terça-feira, 30 de novembro de 2010

Encantamento

Encantamento - Mafalda Arnauth (EMI, 2003)

"Encantamento" termina com um "Fado Arnauth". A própria não receia ser acusada de pretensiosismo e explica a razão de ser do título: "Esse título existe porque estive durante dois ou três meses a tentar dar títulos às músicas o que, com a SPA, é impossível. Têm sempre registado um título igual! Por exemplo, tinha "Na palma da minha mão", mas não dava, tentei cinco ou seis títulos, acabou por ter que ser "Da palma da minha mão". O "Fado Arnauth" foi "Feitiço", o "Sem limite" não pôde ser "Sem limites", "Bendito fado" teve que ficar "Bendito fado, bendita gente", "É sempre cedo" chamava-se "Acorda coração"... Impressionante. O "Fado Arnauth" foi um relâmpago, nascido da frustração."





E "Encantamento", foi também assim? "Esse foi um encantamento total. Um cantamento, encantamento que vem do canto. Um encantamento com a vida que passa. Porque é que, de repente, me sinto uma pessoa saudável? Há quem diga que o desapego à vida, um instinto anti-vida, é necessário. Eu penso precisamente o contrário, acho que este encantamento vem de cantar à vida, da superação do dia-a-dia. A minha vida será tanto mais rica quanto mais gostar até das coisas menos boas. Embora hoje este amor pela vida esteja algo "démodé"...Já esteve mais na moda ser-se feliz."



Entrevista de Fernando Magalhães / Público

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Kronos

Kronos - Cristina Branco (Universal, 2009)

O tema central será o tempo – o álbum chamar-se-à Cronos –, no seu sentido mais lato. Eu parto sempre do título dos álbuns para a concepção, o único onde isso não aconteceu foi, justamente, neste sobre o José Afonso.

João Lisboa/Lishbuna, 02/12/2007

Há cerca de dois anos, aquando da publicação de Abril (centrado na reinterpretação de canções de José Afonso), já no final da entrevista, quase casualmente, Cristina Branco confessava-me que o álbum seguinte já estava em fase de pré-produção, "a gente não pode parar!". E, com um rigor superior ao de todos os profetas bíblicos, anunciava que "só sairá em 2009 e são doze poemas e doze compositores, todos portugueses. A intenção é que sejam os cantautores a compor: o Vitorino, o Janita (que fez apenas música para um poema fantástico da Hélia Correia), o Sérgio Godinho, tenho dois poemas do Júlio Pomar que gostava que fossem musicados pelo António Vitorino de Almeida, a letra para um tango do Vasco Graça Moura, dois poemas do Manuel Alegre escritos propositadamente para este disco e ainda deverão surgir outros nomes como o João Paulo Esteves da Silva, o Ricardo Dias e a Amélia Muge". Obedeceria a um tema central, o tempo em sentido lato, e teria como título Kronos. Com uma precisão de relojoaria suiça, na data prevista e com os intervenientes planeados, ei-lo pronto e magnífico.

Mas porquê o tempo como eixo conceptual? "Apetecia-me falar sobre isso, sobre o que perdi e ganhei, sobre a forma como evoluímos no tempo, mesmo fisicamente. Para além disso, passaram onze anos e dez discos, fazia-me sentido – com mais dois discos de permeio em que me permiti explorar o reportório das pessoas por quem tenho mais admiração na música portuguesa, a Amália e o José Afonso – fazer uma passagem para os cantautores portugueses. No fundo, são eles quem ainda está a escrever. O desafio que lancei foi, então, que me escrevessem um fado sobre o tempo". Um fado, exactamente um fado, ou uma canção – fado ou não-fado – sobre esse tema? "Um fado, pedi sempre um fado. Claro que a maioria deles não são fados. Alguns, o Zé Mário Branco, por exemplo, tiveram o cuidado de, já com a música feita, me terem ligado a dizer que não tinham composto um fado porque não era assim que me viam. O Ricardo que foi

João Lisboa/Lishbuna, 18/03/2009

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Os Crimes do Dr. Estranho Amor e outras estórias

Os Crimes do Dr. Estranho Amor e outras estórias - Dr. Estranho Amor (2009)

- Há um conceito muito próprio neste disco e mesmo na vossa estética enquanto banda. De onde vêm essas referências e todo esse imaginário?

Todo o quotidiano acaba por nos influenciar e as coisas que nos tocam inspiram-nos ainda mais, e a arte é uma coisa com a qual nós temos uma relação forte, em todas as suas formas. O cinema, a escrita, a fotografia, a pintura, todas essas diferentes formas de arte nos tocam bastante e nos inspiram. Na nossa maneira de encarar todo o processo que é estar na música, desde a composição até à maneira como nos apresentamos em palco e até no art work, há sempre essa ligação. Se vamos fazer uma coisa em que há uma componente da imagem, tentamos criar também aí um universo que nos interessa. No caso do disco a que demos o nome de ‘Os Crimes do Dr. Estranho Amor e outras estórias’ quisémos explorar um bocado este ambiente mais soturno e misterioso, e fomos beber um bocadinho a filmes ou livros que nos transmitisse estes ambientes. Como por exemplo Jack The Ripper, o ambiente do sec. XIX que por um lado concentra este imaginário de um certo suspense. Por outro lado, é uma época em que as coisas eram menos rápidas e menos futeis, uma altura em que as pessoas se reuniam mais em terutlias, um período muito rico culturalmente e onde as pessoas se juntavam muito para debater ideias.

Por Andreia Arenga / Mundo Universitario, 18/06/2009

domingo, 7 de novembro de 2010

Cristina Branco in Holland

Cristina Branco in Holland - Cristina Branco (Edição de Autor, 1997)

- O seu primeiro disco, "Cristina Branco in Holland", foi, como o próprio título indica, gravado na Holanda em 1997. Como é que tudo aconteceu?

Havia o interesse por parte do "centro de cultura portuguesa na Holanda", de levar fado e sangue novo até essas paragens. Foi o caminho lógico depois de por lá terem passado nomes como José Afonso, Amélia Muge e outros. Visto a esta distância, acho que era tempo de preencher o abismo que se instalou entre a nossa cultura e outras de países como a Holanda. Tudo foi um acaso. Nesse ano dava eu os primeiros passos na experimentação da voz, (a convite de um amigo passei pelo programa da manhã da RTP1), foi visionado na Holanda e dias mais tarde entravam em contacto comigo perguntando se estava interessada em ir até aquele país para cantar nas comemorações do 25 de Abril desse ano, para a ínfima comunidade portuguesa local da altura. Disse que sim. Portugueses eram 4, todos foragidos da guerra colonial e completamente imbuídos na cultura local mas conscientes e orgulhosos da sua.

Por André Gomes/Bodyspace, 23/06/2006

Luso Qualquer Coisa

Lusoqualquercoisa - Clã (EMI, 1996)

"«LUSOQUALQUERCOISA» É UMA EXPRESSÃO UTILIZADA NO «SER (PORTUGUÊS)», E QUE É UM BOCADO A DEFINIÇÃO DE UM TIPO DE PESSOA DA REALIDADE PORTUGUESA ACTUAL".

A way to bleed your lover

A way to bleed your lover - Blind Zero (Universal)

Ouviu-se "A way to bleed your lover", o quarto álbum dos Blind Zero, lançado esta semana.
O novo trabalho "é de alguma ruptura em termos de som e de composição", explica Miguel Guedes, vocalista. Estava na altura de mostrar uma coisa diferente, mais perfeccionista e mais pensada. Ao novo disco chamam-lhe "a cor do sangue", por ter tonalidades viva."Quisemos um ambiente que não fosse tão negro quanto o anterior, que era essencialmente preto e branco", esclarece o principal compositor do grupo.

""A way to bleed your lover" é uma maneira de nos sangrarmos a nós próprios, porque nós somos o nosso objecto de amor". Ali, entram personagens disfuncionais que são, afinal, autobiográficas na inspiração. As letras, Miguel Guedes escreve-as com quem respira. "Não ando às voltas com as mesmas palavras. Tento encontrar um bom seguimento para os primeiros versos, até que tudo entra nos carris".

Entrevista de Anabela Rei/Jn

MG – Quanto à capa e à contracapa e à parte interior do disco, queríamos que, desta vez, houvesse um reforço do imaginário das canções pelo recurso à fotografia. Quisemos pictorizar algumas das canções, facilitando também, de alguma forma, a interpretação das pessoas. Nós vemos nos dias que correm que as pessoas não têm tempo para interpretar o que quer que seja, nem sequer para ouvir um disco sentadas. A maior parte das pessoas ouve os discos no carro, enquanto foge do trânsito e ouve os discos entre noticiários. Em relação aos nossos discos em particular, tem havido essa dificuldade de interpretação. E nós também não somos uma banda muito evidente, as letras não são muito concretas, não falam de coisas muito palpáveis, falam mais de coisas interiores. E, se por um lado, isso é bom porque nos cria um certo refúgio onde nós nos sentimos bem, por outro, também nos cria algum drama pela incapacidade que, às vezes, parece que temos de comunicar com as pessoas no sentido de não passar o nosso imaginário, que é um imaginário denso, negro e obtuso. O público de Lynch também não é o público massivo. Desta vez, quisemos que para cada canção, cada um de nós assumisse um papel de acordo com a canção e que recriasse um bocado o ambiente e que, de alguma forma, facilitasse não a vida às pessoas mas a intromissão das pessoas nas canções, que é o que nós queremos.

- O primeiro single extraído do álbum, “You Owe Us Blood”, acaba por sintetizar o espírito contido no título do disco. Há algum conceito por detrás do nome e do álbum em si?

MG – Não há um conceito unificador. Não é um álbum conceptual nem tem pretensões a isso. Acho que há um fio condutor que tem a ver com as temáticas do disco, que são bastante negras, depressivas e urbanas, que falam sobre personagens perturbadas, psicóticas, disfuncionais, que não lidam bem com o envelhecimento. Fala de pânico, de suicídio, de sangue, de morte física e actividade cerebral em simultâneo. Portanto, são temas um pouco pesados e complicados de abordar. E que são abordados de uma forma menos subtil que a sonoridade. As letras são um bocado mais agressivas, embora não sejam tão demonstrativas e talvez as pessoas não sintam essa agressividade porque não incorporam. Fala-se de sentimentos tenebrosos neste disco e, portanto, “A Way to Bleed Your Lover” é uma tentativa não conseguida – não gosto de títulos que reduzam o disco e penso que este não o faz –, é um título que joga na ambiguidade do disco e mesmo na nossa ambiguidade no processo de feitura deste disco. “A Way To Bleed Your Lover”, de um modo literal, pode ser uma forma de fazer sangrar ou esvaziar o teu objecto de amor ou de desejo. O sangramento, normalmente, é interpretado de uma forma bastante carnívora, sempre do lado mais terrorífico. Mas sangramento, aqui, tem um sentido duplo: é, simultaneamente, isso e um acto de formação. “Bleed”, no sentido de esvaziar para poder voltar a encher, que é também o processo de criação deste disco. Depois do “One Silent Accident” e tentando esquecer o nosso percurso para trás, apesar de sabermos que iríamos encontrar alguns pontos de contacto, tentámos reinventar-nos e fazer um disco que tivesse o menos possível que ver com o resto. Deixa-me apenas concluir que, numa altura em que se fala tanto da sensibilização da música portuguesa e das questões da língua, eu acho que as pessoas que lêem a Mondo Bizarre têm a mesma opinião que eu, que nós temos. Em relação à língua, isto é uma grande palhaçada. É pegar no pior ponto possível. Pretender defender a música portuguesa reduzindo-a à língua é a menor das questões. Infelizmente, havia muito por onde pegar e é um desprezo enorme por uma data de músicos novos e uma geração nova de pessoas, que estão a fazer alguma coisa pela identidade cultural deste país e que não quer construir a identidade deste país da mesma forma que se construiu durante décadas de salazarismo. E gostaria que no debate sobre a música portuguesa os argumentos invocados fossem sobretudo a sensibilização de que há coisas que se estão a passar, uma sensibilização para a escuta. Mais preocupante do que não se comprarem discos é não saber que eles existem.

Entrevista de Helder Gomes / Mondo Bizarre # 15