sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Sweet Moods And Interludes

Sweet Moods And Interludes - Coldfinger (Lisbon City Records, 2002)

O segundo álbum dos Coldfinger, "Sweet Moods and Interludes", chega ao mercado quando a editora que até agora tinha publicado todos os seus discos, a Norte Sul, se encontra num processo de reestruturação. Sem companhia discográfica que editasse a sua obra, Miguel Cardona e Margarida Pinto assumiram a edição de autor (com distribuição Zona Música) e lançaram um novo selo, a Lisbon City Records. "Sweet Moods and Interludes" também tem a ver com as circunstâncias em que foi produzido; os próprios anunciavam, em comunicado de impressa, que "as bobinas com as gravações deste disco foram encontradas no interior de um carro aparentemente abandonado junto ao rio Tejo". Uma imagem que foi sendo detalhada ao longo desta conversa em que os Coldfinger não desmentem um certo regresso às bases.

"A história das bobinas serve como mote para o trabalho", começa por explicar a cantora e letrista Margarida. "É uma metáfora que se pretende criar relativamente à situação em que nos encontrámos como pessoas e como músicos. Defrontámo-nos com um certo abandono no panorama musical português no que respeita aos meios disponíveis para fazer a nossa música chegar às pessoas. O carro somos nós, os músicos, a força criativa. As fitas que lá estão dentro são as nossas canções. Neste caso, as canções do 'Sweet Moods and Interludes' estão à disposição de quem quiser abrir o carro, levá-las, fechar o carro, enfim, fazerem o que quiserem."

Apesar de Miguel Cardona e Margarida Pinto terem constituído desde sempre o núcleo duro dos Coldfinger, a sua formação alargou-se por alturas da edição do primeiro álbum, passando a compreender músicos como Adriano (baixo, Ithaka), Sérgio Nascimento (baterista, Despe & Siga), João Cardoso (teclista, Despe & Siga), DJ Cruzfader (giradisquista), Joe Fossard (produtor). Por ora encontram-se apenas em palco, até porque "Sweet Moods..." foi também gravado, na sua quase totalidade, nos Speedfreak Studios, isto é, o estúdio particular dos Coldfinger. Um exemplo de faça-você-mesmo radical.

"Não deixando de fazer justiça à dedicação que todas essas pessoas tiveram pelos Coldfinger, o projecto já funcionava como o meu laboratório, pelo que pude aprender muito com todas elas. Durante alguns anos fizeram parte da família Coldfinger. Mas este disco quebra com isso devido às circunstâncias em que foi gravado, e apesar do afastamento de todas essas pessoas se dever a razões muito diferentes. Este disco é muito diferente dos anteriores, não só porque foi feito exclusivamente por nós dois mas porque desapareceram as editoras, os A&R, os músicos, os palcos, as agências, as bejecas, as festas, os 'roadies', o pessoal e a animação. Regressámos um pouco à base, à forma como eu e a Margarida fizemos a primeira maqueta".

As circunstâncias extremas que levaram à composição e gravação de "Sweet Moods..." tiveram, obrigatoriamente, influência nas 16 canções que fazem parte do alinhamento. Menos densas e sombrias do que as do primeiro álbum, não deixam de revelar "uma certa ânsia e uma pressa de acabar o disco" apesar de abrir espaço para a aplicação de vários conceitos feita "a posteriori". Miguel Cardona fala dos polimentos finais: "Este disco deu-nos tanto prazer que nos demos ao luxo de encaixar todas as canções ou de criar interlúdios que contribuíssem para um certa narrativa, de modo que começámos a vê-lo quase como um filme. No fim encontrámos até, com surpresa, alguns registos autobiográficos." Mas Margarida é peremptória: "Acabámos por dominar muito mais o produto final."

Texto e entrevista de Miguel Francisco Cadete / Y-Público, 16/08/2002

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