sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Monte Elvis


Porque é que Monte Elvis não é editado?

Monte Elvis não era o nome definitivo do terceiro disco dos Ornatos era uma das hipóteses, a outra era Rói, rói, galinha Roy. Não gostava da primeira, partia-me a rir com a segunda, e não achava nenhuma um bom título (pelo menos para um disco nosso). Das dezoito músicas que gravámos na pré-produção desse disco, aproveitavam-se três ou quatro (se tanto); eram na sua maioria ideias instrumentais desconexas, apenas com esboços de letra e sem grande rasgo.

Nuno Prata, 21/08/2009

"Monte Elvis" foi anunciado como o nome do 3.º álbum de originais da banda que terminou em 2002. Acabou por tornar-se numa compilação pirata com temas antigos da banda, versões feitas por outros nomes, etc.

http://rebelde69.blogspot.com/2009/04/ornatos-violeta-monte-elvis-exclusivo.html

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Hemisférios


Hemisférios - Dazkarieh (Hepta Trad, 2009)

E o novo álbum, «Hemisférios» - um duplo que apresenta no «Hemisfério A» temas originais e no «Hemisfério B» versões de temas tradicionais, mas num todo coerente e em que muitas vezes - se não houvesse essa indicação - dificilmente se adivinhariam quais os originais e quais as versões -, é a continuação e evolução lógica e bem-vinda desse álbum. Com algumas diferenças importantes: a voz de Joana Negrão integra-se agora, em perfeição absoluta, na massa sonora envolvente.

António Pires / Raizes e Antenas, 19/05/2009
http://raizeseantenas.blogspot.com/search/label/Dazkarieh

domingo, 24 de janeiro de 2010

Galinhas do Mato


Galinhas do Mato - José Afonso (Transmédia, 1985)

– Este disco vai, se calhar, surpreender muita gente, que te julgava acabado para a música...


–Talvez. Eu, a princípio, achei que não valia a pena, não estava a ver me assim no papel de compositor. Por mim punha uma pedra no assunto e ficaria o ‘Como Se Fora Seu Filho’ o meu último disco. Mas a verdade é que tinha por aí algum material, disperso por algumas cassetes, que, se calhar era pena ficar aqui perdido. E achei que as pessoas que estavam mais próximas de mim, até em termos de assiduidade, de acompanharem e se interessarem pelas coisas que eu aqui tinha eram, de facto, o Zé Mário Branco e o Júlio Pereira. E foram eles que insistiram nessa ideia, que seria necessário utilizar essas músicas para um novo disco.

– Além do que agora foi gravado, existem ainda outros inéditos...

– Sim, algumas coisas. Umas que ainda são dos meus primeiros tempos de professorado, em Setúbal, outras feitas em África ou no barco, quando fui colocado em Moçambique. Há coisas que são só pequenos trechos musicais, não são propriamente canções.

– Este disco tem também canções dessa altura?

– Tem. O tema ‘Galinhas do Mato’, por exemplo, é, talvez, o mais representativo. Tem uma certa sugestão africana de ritmos e coros, é uma música que eu pus na prateleira, à espera de um dia ter um texto que se enquadrasse. E há o ‘Tu Gitana’, uma música que eu fiz com uma ‘letra robot’, a letra de uma canção de Vila Viçosa que eu cantei muito em Coimbra, no grupo que deu origem ao Coral da Faculdade de Letras. Descobri que essa letra se coadunava perfeitamente com aquela música que eu tinha feito.

– É essa que é cantada, no disco, pela Helena Vieira...

– É e, aliás, acho que é admiravelmente cantada. Estas duas músicas são talvez de 1968, portanto anteriores a quase todas as que eu fiz para o ‘Como Se Fora Seu Filho’. A mais recente é, talvez, a ‘Alegria da Criação’, que foi feita para a peça Fernão, Mentes?”.

– Dizia eu que este disco pode surpreender muita gente. Até porque é feito segundo um esquema
que creio ser mais ou menos inédito em Portugal: é, digamos, um disco de autor, com a maioria das interpretações entregues a outros cantores...

– Isso é uma coisa que, para lá das condicionantes que obrigaram a que assim fosse, me dá um certo contentamento. Até porque, neste caso, se pode escolher a voz apropriada para cada tipo de canção. O ‘Tu Gitana’, por exemplo, nunca poderia ser cantado por mim, nem mesmo quando eu tinha voz para cantar. Tem uma tessitura, uma escala de tal ordem que só uma mulher com uma voz educada como a Helena Vieira a poderia cantar.

– O Júlio Pereira e o José Mário Branco coordenaram o trabalho de arranjos. Vocês mantiveram-se em contacto com regularidade?

– Sim, sim. O Júlio, por exemplo, não dava um passo que fosse fora do meu conhecimento. E a ‘Alegria da Criação’ é uma canção cujo arranjo coral e instrumental se deve ao Zé Mário. É claro que muito embora eu tenha concebido muitos dos arranjos, ao longo deste meu trabalho, não conseguiria fazer este disco sem a participação do Júlio e do Zé Mário, que foram uns excelentes colaboradores. Estávamos em contacto telefónico quase permanente e, no estúdio, estive regularmente a par do que se foi fazendo. Mas o trabalho de bases foi feito por eles, embora eu soubesse o que quer o Júlio, quer o Zé Mário iam fazer. Eles gravavam previamente o que faziam e eu dava sugestões a partir daí, imitando sons, dando imagens, sei lá... É muito, difícil explicar isto tudo, é um processo empírico...

– Estás, portanto, satisfeito?

– Eh, pá! Pela primeira vez, isto deu me um prazer bastante grande. Talvez pelo facto de serem outras pessoas a cantar, mas também pelo tipo de músicas... O ‘Agora’ ou o ‘Galinhas do Mato’, por exemplo, eram coisas que estavam na prateleira e cheguei a admitir não poder gravar. ‘Galinhas do Mato’ é uma canção demasiado africana, demasiado ligada às minhas memórias de infância, e pensei que não encontraríamos uma solução instrumental para ela. Mas, afinal, com a ajuda de um computador, conseguiu-se.

– Um computador?

– Um computador, nas mãos do Júlio Pereira. Mete sons vários, desde o kissange, percussões e outros sons mais ou menos electrificados ou plastificados mas que são exactamente tipo som artesanal. E tivemos que recorrer às vozes das mulheres do Coro de Oeiras, um bocadinho modificadas, de modo a criar aquele ambiente africano. E, além disso, contámos com as filhas do Janita que, no caso presente, parecem duas pretinhas a cantar... Eu fiquei surpreendido porque, no final, o resultado é de tal ordem que eu me senti transportado aos meus quatro ou cinco anos, quando estive no planalto do Bié. E há outras coisas: uma música chamada ‘Tarkovsky’, em que utilizámos quase arbitrariamente o nome do cineasta russo porque, a dada altura, eu pensei criar um ambiente, num coro sem palavras, que tivesse um pouco de África e da Rússia. Imagina-te no ‘Andrei Rubliov’ ou, de uma forma geral, nos filmes do Tarkovsky. E lá se fez, com a ajuda da trompa do Adácio Pestana e da voz do Janita.

Entrevista de Viriato Teles / Se7e, 27/11/1985
Republicada em Zeca Afonso: As Voltas de um Andarilho, edição aumentada, 1999
http://www.aja.pt/Entrevistas/entrevistaviriatoteles.pdf

Pequeno documentário sobre as gravações do último disco de José Afonso, «Galinhas do Mato», a convite de Nuno Rodrigues - antigo compositor da Banda do Casaco, e actual editor da MVM, a etiqueta discográfica responsável pela reedição de «Galinhas do Mato» em CD, onde este trabalho foi incluído como extra.

http://bravadanca.blogspot.com/2006/06/um-bom-pastor-video-2001.html

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Ar

Ar- Danças Ocultas (EMI, 1998)

FM – “Ar” respira ambientalismo por todos os poros...

ARTUR FERNANDES – Do título, o mais simples possível, à capa, com um mínimo de texto, a preocupação foi que a música pudesse dizer tudo a partir do elemento, o ar, que faz funcionar o nosso instrumento. Foi-se em busca de imagens que se inserissem no contexto estético abordado neste disco, esse tal ambientalismo ou paisagismo.

P. – Podemos falar de micropaisagens?

R. – Sem dúvida nenhuma. O reportório incluído tem bastantes pormenores. Poderíamos falar, quase, na teoria do caos, em que há o macropormenor, o médio pormenor e o micropormenor. Existe um balanço, um ritmo instalado e depois, aí dentro, aparece uma melodia deste, um pormenor daquele, uma resposta de um terceiro, até se chegar à densidade que procurámos para este disco.

P. – Onde é que foi tirada a foto da capa?

R. – Num local da serra do Caramulo chamado Urgueira, no concelho de Águeda. É Portugal, como poderia ser a Colômbia ou o Tibete.

Entrevista de Fernando Magalhães / Público, 19/06/1998 [Danças Ocultas respiram em novo disco: Ar de fole]
http://poeira-cosmica-fm.blogspot.com/search/label/Danças%20Ocultas

capa: http://filosofiadecurral.blogspot.com/2010/01/ir-para-uma-ilha-deserta-e-levar-um.html

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Oito

Oito - Rádio Macau (iPlay, 2008)

Oitavo registo de originais, editado no ano de 2008. O número oito tem algum simbolismo?

Xana : Não. Há apenas a graça de, depois de a capa estar feita, vermos o oito assemelhar-se ao símbolo do infinito.

Flak : A razão principal [para o nome do disco] foi o facto de não termos encontrado um nome, ou uma frase, que pudesse definir este grupo de canções, adequado aos textos da Xana e do Pedro Malaquias. É um grupo de canções mas não tem nada de conceptual. Acho piada a discos com números – é um clássico, como no caso dos Led Zeppelin.

Entrevista de Mário Rui Vieira /Blitz 28/03/2008

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Jardim


Jardim - Tiago Bettencourt e Mantha (Universal, 2007)
«Há uma música que se chama 'O Jardim' que está escondida (...) e que assim fica assinalada no nome do álbum. Antes sequer de chamar a essa música 'O Jardim' começei a reparar que todas as musicas usam várias palavras e varias metáforas relacionadas com a natureza e com os elementos e acho que tem muito a ver chamar "O Jardim"», afirmou Tiago Bettencourt, «E ainda mais porque ao pé do estúdio onde estávamos a gravar em Montreal havia uma escola infantil e em frente à escola infantil havia um muro de madeira pintado por crianças com a representação de um Jardim. (...) Eu fotografei aquilo tudo (...) pedimos autorização á escola e usei isso para fazer todo o booklet do álbum», completou.
Samuel Cruz / IOL , 01/10/2007

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Fados de Amor e Pecado


Fados de Amor e Pecado - Ana Sofia Varela (iPlay, 2009)

"Fados de Amor e Pecado" é um projecto com um percurso bem longo, que começou ainda nos anos 90. Sem saber, estiveste na sua origem.

Tudo começou durante a Expo'98, com o espectáculo "De Sol a Lua - Flamenco e Fado", para o qual o João Gil e o João Monge tinham sido convidados. Estando já inserida nesse tal espectáculo de fado e flamenco, cantei dois dos temas que estão presentes neste disco, o "Fado de Amor e Pecado", que dá nome ao álbum, e "Estranha Vontade". Também participou nesse espectáculo o Camané, que cantava o "Lua de Todos", outro dos temas que estão no álbum. E tudo começa aí, a vontade de um dia fazer um álbum de fado, a aproximação ao universo do fado, a convivência com os fadistas... Inclusivamente o Monge chegou a escrever um álbum para a Aldina Duarte, e escreveu para outros fadistas, entre eles a Mísia. Esta dupla passou, cada vez mais, a beber de todo este mundo.

Talvez seja um pouco forte a palavra, mas este álbum parecia estar--te "predestinado"...

Sim, um pouco. Em 2007, eles falaram-me na questão de ser eu a cantar mas eu na altura não estava preparada porque tinha saído o disco do projecto "Sal", com o José Peixoto, o Fernando Júdice e o Viki. E eu, embora adorasse a ideia, tive que recusar. Depois o processo atrasou-se e acabei por seu eu, afinal, a cantar estes temas. Portanto, o destino tem muito que se lhe diga. Estava predestinada para este álbum - é isso mesmo.

Neste álbum, João Monge assume um ponto de vista feminino para contar as histórias que se materializam em cada fado. Nesse sentido, além de cantora, há aqui também um trabalho de actriz?

Foi um método de trabalho muito interessante, novo para mim. Isto porque, na sua globalidade, este álbum tem temas com os quais eu não me identifico. Há, por exemplo, um tema que fala de uma viúva e o "Fado de Amor e Pecado", um tema fortíssimo que é sobre uma mulher que mata o marido. Ou seja, no álbum, todo ele, que conta histórias de várias mulheres, eu tive que encarnar alguns personagens e, sim, tive que fazer um pouco trabalho de actriz, indo ao encontro do que o Monge pretendia. Ele disse-me: "Sim, é mesmo isso, é mesmo por aí que tens que ir, estás a interpretar a coisa como deve de ser". Isso não aconteceu tanto no outro disco que eu fiz, porque aí foi uma escolha mais minha, com temas com os quais me identificava muito mais. É um pouco essa a diferença.

Isso faz com que o sintas menos teu?

Não. Eu sinto este trabalho como meu. É um trabalho a três, é assim que eu o assumo - meu e dos "joões" - mas também o considero como o meu CD. São ambas as coisas. Porque o vivi intensamente e entreguei-me como se fosse meu. Portanto, é o meu disco, o meu segundo disco de fado, até porque estive no início de tudo.

Quem são estas mulheres que protagonizam estas 12 histórias?

São várias tipos de mulheres, todo o tipo de mulher e todo o tipo de amor. São histórias autónomas mas todas elas à volta do amor e do pecado, da traição, do ciúme, da saudade... Há a mulher que mata o marido, em "Fado de amor e pecado"; há a viúva, que sente o marido sempre presente, embora ele tenha já partido, tal era o amor que sentia. São histórias atravessadas por sentimentos muito fortes: ciúme, amor, ódio, raiva, desprezo... E eu, assim que vi os temas, senti que ia adorar fazer este disco, não só por ser algo de novo para mim, mas também por serem melodias e palavras fantásticas para se cantar. Fiquei muito feliz com o que me foi dado para poder dar voz, interpretação, a minha criatividade e a minha visão.

Entrevista de Carla Ferreira / Diário do Alentejo, 27/11/2009

domingo, 3 de janeiro de 2010

Macaréu


Macaréu - Gaiteiros de Lisboa (Aduf Edições, 2002)

Por que razão chamaram Macaréu a este trabalho?

Saiu de uma letra, e em torno do nome do disco começou a gerar-se um conceito e a construir-se um mundo que por vezes ; virtual mas que nos dá muito jeito. Acaba por ser também um pouco a nossa atitude em relação à música portuguesa. A mim pelo menos por vezes apetece-me levar tudo à frente.

Entrevista de Guiomar Belo Marques / Revista 30 Dias - Oeiras Jun/2002

Macaréu, s.m. Onda de arrebentação que, próximo à foz pouco profunda de certos rios, por ocasião da maré montante, irrompe de súbito em sentido oposto ao do fluxo das águas do rio, e, seguida de ondas menores, sobe rio acima, por vezes com forte ruído e devastação das margens,amortecendo-se à medida que avança.
FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda, Novo Dicionário da Língua Portuguesa, 2ª ed., Rio de Janeiro, Editora Nova Fronteira, 1986

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

O Primeiro Canto

O Primeiro Canto - Dulce Pontes (Universal, 1999)

SM - Fale um pouco de O Primeiro Canto, seu novo CD...
DULCE - Foi um trabalho conceitual, um desafio enorme. Procurei traduzir, em sua amplitude, o significado dos quatro elementos: terra, fogo, água e ar. Tudo da maneira mais simples possível, sobretudo nos arranjos.

SM - Na capa do disco você aparece coberta de lama. Como foi fazer aquela foto?

DULCE - É, apareço completamente nua, coberta de barro. As fotos foram produzidas às 6h30 da manhã pelo fotografo holandês Maarten Corbijn, que foi espetacular. Estava superfrio e ele ficou de cueca para ser solidário.

Em 2009 revelou que está a preparar o seguimento de "O Primeiro Canto".