voz. Neste disco surge diferente, com uma voz mais ajustada. Teve alguma preocupação especial com esse aspecto?
É difícil encarar esse assunto de forma despreocupada quando se teve tantas críticas, não é? Desta feita, não usei a voz para "dizer" texto. Fiz apenas aquilo que sentia que devia fazer e fui mais intuitivo. Insisto em cantar porque nem sempre é fácil transmitir as ideias a outra pessoa. São coisas que vêm de dentro. Mas, em relação às vozes, estou muito satisfeito com os resultados obtidos e sinto que evolui.
- Neste disco assume uma série de referências, o que nos conduz a uma das grandes discussões na música actual: a fronteira, muitas vezes invísivel, entre cópia e citação.
Estou à vontade para defender as citações porque não as encaro como um mero decalque. A citação mais óbvia e aquela que a maior parte das pessoas refere é Serge Gainsbourg, mas a verdade é que não tive qualquer preocupação em ouvir os seus discos. Quando parto para a feitura de um disco gosto de criar ambientes que funcionem como linha condutora para aquilo que vai ser desenvolvido. Mais do que citações directas, interessa-me a criação de ambientes. E é interessante porque essas atmosferas têm mais a ver com cinema do que propriamente com este ou aquele disco. Ou seja, aquilo que me interessa verdadeiramente é a criação de um imaginário. Apreendê-lo, entendê-lo e, depois, criar algo a partir dele.
- A propósito de "Le Jeu" podemos falar de Gainsbourg e da música francesa do passado mas também naqueles que se inspiraram nela mais recentemente como os Air dos primeiros tempos ou Bertrand Burgalat, não lhe parece?
A maior influência do disco nem sequer é o Gainsbourg. Serão coisas mais ligeiras como o Pierre Bachelet que compôs a banda sonora do filme "Emmanuelle I" e alguns compositores italianos, dos quais nem sequer sei o nome. Em relação aos Air e a Burgalat, são coisas de que gosto... De qualquer forma, de há uns anos a esta parte, a redescoberta do passado da música popular transformou-se num acontecimento global. Existe uma partilha de influências pelo mundo inteiro. Recordo-me dos Jazzanova falarem, há alguns anos, da forma como utilizavam "lixo" para criar a sua música, numa alusão à matéria-prima que utilizavam. No início sentia o mesmo.
- De alguma forma, a capa do disco funciona como um jogo de citações porque existe uma alusão óbvia a uma capa de Serge Gainsbourg. De quem foi a ideia?
A ideia foi da editora Music Mob e do João [Santos], da Ananana. A capa já tinha sido glosada pelo Dan The Automator [no álbum "Lovage", assinado como Nathaniel Merriweather] e achámos piada fazê-lo também, por uma razão simples: a capa do Gainsbourg é um símbolo, é uma espécie de clássico e toda a gente a conhece. Ou seja, não existe o perigo de alguém olhar para aquilo como uma espécie de citação disfarçada. É um mero piscar de olho. Apesar de não ser o melhor álbum de Gainsbourg, ambos os discos me marcaram. Talvez até mais o do Automator.
Entrevista de Victor Belanciano / Publico, 16/05/2003