quarta-feira, 21 de abril de 2010

Fossanova


Fossanova - Belle Chase Hotel (Norte Sul, 1998)

Quando o 'Fossanova' saiu, senti que tudo aquilo era um conjunto muito imperfeito, mas sem menosprezar a ideia de que havia uma certa honestidade e uma vontade de furar com a monotonia da chamada criatividade. A única ligação que posso fazer com o sacudir de música portuguesa antes feita por grupos como os Mler If Dada ou os Pop Dell' Arte não tem a ver com filiações estéticas, mas acima de tudo com uma atitude de libertinagem positiva. A modernidade das ofertas culturais no nosso país sofre sempre do mesmo problema: é demasiadamente moderna. E, como dizia a Coco Chanel, quem está na moda é quem está um bocadinho fora de moda. Não é por pudor à popularidade. É mais porque quem quer estrear uma coisa sente sempre pudor às fórmulas feitas. E isso dá algum leite-creme à eventual atitude artística."

Encontrei depois uma coisa muito boa no 'Fossa Nova': nunca senti a chamada vertigem do segundo álbum. O álbum abria caminhos para tudo, mas mesmo para tudo. Se a seguir aparecêssemos com um álbum intitulado "A Revolta das Máquinas", todo ele baseado na história de um homem que se apaixona por uma torradeira deprimida e tenta mostrar-lhe que não, que ela vale muito, ao ponto de a torradeira finalmente sentir que vive num mundo de torradeiras e de sistemas, cheia de amigos que vão lá a casa tomar um copo de óleo à noite, mesmo isso podíamos ter feito. Na verdade, todo o 'Fossa Nova' foi para mim um manifesto de irresolução."

"Foi esta a minha experiência social com o 'Fossa Nova', o que por um lado só veio provar que o nome do álbum, pessoal e colectivamente, foi uma coisa mesmo nostradâmica. Caramba, uma 'Fossa Nova' sempre renovada, num novo concerto ou num novo artigo de jornal. Se tivéssemos mais estofo para levar tudo na brincadeira talvez nos saíssemos melhor. Mas o faduncho prevaleceu e acabámos por chegar ao fim com um certo cansaço, fartos de nos aturar uns aos outros, fartos de quartos de hotel e de equívocos, equívocos e mais equívocos. Talvez daqui a um ano seja mais fácil, quando virmos as coisas com a distância de uma recordação e de grande aventura."

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