segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Homem Na Cidade

Homem Na Cidade - Carlos do Carmo (Trova, 1977)

(...) era a primeira parte de um tríptico que ainda conheceu o segundo painel, "Um Homem no País", mas que não viria a ser concluído, devido à morte de José Carlos Ary dos Santos, autor das letras e peça central na elaboração do conceito. Para Ruben de Carvalho, estudioso do fado e editor do livro "As Palavras das Cantigas" de Ary dos Santos, este disco não representará tanto uma viragem numa obra poética - "as letras não constituem uma grande alteração quer relativamente a Lisboa quer relativamente ao conceito da integração social e do papel social da individualidade e do homem" - mas sim um dos pontos altos da música portuguesa.

No caso 'Um Homem na Cidade' estamos perante um disco de fado com duas características inovadoras: uma grande diversidade de compositores, alguns deles conquistados para o fado pelo Carlos do Carmo e pelo Ary, e um nível médio de composições poéticas muitíssimo elevado. É evidente que a situação é diferente relativamente à Amália, pois em 'Um Homem na Cidade' temos um fadista que propõe ao Ary um projecto e que assume, de certa maneira, o papel de produtor." Esta pedrada no charco é salientada pelo próprio Carlos do Carmo, que se assume como autor da "esmagadora maioria dos arranjos" de um dos seus álbuns mais famosos.

"Queríamos [Carlos e Ary] olhar para o fado de forma mais positiva, menos doentia. E visitar Lisboa respirando a sua liberdade". 1977, dois anos após a revolução de Abril: "Um Homem na Cidade" afirma-se não só como uma ode à Lisboa de então ("Eu sou um homem na cidade/que manhã cedo acorda e canta/e por amar a liberdade/com a cidade se levanta"), mas também como colecção de retratos - Carlos do Carmo diria "aguarelas" - de figuras que o tempo vai consumindo: o homem das castanhas, o amarelo da Carris, as varinas ou as velhinhas nos bancos dos jardins.

Texto de Miguel Francisco Cadete / Público, 13/06/2003

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Saber~A Mar

Saber~A Mar - Delfins (BMG, 1996)

As gravações do disco foram em São Paulo e Rio de Janeiro. É um trocadilho com o nome de um tema dos brasileiros Paralamas do Sucesso, "Saber Amar", de que os Delfins fizeram uma versão para esse mesmo álbum.

sábado, 11 de setembro de 2010

Rosa Carne

Rosa Carne - Clã (EMI, 2004)

- Algum motivo especial para a escolha do título do álbum?

MA – "Rosa Carne" é uma expressão que está na letra da canção "Aqui Na Terra", escrita pela Regina Guimarães. Foi das últimas letras que apareceram. Quando surgiu, as canções já estavam alinhavadas e encontrávamo-nos à procura de um nome para o disco. Havia uma lista enorme de hipóteses, mas quando vimos a expressão "Rosa Carne" na letra do tema, achámos que era a ideal para definir o álbum. Houve um coincidência curiosa: sendo feitas de forma dispersa e por vários autores, as letras das canções traziam quase todas uma mulher ou o universo feminino como personagem. "Rosa Carne" é uma expressão muito feminina. Gera um certo apelo que nos agrada. Cruza a analogia das flores com as mulheres e reflecte-se nos temas abordados no disco.

Entrevista de Filipe Rodrigues da Silva/Diário Digital, 03/05/2004

terça-feira, 7 de setembro de 2010

99.9

99.9 - Despe & Siga (BMG, 1999)

Nasceram após uma transformação no seio dos velhos Peste e Sida. Com sangue novo, ideias arejadas e montes de boa disposição e humor, acabam de lançar aquele que é já o terceiro álbum da banda sob o nome Despe e Siga. O novo disco intitula-se "99.9", brinca com os mitos e manias deste mundo na vertigem do milénio e surpreende com um ska/reggae/pop tecnológico devidamente embalado num novo visual, muito geração cyber...

- Em matéria de letras, o álbum "99.9" — ao contrário dos anteriores, agora exclusivamente com temas originais da banda — conserva intacta a vossa habitual dose de ironia e bom humor?...

Claro que sim, isso tem a ver não só com o nosso projecto mas é algo que faz parte da nossa postura e da nossa maneira de viver. A forma como nos relacionamos entre nós e com as outras pessoas é sempre optimista — mesmo com o maior dos problemas, nunca afunilamos muito as questões e quando escrevemos as canções, isso acaba por sair e transparecer de uma forma natural. Em termos de fio condutor, continuamos a explorar a língua portuguesa, procurando formas que a tornem cada vez mais musical e que se enquadrem bem no estilo que fazemos — pode estar dentro da área do pop/rock... mas é pop/rock português, sem dúvida. É isso que sempre temos tentado fazer desde o início, mesmo com as versões, ao fazê-las em português — é esse caminho que procuramos sempre aprofundar e, consideramos que neste disco conseguimos chegar a um bom ponto.

- O que pretendem transmitir com a canção "Radio Ska"?

A base desta canção é a ideia de fazer uma emissão de Rádio que fosse a nossa rádio, uma estação fictícia, a Rádio Ska, na frequência de 99.9, que tem notícias e uma playlist... É claro que chamámos a essa playlist as bandas portuguesas que, de alguma forma, abordam um bocadinho ou têm alguma coisa a ver com o ska e com o reggae — daí que convidássemos a essa "Radio Ska" os Trabalhadores do Comércio, os Taxi, os Ornatos, os Kussondulola...

Entrevista de AF / Musicnet, Abril de 1999